Rua Doutor Mario Ferraz
O primeiro livro (livro mesmo) que li em inglês se chamava Cannery Row, do Steinbeck. Facilitavam as coisas o fato de ser pouco maior que um opúsculo, ambientado na região em que eu estava morando no norte da Califórnia e como escrevia o autor! -- prêmio Nobel de Literatura. Pode-se dizer que se trata de uma novela onde o personagem principal era a rua -- a Cannery Row localizada em Monterrey. Neste cenário conviviam personagens especiais, cuja humanidade o autor sabia traduzir em palavras, como poucos.
Tenho alguma inveja de quem conseguiu produzir uma tal obra.
Ontem de manhã, levei meu carro para consertar um vidro que não fechava, e voltei a pé para casa, e no caminho fiquei identificando personagens que habitam a rua onde eu moro: tem um mendigo que dorme na calçada, acompanhado de seu carrinho de mão cheio de porcarias; tem um "bicheiro", um caminhão quitanda; vendedora de flores ocasional; é o endereço de um empalhador de cadeiras; tem manobristas de restaurantes, farmácias e cabeleireiros; seguranças atrás de guaritas dos edifícios residenciais ; a rua é monitorada.
Tem um local onde a periferia encontra o centro de consumo; o pessoal que chega de trem vem até a esquina da minha rua para pegar o ônibus até o centro. No ponto de baldeação, numa "ilha" tomam um cafezinho com bolo, e os desocupados ficam por lá jogando dado ou baralho. E sujando o chão. De um lado um edifício de escritórios onde se acertam grandes negócios, do outro lado o Empório Santa Maria, com seus produtos importados.
Passam muitas pessoas pela minha rua particularmente na hora do rush; no meio do dia os moradores mais idosos e cachorros saem para passear, e à noite tem baladas e o Azucar -- cigar lounge -- onde se dança música cubana. Na hora do almoço, os restaurantes ficam lotados de funcionários que trabalham nos escritórios na região da Faria Lima; homens de gravata e mulheres de terninho.
São muitas estórias e personagens.








