terça-feira, 29 de outubro de 2013

Lou Reed

Em 1974, com um grupo de amigos que morávamos na International House, dormitório de Berkeley, fui para San Francisco para assistir ao show do Lou Reed. Seu falecimento neste fim de semana que passou, foi motivo de matérias na grande imprensa que permitiram fechar um ciclo pessoal para entender o que ocorrera então. Nos anos que eu estudava em Berkeley, estava acontecendo uma série de transformações culturais na região de San Francisco, que me deixavam meio perdido. Para usar uma expressão que aprendi com a Ângela, era como seu eu “não soubesse da missa a metade”. O show foi no Fillmore, famosa casa de espetáculo em San Francisco, e logo ao entrar, me deparo com um destes pré-punks vestido de plástico, percebi um diferente que um novo ciclo de rock and roll estava chegando. Muitos anos depois, revistando tudo pelo youtube, comecei a perceber que aquele rock dos Beatles era mundo, e o que o Lou Reed trazia para a luz era o submundo. Vinha de Nova Iorque, e não de Tenessee, ou das praias de Los Angeles. Não tinha mais a pegada country do Creedence, tampouco o bom mocismo feliz dos Beach Boys, ou o resquício caipira do rei, Elvis Presley. Lou Reed pintava de esquisito, “weird”, como se dizia, os cabelos avermelhados, e deixou a plateia de praticantes alucinada quando, ao entoar seu clássico “Heroin”, simulou tomar um pico no braço, que enrolava com os fios do microfone como se fossem aquelas borrachas do farmacêutico, após o que declamava:


Heroin, be the death of me
Heroin, it's my wife and it's my life, ha-ha
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then I'm better off than dead

Muito diferente de: Meu broto me avisou que ia estudar, aiaiaiai...

Imaginem o estado de minha coitada cabecinha vinda de um país onde havia censura e qualquer apologia do uso de drogas era crime contra a segurança nacional!

As fichas começaram a cair ao ler as análises publicadas hoje sobre papel do Lou Reed para a conformação do que se tornou o rock em seguida, mais pesado, nas suas vertentes punk, metal, trash, etc, Salientam o talento e a enorme fertilidade deste artista cujo berço artístico remonta ao Andy Warhol, mentor do Velvet Underground, primeira banda do Lou Reed.


Muitos anos depois, em 2000, fui revê-lo, mais domado e bonito, num show no Credicard Hall em São Paulo. Ignorou a plateia, que gritava “Take a walk...” Meu sobrinho Tiago que também fora assistir por conta própria me comentou que havia notado que tinha muito tiozinho no show. 

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