Em 1974, com um grupo de amigos que morávamos na
International House, dormitório de Berkeley, fui para San Francisco para assistir
ao show do Lou Reed. Seu falecimento neste fim de semana que passou, foi motivo
de matérias na grande imprensa que permitiram fechar um ciclo pessoal para
entender o que ocorrera então. Nos anos que eu estudava em Berkeley, estava acontecendo
uma série de transformações culturais na região de San Francisco, que me
deixavam meio perdido. Para usar uma expressão que aprendi com a Ângela, era
como seu eu “não soubesse da missa a metade”. O show foi no Fillmore, famosa
casa de espetáculo em San Francisco, e logo ao entrar, me deparo com um destes pré-punks
vestido de plástico, percebi um diferente que um novo ciclo de rock and roll
estava chegando. Muitos anos depois, revistando tudo pelo youtube, comecei a perceber
que aquele rock dos Beatles era mundo, e o que o Lou Reed trazia para a luz era
o submundo. Vinha de Nova Iorque, e não de Tenessee, ou das praias de Los
Angeles. Não tinha mais a pegada country do Creedence, tampouco o bom mocismo
feliz dos Beach Boys, ou o resquício caipira do rei, Elvis Presley. Lou Reed
pintava de esquisito, “weird”, como se dizia, os cabelos avermelhados, e deixou
a plateia de praticantes alucinada quando, ao entoar seu clássico “Heroin”,
simulou tomar um pico no braço, que enrolava com os fios do microfone como se
fossem aquelas borrachas do farmacêutico, após o que declamava:
Heroin, be the death of me
Heroin, it's my wife and it's my
life, ha-ha
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then I'm better off than dead
Muito
diferente de: Meu broto me avisou que ia estudar, aiaiaiai...
Imaginem o
estado de minha coitada cabecinha vinda de um país onde havia censura e qualquer
apologia do uso de drogas era crime contra a segurança nacional!
As fichas
começaram a cair ao ler as análises publicadas hoje sobre papel do Lou Reed
para a conformação do que se tornou o rock em seguida, mais pesado, nas suas
vertentes punk, metal, trash, etc, Salientam o talento e a enorme fertilidade
deste artista cujo berço artístico remonta ao Andy Warhol, mentor do Velvet
Underground, primeira banda do Lou Reed.
Muitos anos
depois, em 2000, fui revê-lo, mais domado e bonito, num show no Credicard Hall em
São Paulo. Ignorou a plateia, que gritava “Take a walk...” Meu sobrinho Tiago que
também fora assistir por conta própria me comentou que havia notado que tinha
muito tiozinho no show.
boa análise essa, Emilio ! como sempre...
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