terça-feira, 29 de setembro de 2015

A rua onde eu moro

Map of R. Dr. Mario Ferraz, São Paulo - SP

Rua Doutor Mario Ferraz 

O primeiro livro (livro mesmo) que li em inglês se chamava Cannery Row, do Steinbeck. Facilitavam as coisas o fato de ser pouco maior que um opúsculo, ambientado na região em que eu estava morando no norte da Califórnia e como escrevia o autor! -- prêmio Nobel de Literatura. Pode-se dizer que se trata de uma novela onde o personagem principal era a rua -- a Cannery Row localizada em Monterrey. Neste cenário conviviam personagens especiais, cuja humanidade o autor sabia traduzir em palavras, como poucos. 

Tenho alguma inveja de quem conseguiu produzir uma tal obra. 

Ontem de manhã, levei meu carro para consertar um vidro que não fechava, e voltei a pé para casa, e no caminho fiquei identificando personagens que habitam a rua onde eu moro: tem um mendigo que dorme na calçada, acompanhado de seu carrinho de mão cheio de porcarias; tem um "bicheiro", um caminhão quitanda; vendedora de flores ocasional; é o endereço de um empalhador de cadeiras; tem manobristas de restaurantes, farmácias e cabeleireiros; seguranças atrás de guaritas dos edifícios residenciais ; a rua é monitorada. 

Tem um local onde a periferia encontra o centro de consumo; o pessoal que chega de trem vem até a esquina da minha rua para pegar o ônibus até o centro. No ponto de baldeação, numa "ilha" tomam um cafezinho com bolo, e os desocupados ficam por lá jogando dado ou baralho. E sujando o chão. De um lado um edifício de escritórios onde se acertam grandes negócios, do outro lado o Empório Santa Maria, com seus produtos importados. 

Passam muitas pessoas pela minha rua particularmente na hora do rush; no meio do dia os moradores mais idosos e cachorros saem para passear, e à noite tem baladas e o Azucar -- cigar lounge -- onde se dança música cubana. Na hora do almoço, os restaurantes ficam lotados de funcionários que trabalham nos escritórios na região da Faria Lima; homens de gravata e mulheres de terninho. 

São muitas estórias e personagens.






quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Autocentrismo







Sabia que a porta ficava naquela parede do aeroporto de Congonhas; mas entrei numa outra ao lado. Dentro só mulheres me olhando indignadas. A pergunta que me veio logo à mente foi: "O que é que esta mulherada está fazendo aqui dentro?"

Quando a "ficha caiu", fiquei com medo de voltar para o saguão porque iria passar uma vergonha maior diante daquele amontoado de gente que -- ou já viram eu entrando pela porta errada, ou que iria ver eu saindo daquela porta errada.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Dia da árvore



Cópia da troca de mensagens com meu amigo Toyo Kato no Facebok 









sábado, 19 de setembro de 2015

Yin-yang







Doce e salgado acabaram se tornando antitéticos, por alguma boa lógica. "Cabe" no modelo da dualidade: o doce na "porção feminina" (Yin) e o salgado na "masculina"(Yang). 

Sempre gostei de alternar a comida doce com a salgada. Em festas, depois dos salgados, servem doces, em geral acompanhando um bolo, e logo fico ávido para um salgadinho. (Uma vez me disseram que comer um pedacinho de pão no final de refeição traria uma distensão e a paz)

Em 1996, a China tinha recém descoberto o mercado das conferências técnico científicas, e o governo apoiava a captura de conferências internacionais. Surgia a possibilidade de se visitar um país que se abria ao mercado. Assim, fomos participar de uma conferência patrocinada pelo Research Committee on Housing and Built Environment RC43, da International Sociological Association, em Beijing, que já mereceu uma postagem anterior neste blogue ( http://semidesocupado.blogspot.com.br/2015/04/beijing-em1996.html )

Uma das atividades do encontro foi uma visita à Grande Muralha. Tínhamos como guia estudantes universitários chineses, que rabiscavam o idioma inglês, dirigidos por uma professora. Paramos para almoçar, e me sentei numa mesa redonda em que estava aquela senhora que atendeu nossa curiosidade sobre tópicos da cultura e os eventos recentes naquele país. Contou que esteve anos separada do marido, enviado para o campo durante a Revolução Cultural.

Como uma mãezona, nos servia, com os "dois pauzinhos". E alternava pratos doces e salgados, como lá era contumaz, seguindo a noção taoista do yin-yang.

Com o que sobrou do lanche, ela fez uma "quentinha", para levar para casa. O capitalismo incipiente ainda não tinha imposto a cultura do desperdício. 



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Custo de oportunidade



Me lembro das aulas sobre a aplicação da análise custo/benefício a projetos de desenvolvimento econômico. No cálculo dos benefícios deveriam se incluídos todos os benefícios, privados e públicos. Na outra ponta, deveria ser usado o "custo de oportunidade" ou seja o custo alternativo para o uso de um dado recurso.

Fiquei semiespantado quando os manuais indicavam que, em condições de desemprego, deveria se adotar como custo de oportunidade da mão de obra o valor zero.

Estes conceitos provenientes da "Welfare Economics" têm se concretizado no meu dia a dia de aposentado... Quando saio de casa -- em horário laboral -- para ir comprar tomate para o almoço, ou quando me dedico à venda de meu carro velho, sinto na carne a "zeração" do meu custo de oportunidade.

Ficou assim semidifícil a recusa quando te pedem para fazer algo que "custa nada" ou como preferem na duplanegação: "não custa nada". Por exemplo, recebi um pedido para ir buscar no aeroporto de Guarulhos uma professora espanhola que vem participar de uma conferência em São Paulo, e que deve chegar às 5 horas da madrugada. Como meu custo de oportunidade é zilch interpreto esta incumbência como se fosse um agradável passeio de carro pela Zona Leste para ver aviões aterrizando e decolando, ao alvorecer. .


terça-feira, 15 de setembro de 2015

Dois méis






da cana de açúcar 
se produz o mel de cana
adoçante natural
e a cachaça 
para a caipirinha

do agave
se produz o mel de agave (foto)
adoçante natural
e a tequila 
para a margarita 









sábado, 12 de setembro de 2015

Banda


No alfabeto árabe não existe o que corresponda à nossa letra P. Por esse motivo aquelas pessoas que tem o árabe como língua materna pronunciam no seu lugar o som que lhe é mais próximo -- o da letra B, por sinal a primeira consoante do árabe. 

Trocar o P pelo B é um dos recursos de artistas de teatro ou na televisão  que interpretam papéis de personagens com origem árabe. E de muitos causus engraçados... 

Uma piada (em inglês) fala de um jovem palestino que queria integrar a força de segurança de seu país, e foi fazer uma entrevista. O major (ou equivalente) disse que para a posição ele teria que passar por um teste para saber se era devidamente alfabetizado. Perguntaram-lhe como se escreve Palestina, com um P ou com um B. Ele disse com um B, é claro, como em Bombei, aquela cidade que fica na Itália, não aquela que fica na Índia.

Me lembrei deste assunto porque estive hoje fazendo compras numa loja na região da rua Santa Efigênia, no centro de São Paulo, que pertence a uns árabes, Eu era sempre atendido por um vendedor -- não árabe, mas que ia rezar na mesquita com os patrões. Era meio gordinho com olhos meio amendoados e tinha o apelido de Panda. Perguntei por ele e o vendedor Hassen Hazan me disse que "a Banda não estava mais lá."


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Secretária







Na virada dos anos 70, época em que comecei a trabalhar, aqueles com funções mais executivas, tinham uma secretária. Em geral ocupavam a ante sala do chefe. Datilografavam cartas e documentos, organizavam os arquivos, faziam e atendiam telefonemas, cuidavam da agenda do chefe. Funções essas que hoje em dia são feitas através de tecnologias modernas de processamento de informação.

Percebi que a secretária era uma espécie em extinção quando, em 1989, cheguei para fazer meu pós-doutorado em Berkeley, e vi que os professores, muitos deles importantes, não tinham secretária. Cuidavam eles mesmos de digitar e editar seus textos, se correspondiam através de e-mail, e contavam com uma secretária eletrônica, ali chamada de "answering machine", 

Tive algumas secretárias que muito contribuíram para me deseducar em matéria de organização, que não tenho muita, em boa parte porque deixava na mão delas.

Vou falar da Ana, de família japonesa, do interior do Paraná, que veio para São Paulo para ajudar a cuidar das crianças de uma prima, enquanto fez um curso de secretariado (não sei se ainda existem). Através de concurso entrou no IPT, onde eu trabalhava, e ganhei-a como contrapartida por ter aceitado coordenar um convênio de pesquisa e desenvolvimento com uma empresa de fibrocimento. 

Muito jeitosa e bem humorada, conquistou a amizade e confiança das outras secretárias, o que facilitava muito o acesso às pessoas. Muito simples, vivia chamando minha atenção sobre coisas prosaicas, por exemplo quando eu chegava atrasado.

A última notícia que tive dela foi através de um colega de Poli, o Décio, que me ligou dizendo que conheceu-a num voo. Ela hoje se dedica à prática do reiki.   


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Kandinsky




Kandinsky - Composição VIII (1923)



régua e compasso
geometrizam 
    colorido espaço 

Epa!
uma espiroqueta 
                 xereta 


sábado, 5 de setembro de 2015

Andu




Farofa de feijão andu

Na escola, em aulas de biologia, aprendemos "gênero e espécie". Como exemplo frequente, Homo (gênero) sapiens (espécie).

Para mim feijão era... feijão. Mas é um gênero com muitas espécies, umas mais conhecidas que outras. Tem o preto, o branco, o fradinho, jalo, o vermelho,  rajado... Tem também o feijão andu, que acabamos de conhecer: redondinho como a lentilha e se come ainda meio verde. Nunca tínhamos visto à venda nos mercados de São Paulo

Nossa empregada, Ana Maria, foi passar as férias em sua cidade, Francisco Badaró, no interior de Minas Gerais, e trouxe consigo o feijão andu para perpetrar essa delícia da culinária mineira: a "farofa de andu", um prato semi-primo do feijão tropeiro. tem ovos, bacon e costelinha de porco picadinha, temperos.

O típico "bão demais"


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

It was the third of September







It was the third of September
The day I always remember...

O resto da composição interpretada pelos Temptations: Papa was a rolling stone (rimada com alone) é muito bonita e bem feita. Mas armazenar na memória a primeira rima me satisfazia.

Um dia, olhei meu caderno escolar (na época a gente usava caderno)  e notei na primeira página a data de 3 de setembro. Indicava meu primeiro dia de aula em Stanford  -- um momento muito significativo. E a musiquinha me veio à mente. Tem muitas coisas -- acho até que é a maior parte delas -- que a gente não esquece porque se lembra de ter se lembrado um dia.

Na minha bagagem tinha um terno que mamãe fez questão que eu levasse comigo para os Estados Unidos para ser usado na faculdade como ela imaginava ser o costume. Ela não podia imaginar com teria ficado muito "out", aparecer na classe com traje passeio; seria provavelmente tido como um elegante marciano. (Mas nem tudo escapa da intuição materna: passados mais de dois anos acabei precisando usá-lo numa homenagem ao diretor da faculdade que se aposentava).

Era praticamente inevitável que eu viesse a lembrar desse som, hoje, dia 3 de setembro -- "a day I always remember" como quis o verso inicial da música. Para quem quiser comigo relembrar ou conhecer este balanço, basta clicar na imagem acima.Vale a pena uma aumentadinha no volume.