segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A primeira vez que eu dei aula na faculdade





Me formei Engenheiro Civil no final do ano de 1970. No ano seguinte fui convidado para dar aulas, em tempo parcial, de exercício da disciplina Mecânica Geral que fazia parte do currículo do primeiro ano da Engenharia. Dei minha primeira aula no mesmo lugar onde tinha estudado, no prédio do biênio da Escola Politécnica, também conhecido como cirquinho, pela seu formato circular. Como aluno me comportava como um daqueles "pentelhos", do tipo semiquestionador, que procurava fazer perguntas que testasse o professor. Posso atribuir isto à crise de autoridade que questionava sistematicamente o poder constituido, e todo conhecimento burguês. Vivíamos sob um governo autocrático. Tinha passado agora "do outro lado", o que significava ter que ficar esperando possível armação de alguma arapuca pelos emilios que assistiam aula. 

Fico pensando como nos fez falta algum treinamento didático. Como muitos, tive que aprender na prática, coisas elementares como não falar de costas para a classe, não ficar na frente do projetor, como usar o power point que deveria sair legível, e fazer interessante o estudo da estática, da cinemática e da dinâmica.

Entrei na sala de aula, com o diário de classe nas mãos, ladeado pelos os alunos e de forma muito automática fui sentar numa carteira de aluno, como fizera toda a vida. Uma sensação de estranheza na mudança, não sei o quanto Freud pode explicar, fora a insegurança.  Mas em seguida assumi o pódio e levei minha primeira aula com a orelha em pé e um pé atrás, mas deu tudo certo, graças a Deus. (Também pudera, estava com os problemas já resolvidos para copiar na lousa).

 Devido a burocracia universitária, só fui receber meu primeiro salário depois de seis meses  -- uma bolada que torrei num radinho de pilha e na primeira parcela da Encyclopaedia Britannica. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Acabou ontem o horário de verão II - O dilema

No ano passado, postei uns versos que fiz a respeito do "Horário de Verão", que estou em seguida reproduzindo. Neste ano, não foi igual, como seria em princípio esperado. Explico no final.






Deus eterno
Onipotente,
Criou o tempo
Fez essa travessura com a gente

Deu um peteleco
e fez girar a terra em torno de seu eixo
Nasceu dia e noite

Não lhe cabe desleixo,
mas fez elíptico o movimento de translação e
Nasceu o verão

O homem, criatura
criou a física,
A matemática, a metafísica

E inventou o relógio, o calendário
E o governo

Alegando economia
Ousou legislar sobre o tempo,

Um dia nos tomou uma hora
Que nos dá de volta agora

Moral da história:
O relógio no painel de meu carro é que estava certo.

(fim da mensagem)

A moral da história, neste ano é oposta:
O relógio do painel do meu carro já não estava certo, porque o carro foi fazer revisão durante a vigência do horário de verão, e como parte dessa revisão estava regular o relógio que foi devidamente adiantado de uma hora. 

Que dilema! Ajustar a hora agora, ou deixar ficar como está que o relógio será atualizado quando e se o carro for para a revisão; caso contrário já estará marcando correto quando o próximo horário de verão passar a vigir? 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

"Sir" Peter Hall




roteiro de visita de "East London" -- desenhado por Peter Hall 

Cheguei num momento da vida marcado pela perda sucessiva de pessoas queridas, que começa a suplantar o estabelecimento de novos relacionamentos. Embora as chamadas redes sociais tenham permitido o resgate e o fortalecimento das velhas -- mais eternas -- amizades. Incluem-se entre as perdas parentes, professores, escritores e músicos, colegas de escola, personalidades da vida pública, que, dia sim outro também (para usar uma metáfora conhecida) se tornam novas estrelas no firmamento. Para alguns deles até deu para eu escrever uma oportuna postagem em memória. Outros eu gostaria de ter podido registar meu apreço mas não deu (ainda).

Uma dezena de vezes fui convidado para deixar registrada minhas memórias da pessoa que se foi. É uma tarefa que gosto de assumir pela oportunidade de relembrar a pessoa, revisitando o passado. Foi o que ontem me tomou um pouco do meu tempo de semidesocupação: atender ao pedido que recebi por parte do editor do Berkeley Planning Journal, revista editada pelos estudantes de doutorado do Departament of City and Regional Planning, da Universidade da California, em Berkeley, onde obtive meu grau de Master of City Planning, um e-mail informando que o próximo número da revista iria homenagear "sir" Peter Hall, falecido em julho passado, e que foi professor do Departamento. Pedia "submissions in memoriam from scholars who have worked with or knew Peter Hall". Eu!

Dentre as pessoas que estabeleci cordiais relações, Peter Hall deve ter sido a mais importante.

Peter Hall era diretor de Instituto de Desenvolvimento Urbano e Regional, onde fui aceito como Visiting Scholar, entre 1989-1991. O relativamente pequeno espaço do Instituto facilitou de conhecê-lo melhor e a aura que o acompanhava. No Verão de 1991, a ACSP e AESOP organizaram pela primeira vez uma conferência conjunta em Oxford, na Inglaterra. Peter Hall e David Harvey foram os principais oradores da sessão de abertura.

Após a conferência, Peter Hall gentilmente se ofereceu para fazermos uma visita a Londres. Disse que como um pesquisador sobre a cidade, seria para ele uma oportunidade para verificar como estavam as coisas ao redor. Foi uma tour único, para um brasileiro: o itinerário incluiu sinais da muralha romana, lugares reconstruídos após o bombardeio WW II, o pub preferido por Churchill, empreendimento nas Docklands, casas governamentais que mudam suas portas conselho como um sinal de que eles haviam sido privatizadas, e assim por diante.

Tive outras oportunidades para encontrá-lo mais tarde: em Veneza, em Brasília, da última vez em Londres, em 2005, na conferência sobre Computadores em Planejamento Urbano e Gestão Urbana - CUPÙM, Desta vez, já tendo sido feito "Sir" pela rainha Elizabeth, não sendo possível me acompanhar num passeio de carro, ele bosquejou um roteiro do "circuito do leste de Londres" -- local da vila olímpica -- a ser feito usando o Tube. É o desenho acima que guardei como lembrança. Foi desenhando em sua casa após o jantar que o casal me ofereceu. Acho que tem uma linguagem artística.

De onde veio esta "amizade"? Éramos dois estrangeiros na California, Ambos praticávamos o senso de humor britânico e a cordialidade brasileira, num território de liberdade.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Feliz ano novo! Ano do cabra





Retomando, quatro meses e meio desde a última postagem, Não que não tivesse tido tentações de escrever neste meio tempo, em que muita coisa saliente aconteceu. Achei melhor recomeçar num momento de retomada. Hoje, no ciclo do tempo há a conjugação de duas efemérides: é quarta-feira de cinzas, que marca o início da quaresma, e a virada para o novo ano lunar do calendário chinês que é o ano do cabra. Pus no masculino, pacificando uma possível controvérsia. Cabra -- mais especificamente cabra macho, como querem no nordeste -- parece ser a tradução mais adequada para esse animal do desenho, uma ovelha negra com cornos. A chegada do ano novo é momento de expressar intenções. Some-se ao tempo da quaresma, momento de mostrar que somos capazes de sacrifícios, abandonando temporariamente algum hábito ou coisa do qual somos dependentes. Na minha infância, ficamos sem balinha. Hoje a moda para muitas mulheres piosas é não comer doce, até que chegue a páscoa com seus ovos de chocolate. Foi numa quaresma que me libertei do video-game. Estou sendo portanto empurrado pelas energias do dia de hoje em que se associam intenções (que vem do oriente) com sacrifícios (que vem do ocidente). Tinha interrompido a blogagem por causa da confusão de uma reforma em nosso apartamento que nunca vai acabar. Mas que amanhã já vai permitir que eu tome um banho usando um novo chuveiro. Com parcimônia por causa da crise hídrica que vivemos em São Paulo.