Me formei Engenheiro Civil no final do ano de 1970. No ano seguinte fui convidado para dar aulas, em tempo parcial, de exercício da disciplina Mecânica Geral que fazia parte do currículo do primeiro ano da Engenharia. Dei minha primeira aula no mesmo lugar onde tinha estudado, no prédio do biênio da Escola Politécnica, também conhecido como cirquinho, pela seu formato circular. Como aluno me comportava como um daqueles "pentelhos", do tipo semiquestionador, que procurava fazer perguntas que testasse o professor. Posso atribuir isto à crise de autoridade que questionava sistematicamente o poder constituido, e todo conhecimento burguês. Vivíamos sob um governo autocrático. Tinha passado agora "do outro lado", o que significava ter que ficar esperando possível armação de alguma arapuca pelos emilios que assistiam aula.
Fico pensando como nos fez falta algum treinamento didático. Como muitos, tive que aprender na prática, coisas elementares como não falar de costas para a classe, não ficar na frente do projetor, como usar o power point que deveria sair legível, e fazer interessante o estudo da estática, da cinemática e da dinâmica.
Entrei na sala de aula, com o diário de classe nas mãos, ladeado pelos os alunos e de forma muito automática fui sentar numa carteira de aluno, como fizera toda a vida. Uma sensação de estranheza na mudança, não sei o quanto Freud pode explicar, fora a insegurança. Mas em seguida assumi o pódio e levei minha primeira aula com a orelha em pé e um pé atrás, mas deu tudo certo, graças a Deus. (Também pudera, estava com os problemas já resolvidos para copiar na lousa).
Devido a burocracia universitária, só fui receber meu primeiro salário depois de seis meses -- uma bolada que torrei num radinho de pilha e na primeira parcela da Encyclopaedia Britannica.


