quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Desajeitado


Carolina Dieckmann

O Antiquarius é um tradicional restaurante de alta culinária portuguesa no bairro do Leblon, Rio de Janeiro. Tem este nome porque é também um antiquário, onde se vendem peças usadas na decoração. Teve uma filial em São Paulo, onde havia um Aleijadinho. O elegante local é relativamente pequeno e as mesas acabam ficando muito juntas. Fui lá a alguns anos atrás para jantar com a Ângela, e acabamos sentados numa mesinha de dois que praticamente se juntava à uma outra que estava ocupada por um grupo falante. 

Eu estava estudando o cardápio e notei que a Ângela me fazia meneios discretos com a cabeça. Ela queria me apontar a Carolina, atriz de telenovelas, sentada bem ali na cabeceira da mesa vizinha. Levei tempo para tirar uma linha e reconhecer de quem se tratava. Passei a sentir um forte cheiro de queimado: é que distraído acabei aproximando demais o cardápio do candelabro sobre a mesa com a vela acesa. Foi fogo!



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Banho







Minha postagem anterior tratava basicamente das perdas de referência que acompanham a aposentadoria. Surge o desafio de recompor o cotidiano. E, nesse sentido, uma das coisas que percebi foi a grande melhoria de qualidade do banho diário.

Já que o aposentado tem mais liberdade para gerenciar seu tempo livre, não vive aquele dilema -- banho antes ou banho depois do trabalho. Para quem pode, nem antes, nem depois -- banho ao invés do trabalho: piscina, sauna, chuveiro ou banheira. Nem banho para acordar e tampouco banho para relaxar. Ou seja não se mistura banho com sono nem banho com cansaço, o que não é lá muito prazeroso.

O horário do banho pode flutuar muito em função da temperatura, de outras prioridades e do "estar a fim de". Pode competir com outras atividades igualmente (perdão) semilibidinosas como por exemplo chupar um mexerica geladinha, fazer o sodoku do jornal, ou simplesmente ir no mercadinho comprar hortelã.

Dá tempo de fazer a barba embaixo do chuveiro usando aqueles espelhos que semiembaçam. E o melhor de tudo isso é ter um espaço onde dá para cantar -- em boa altura -- sem ter vergonha alguma quando sair do tom. E que coisa mais lúdica são os secadores, quente e frio...

A disponibilidade de tempo permite fazer em meia hora o que precisava ser feito em cinco minutinhos...








segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um ano de separação








Completa-se amanhã um ano da publicação de minha aposentadoria como docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Passei então à condição de semidesocupado, cuja contextualização, simbologias e busca de interpretações motivaram o surgimento deste blogue.

Olhando este ano em retrospectiva, nada se lhe parece melhor como o período seguinte à separação depois de um longo e frutuoso tempo de convivência. Há de inicio uma certa incredulidade de que tudo houvera terminado. E a procura de algum tipo de concertação do tipo "estamos dando um tempo"... Mas que não se sustenta pois na academia tudo se desmancha.

Ao contrário da saudade, esquecimento é uma grande bobagem: não existe.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Nasigoreng bão demais

File:Nasi Goreng Pete Kambing.JPG


No fim de semana passado nos hospedamos no bonito Grande Hotel de Araxá. Durante o jantar, estilo buffet, eram servidos três tipos diferentes de arroz, um deles etiquetado como "arroz mexido", que era impossível de não se repetir. É a versão mineira do nasigoreng, ou fried rice, "flaide laice", como os americanos imitam os chineses falando. Ou de seu primo japonês, o yakimeshi. 

Nada mais que um arroz pré cozido que é frito com "restos na geladeira" -- pode ser carne, verdura, cogumelo, etc. --  É um dos carros chefe da culinária do Prof. Emílio, ombreando seu insuperável tabule. As vezes que me compete cuidar da comida, gosto muito de vasculhar a geladeira para ver se tem arroz e tudo que pode ser aproveitado. 

Me contou uma moça indonésia que lá em sua terra, ao final do jantar, já deixam separado os restos para o nasigoreng do café da manhã seguinte. Uma das recordações que a Ângela trouxe de Jacarta, é o cheiro da fritura que passeia pelas ruas logo de manhãzinha.

Num wok, começo fritando a cebola bem picadinha, e em seguida os restos de carne, frango, peixe ou linguiça, tudo que tiver, bem picadinho. Repolho combina muito bem com cebolinha, pedaços de tomate. Não ponho ovos, mas pode. Tempero com especiarias -- com destaque para o curry. Quando estiver para estorricar, misturo o arroz e fico mexendo com uma colherona de pau. Só. 

Não há limites para composição que resulta em surpresas. Identificar o que pomos na boca é parte da experiência. No caso do arroz mexido do hotel de Araxá, foram os pedacinhos de banana. Grande descoberta, uai!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Acabou ontem o horário de verão




Deus eterno
Onipotente,
Criou o tempo
Fez essa travessura com a gente

Deu um peteleco
e fez girar a terra em torno de seu eixo
Nasceu dia e noite

Não lhe cabe desleixo,
mas fez elíptico o movimento de translação e
Nasceu o verão

O homem, criatura
criou a física,
A matemática, a metafísica

E inventou o relógio, o calendário
E o governo

Alegando economia
Ousou legislar sobre o tempo,

Um dia nos tomou uma hora
Que nos dá de volta agora

Moral da história:
O relógio no painel de meu carro é que estava certo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Mandela




On February 11th, 1990, Nelson Mandela was released from his 27 year imprisonment as a political prisoner of the South African government. Mandela would become the country's first black President four years later.


Meu conhecimento da história política é a de um engenheiro civil politécnico. Curioso, por assim dizer. Mas, criado num contexto em que prisioneiros políticos eram suicidados, sempre me intrigou o caso de Mandela, mantido vivo durante 27 anos de prisão, se tornando 4 anos depois o primeiro presidente negro da África do Sul, após o fim daquela coisa feia chamada "appartheid". 

Perdi o momento de fazer neste blogue, uma referência reverenciosa ao Nelson, quando de sua morte. Aqui quito o que, sem dúvida, era dívida. 

Fiquei comovido com a mensagem que aquele país mandou para todos por ocasião da Copa do Mundo de Futebol, em 2010, sobre a possibilidade de superar conceitos e preconceitos sobre a convivência entre grupos.

Não há muros que não sejam "da vergonha"

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Toda hora rola um insight







Foto Parcial do Certificado Teórico de Aproveitamento (sic)

Em tempo de anglicização, e depois de passar um fim de semana estudando todas a placas, todas as multas, primeiros socorros, etc, passei no exame e fui certificado de que já estou devidamente reciclado para liberar meu documento de habilitação que tive que entregar para uma bonita delegada de tênis branco. Detalhe da data: 4 de February de 2014.

Vai aí um fundo musical, "Samba do Approach", juntando nosso dois grandes Zecas... Mó delícia

.




sábado, 8 de fevereiro de 2014

Promoção não é progressão




Meu eventual leitor deve estar intrigado com o interstício que levou entre esta postagem e a anterior. Além do fato de tratar de assunto que não me anima, e trabalhoso, estive ocupadíssimo -- com pouca coisa relacionada ao meu “trabalho”. Achei que deveria ilustrar porque tenho uma série de leitores preocupados comigo que achavam que, uma vez aposentado, iria morrer... de tédio. Tive que estudar para fazer a prova de reciclagem do DETRAN – e já fui aprovado!  Sou um sujeito cobaia do projeto Elsa – Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto, e tive que ir fazer uma batelada de exames – logo viro uma estatística; não pude resistir à comoção nacional em torno do primeiro beijo gay da televisão brasileira, e fiquei assistindo novela todas as noites. Os clássicos do Paulistão voltaram—imperdível ver o Palmeiras soberano e o Corinthians levando chocolate -- e o Superbowl! Além naturalmente da programação cultural regular que incluiu uma visita à mesquita Brasil, com direito às orações e almoço.

Mas, como prometi, vai aí um desdobramento da postagem anterior “nocaute”, dado que a questão de minha progressão horizontal na carreira docente da USP se permitiu a uma analogia com uma luta sobre o ringue, ali detalhada.

Ao final do 2º round, tínhamos o seguinte veredicto:
Assessor (Reconsideração)       
Recomendado 3             
Considero significativo o percurso científico e intelectual do candidado. Tem uma obra importante na sua especialidade, reconhecida nacional e internacionalmente, com uma alta produção de trabalhos escritos, participação em eventos, orientações de mestrados e doutorados.
Ele merece a progressão solicitada.
Parecer Conclusivo (Reconsideração)   
Não recomendado        
A CAS, após análise do parecerista que analisou o recurso do candidato e, após análise do memorial do candidato decidiu por unanimidade manter o resultado de não recomendar a progressão do candidato. O Professor Emilio Haddad realizou concurso para Livre-Docência em 2010 e, nestes últimos dois anos, a CAS considerou não haver produção que justifique sua progressão.
(CAS – Comissão de Avalição Setorial; CCAD – Comissão Central de Avaliação Docente)

Recordo o quanto isso me deixou pasmado. Não apenas pela enorme contradição, cada um dizendo uma coisa oposta, mas me perguntando de onde foi que foram tirar este critério de que a progressão, no meu caso, só iria encontrar justificativa na produção nos últimos dois anos? Certamente não constava daquelas tabelinhas da CAS.  (Acabei de reler o texto com os critérios da CAS...)

Descobri que tinha provavelmente resultado de uma leitura elíptica do seguinte trecho da Resolução: Para a progressão são requisitos: “anexar ao requerimento memorial circunstanciado, em uma via impressa e em formato eletrônico, que demonstre a existência de atividades acadêmicas, destacando aquelas posteriores à última progressão de nível ou enquadramento em categoria docente superior, observado o interstício preferencial de cinco anos”.

Lembro-me que ao decidir pleitear a progressão, entendi o que diz a letra da Resolução: que o memorial deveria, dentro do interstício preferencial de cinco anos, destacar as atividades acadêmicas posteriores à última progressão. Infelizmente, para nossa tristeza, os comitês parecem ter preferido entender diferentemente do que está escrito: e o significado de destacando passou a ser se limitando!!

Passado um ano de vida, receber uma notícia dessas, de uma decisão tomada com base a uma interpretação desfavorável, e por unanimidade, foi horrível. Mas mesmo assim guardava uma convicção que a lógica iria prevalecer, ou senão merecer alguma atenção, o que os fatos infelizmente não confirmaram.

Já aposentado, soube da possibilidade de uma reconsideração – denominada “em última instância” e fui encorajado a apresentar um pedido, achando que seria uma nova oportunidade de ouvir algo a respeito da questão do interstício, usada para desqualificar meu pleito.

A “coisa” da reconsideração em última instância funcionou assim: a gente submete o questionamento à Secretaria Geral da USP. No meu caso solicitava atenção e esclarecimento sobre a interpretação feita pela CCAD de que a análise deveria se limitar (ao invés de priorizar, como consta da Resolução) ao período desde a obtenção da última titulação.

O que faz o Secretário Geral? Ao invés de levar a questão adiante, ignora o conteúdo da queixa e manda um ofício padrão à Faculdade perguntando se o candidato fora avaliado à luz dos critérios estabelecidos pela CAS! E para quem o senhor diretor da Faculdade encaminha este pedido? Para a CAS!!!! Adivinhem a resposta! Pedir à raposa que tome conta do galinheiro é dar alimento para que meu caso fosse exposto à nova tripudiação.

A resposta do recurso em última instância, 3º. Round, só repetiu o que já se sabia:
O Prof. Emilio Haddad tem uma brilhante carreira profissional, reconhecida pela CCAD, por todos os assessores ad hoc, pelo assessor da reconsideração e pela CAS na avaliação do seu memorial. No entanto, sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de sua última titulação (Livre Docência em 2010). No conjunto, o candidato não atendeu os critérios da CAS.
São Paulo, 21 de maio de 2013

Sem ter conseguido explicação alguma, tentei um 4ª. Round, no qual retorno à CCAD pedindo que pacifique esta questão do prazo em que as atividades deveriam ser consideradas na análise do pedido de progressão.

E nova tergiversação, desta vez com um retrocesso: a questão do prazo de atividades já não era mais importante para justificar minha não recomendação. Num movimento bipolar, voltei a ser considerado alguém desprovido de motivo para progressão. De brilhante à “meia-boca”.
Releiam o texto.

Re: Progressão horizontal do Prof. Emilio Haddad
De: carreiradocente@usp.br
Enviada: sexta-feira, 10 de janeiro de 2014 14:30:50
Para: Emilio Haddad (emhaddad1@hotmail.com)
Prezado Prof. Emilio Haddad,
O senhor solicitou a promoção para Associado 3 na primeira etapa do processo. A CAS
de Arquitetura, Urbanismo e Design solicitou, conforme estabelecido pelas regras,
pareceres de três especialistas em sua área de atuação. Dois dos pareceristas indicados
entendem que o senhor não teve atuação merecedora para a promoção requerida,
argumentando suas opiniões. Olhando-se os cinco quesitos analisados por eles, observase
a seguinte distribuição de conceitos:
• Excelente: nenhum
• Muito bom: nenhum
• Bom: dois
• Regular: cinco
• Insuficiente: três
O terceiro parecerista, em uma avaliação bem mais sucinta, atribuiu três conceitos
Excelente e dois conceitos Muito Bom.
A CAS emitiu, então, um parecer circunstanciado levando em consideração o memorial
apresentado e as opiniões dos especialistas e decidiu pela não aprovação da promoção.
A CCAD homologou, em vista do argumentado pela CAS, esse resultado.
O senhor recorreu da decisão tecendo uma série de considerações. Um novo especialista
foi acionado o qual, ao emitir o seu parecer, não contestou os pontos do parecer da CAS
que a levaram àquela decisão. Após uma nova análise em todo o material, a CAS decidiu
pela manutenção da não recomendação de promoção, o que foi posteriormente
homologado pela CCAD.
O sonhor contestou novamente a decisão tomada pela CAS e pela CCAD. Argumenta
inicialmente que a CAS não acata o último parecer emitido. É importante salientar que o
processo de avaliação não depende, e não pode depender, de apenas um parecer, pois
são levadas em consideração uma série de aspectos e opiniões e a análise deve ser feita
de forma academicamente embasada.
Qualquer avaliação é feita levando-se principalmente em conta o trabalho recente do
docente, o que ademais é recomendado pelo inciso V do parágrafo 7 da resolução
5927/2011. O senhor se apega muito à expressão “não havia produção nos últimos dois
anos que a justificasse” como se esse tivesse sido o único aspecto julgado. Fica claro nos
primeiros pareceres que a avaliação foi muito mais global do que isso e todos os
aspectos mencionados no edital e nos critérios de avaliação da CAS foram considerados.
A CCAD está convicta de que o processo foi realizado com todo o cuidado e atenção que
merece, tendo sido feita uma análise qualitativa cuidadosa do trabalho realizado pelo
senhor embasando as manifestações da CAS e da CCAD.

Na minha ingenuidade, esperava uma resposta nas qual meu questionamento merecesse um mínimo de consideração...

Com relação a esta mensagem final, não cabe aqui comentar com detalhes, mas alguns pontos merecem.

1      É aí escrito que O senhor recorreu da decisão tecendo uma série de considerações. Um novo especialista foi acionado o qual, ao emitir o seu parecer, não contestou os pontos do parecer da CAS que a levaram àquela decisão.

Diz o parecer conclusivo da CAS: O candidato não é recomendado para progressão na carreira.

e diz o parecer do novo especialista: Ele merece a progressão solicitada.

O fato de os pareceres fazerem indicações opostas acaba não significando que haja alguma contestação do inicial????????


2   Afirma depois: O senhor se apega muito à expressão “não havia produção nos últimos dois anos que a justificasse” como se esse tivesse sido o único aspecto julgado.

Não fui eu quem, ao analisar meu recurso, alegou (vamos ler juntos?) “O Professor Emilio Haddad realizou concurso para Livre-Docência em 2010 e, nestes últimos dois anos, a CAS considerou não haver produção que justifique sua progressão.”
Tampouco fui eu quem reiterou, na chamada “recurso em última instância”, que (vamos ler juntos?) O Prof. Emilio Haddad tem uma brilhante carreira profissional, reconhecida pela CCAD, por todos os assessores ad hoc, pelo assessor da reconsideração e pela CAS na avaliação do seu memorial. No entanto, sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de sua última titulação (Livre Docência em 2010)

Fica claríssimo que a CAS usou como  critério para progressão a existência de produção nos últimos dois anos – que não consta da Resolução. E quando demonstrei isso, não recebi a mínima consideração, o que em si é um grande desrespeito com um colega.
Agora, vem-me dizer que sou eu aquele que se apega a isso...
3
3   A CCAD está convicta de que o processo foi realizado com todo o cuidado e atenção que merece, tendo sido feita uma análise qualitativa cuidadosa do trabalho realizado pelo senhor

Gostaria de dar dois exemplos do que é chamada por “ análise qualitativa cuidadosa”: duas avaliações insuficiente, vindo respectivamente de cada um dos  assessores de 1ª instância que me reprovaram.

3 a) Um dos pareceristas  me atribui insuficiente no quesito atividades de extensão porque de sua leitura “Praticamente não apresenta atividades de extensão no período considerado”.

Entre minhas atividades, naquele ponto, talvez a principal fosse de extensão, ligadas ao desenvolvimento de um campo multidisciplinar emergente: o desenvolvimento imobiliário, contextualizado no ensino do planejamento urbano, seguindo tendência internacional. Coordenava através da FUPAM, um MBA em desenvolvimento imobiliário, trabalho de grande magnitude por exigir competência em diferentes disciplinas, envolvendo cerca de 50 palestristas e professores.

Meu envolvimento paralelo com os estudos imobiliários, que incluiu a presidência da Latin American Real Estate Society, e a organização de conferências anuais me fez merecedor de um reconhecimento através “International Real Estate Society Service Award", que me foi concedido no ano de 2010.

3 b) O outro parecerista que não apreciou meu memorial , avaliou como insuficiente minhas atividades de gestão.

Foi “demais para a paciência do inglês”, como na canção de nosso mestre Paulo Vanzolini, ter que ler isso, num momento que me via afogado pelo trabalho de cunho burocrático, lamentando o quanto tem confiscado meu tempo acadêmico produtivo, cujo horizonte cada vez mais se esgotava.

O parecerista deve ter conhecimento das pressões sobre os professores que gradualmente se tornam referência no meio acadêmico. São pedidos de informação e de auxílio que vêm de todas as partes do mundo. É inimaginável alguém com quase 40 anos de magistério conseguir a façanha de baixar seu ritmo de atividade de gestão na USP a nível insuficiente.

Além da Congregação, do Conselho do Departamento, da Comissão de Cultura e Extensão (atuando como membro titular dado ser a presidência ocupada por professora do meu departamento), participo ativamente de muitas atividades de cunho administrativo que dentro dos critérios das Comissões devem  ser consideradas de gestão e que não soem ser registradas num memorial: incluem-se aí reuniões plenárias do departamento, reuniões da área de concentração na pósgraduação, coordenação de convênios com universidades do Exterior. Participo do processo seletivo de candidatos à pós-graduação. Escrevo cartas de recomendação, faço relatórios para a CERT de minhas atividades de extensão, recebo  visitantes, particularmente quando necessitam alguém que fala inglês, francês ou espanhol.

E este enorme número de pareceres que nos solicitam como membros de comitês editorial, comitês científico de eventos, analisando pedidos de auxílio a órgãos de fomento, etc.? Não se consideram atividades de gestão?

Gasto tempo em processos administrativos exigidos na minha relação de trabalho com a USP, como por exemplo, esse aqui, que envolve a progressão horizontal, tenho tempo consumido com a atualização do currículo Lattes, e currículo em outros formatos, preparo relatório de atividades anual para o departamento, faço pedidos de afastamento e de viagem, e seus relativos relatórios, incluindo a parte financeira, avalizo e assino formulários dos bolsistas. São atividades de apoio que me deixam assoberbado, e que soem ser avaliadas como “insuficiente”!!! (Só para informação, as avaliações deste item pelos outros pareceristas, igualmente subinformados pelo meu memorial, foram respectivamente bom e muito bom) Como bem disse Pirandello: “Assim é se lhe parece”.

4    É importante salientar que o processo de avaliação não depende, e não pode depender, de apenas um parecer, pois são levadas em consideração uma série de aspectos e opiniões e a análise deve ser feita de forma academicamente embasada.

O parecerista da reconsideração dispunha de melhores informações, inclusive dos pareceres anteriores. Pareceu-me lógico que sua recomendação deveria suplantar a dos anteriores, numa perspectiva um pouco mais semi-dialética, pela qual a síntese incorpora e supera a tese. 

Lembro que embora o parecerista da reconsideração, escolhido pela própria CAS, tivesse recomendado minha progressão, as comissões mantiveram sua negativa. Se o oposto ocorresse, ou seja o parecerista não recomendasse, seria a mesma coisa, um caso de elasticidade igual a zero, no dizer dos economistas. Tanto fazia, porque as Comissões já houveram “fechado” seu parecer negativo e, pela pouco-caso mostrado, jogado a chave fora.

5    Mas a afirmativa mais emblemática está no parágrafo inicial: senhor solicitou a promoção para Associado 3 na primeira etapa do processo

Eu (o senhor no caso), pelo menos, não fui solicitar promoção alguma. Sinto uma necessidade de repetir: Eu não fui solicitar promoção alguma.

O que pleiteei foi minha progressão, que é do que a CCAD deveria cuidar, conforme estabelecido na 5927/2011, através de uma avaliação. Arrisco afirmar que tratar meu enquadramento na nova carreira como se fosse promoção só pode ser explicado pela confusão conceitual que afligiu o CCAD.

Porque – desprezando toda a ampla crítica ao processo que pipocou em nosso meio -- não se pode duvidar de que CCAD esteja mesmo convencida de que “o processo foi realizado com todo o cuidado e atenção que merece, tendo sido feita uma análise qualitativa cuidadosa do trabalho realizado pelo senhor.” (sic).

Há um elemento discricionário associado ao conceito de promoção, que é ato extemporâneo e arbitrário. (Tipo: logo após depois de lhe ter feito um favor, ou bem cumprido uma tarefa de responsabilidade, a gente dá uma chegadinha no patrão para lhe “cobrar” promoção). Que é antitético ao que se espera de um processo de progressão da carreira, que é regrado e com periodicidade determinada.

Minha melhor leitura do entendimento das Comissões foi: ”O senhor professor Emílio, do que depender de nosso gosto, não vai merecer progressão alguma porque pleiteou logo depois de fazer sua Livre Docência. Ponto final”.

Mas tinha aí um problema. Como a pedra que se interpôs no caminho, do poema de Drummond. Não podiam usar a justificativa alegada, quem nem constava dos critérios da CAS!

Cabe aqui uma palavra sobre a classe em que vaidosamente me incluo: professores da USP. Em geral temos que posar e agir como se dispuséssemos amplo saber. Inclusive em matérias não tipicamente acadêmicas. Como em todas as estruturas de substrato autocrata, parece ser difícil que a arrogância deixe de ser apanágio dos ungidos.

Dentro desta lógica, os pareceres que recomendaram a promoção devem ser descartados pela sua ineptidão. Quanto ao Regulamento não deve merecer muita bola, nem o “benefício da dúvida” – em geral pró-réu.

Embora doutas, as limitações analíticas das comissões impediram alguma percepção para o fato essencial de que uma nova carreira estava sendo implantada, trazendo para serem assumidos novos valores que não existiam na antiga, obrigando a ajustes. O caso de professores seniores que tiveram uma progressão tardia, por não contarem até então com a horizontalidade, exigiria uma atenção especial na transição. Até por respeito à sua história e idade, não mereciam estar na vala comum com os mais novos.

Naquele momento, a progressão era a oportunidade de reconhecimento de tudo o que fizeram e representavam para a Instituição. Enquanto aqui escrevo me passa pela cabeça a ajuda, colaboração e sacrifício que – minha obrigação – dediquei à Academia. Não tem espaço nas tabelinhas da CAS para isso mas poderiam ocupar “pra mais de metro” deste blogue.  (Em bonita homenagem ao tempo de dedicação, o Exército Brasileiro concedia uma promoção no momento da reforma de um oficial).

Passei a estranhar menos meu insucesso, porque notei que as Comissões conseguiram encontrar seu “savoir faire” dentro de um formidável esquema de exercício do jogo de micropoder que tem embaralhado as relações humanas dentro de nossa querida Universidade de São Paulo.

Protagonista casual desta novela, me sinto, infelizmente, obrigado a ter que continuar reclamando, tão logo descubra se desta vez devo me dirigir ao bispo... ou para a Comissão de Arbitragem do UFC.