segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Teclado






Fiz uma constatação: sem teclado sem blog.

Meu "note" foi para o conserto enquanto fiz uma viagem. Não conseguia meio decente de escrever postagem neste blogue -- meio de comunicação com uma dinâmica em que o rascunho não tem praticamente lugar.   

Manuscritos parecem que têm seus dias contados. Assim deverão se ir os cadernos de caligrafia, os livros caixa, a caderneta do armazém, o "correio elegante", Para tudo já deve ter uma clicada pronta.

Fico ainda encantado com a rapidez da moçada teclando a telinha de um celular ou tablet com os dois polegares. Silenciosamente. Sem errar abreviações. 

Mais encantador é o chamado comando de voz, que processa sílabas  enquanto os polegares processam letras.

Bjks .  


sábado, 22 de agosto de 2015

Lenço (de bolso)






Lenço, um nome que nada tem a ver com suas versões em idiomas amigos: francês -- mouchoir (se lê muchuar) --, em inglês -- handkerchief, e em espanhol pañuelo.

Usa-se, cada vez menos, no bolso do paletó na altura do peito. Tem jeitos próprios de dobrar, de forma a deixar uma borda à mostra. Sinônimo de cavalheirismo, como em cenas de filmes retratando a corte européia, por exemplo na dança, para que o suor das mãos não incomodasse sua parceira. Mais recentemente, coadjuva com a gravata como uma "pièce de resistence" da vaidade na moda masculina

Fui educado, seguindo o modelo de meu pai, a sempre ter um lenço no bolso, o que de vez em quando me dá oportunidade para atos de cavalheirismo explícito, com damas ao derredor. Vou citar um destes causus: no palco fazendo um show na sala Funarte, a Nana Caymmi passou por um momento de dificuldade com o rímel, talvez em decorrência do calor dos holofotes, que começou a escorrer sobre um de seus olhos.

Da platéia. ofereci-lhe o meu lenço de bolso, que ela acabou usando. Após o espetáculo fui ao camarim para resgatar aquele meu lencinho ungido pela grande cantora. Ela disse que devolver o lenço sem antes lavar, "não prestava".

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Father Thomas Brown




Veio de Rochester, upstate New York, perto do grande lago Ontário, para os trópicos. Hoje foi sepultado num cemitério próximo ao bairro do Morumbi, em São Paulo, ao som de cantos religiosos. Padre Thomas tinha completos 60 anos de sacerdócio exemplar.

Foi o pároco dos católicos norteamericanos em São Paulo, de quem tinha muita habilidade de extrair ajuda e dólares para seu trabalho de promoção humana e social em paróquias pobres da periferia paulistana.

Adorava ouvi-lo; seus sermões eram inspirados no prático, bem típico daquela cultura norteamericana, me fazendo recordar uma parte boa de um país onde vivi seis anos de minha vida

Tinha um olhar de estrangeiro encantado com o Brasil, país que escolheu para seus últimos dias. Dizia que São Tomé era mineiro, por ser desconfiado. Com rico substrato teológico, que conhecia bem. Muito me ajudou pensar uma resposta para a questão semiquintessencial: "Afinal, qual é a sua?"

Segundo a tradição dos oblatos, seu crucifixo será consignado ao próximo noviço da ordem que se ordenar, Que carregue consigo seu carisma e bondade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Barbearias







O registro de mudanças e permanências num dado ambiente é um elemento recorrente nas artes. Em especial no cinema, nos filmes que contam histórias.

Na minha infância, eu semi-gostava de acompanhar meu pai no barbeiro, nos sábados à tarde. O salão era uma salinha no porão de uma casa que tinha uma porta abrindo para a calçada em frente. Frequentado pelo pessoal da vizinhança, Tinha alguns atrativos para meu olhar e curiosidade de menino: uma delas era um senhor de cor negra que ia raspar os cabelos com navalha. A outra era ficar atento quando o barbeiro abria a cortina que fechava as prateleiras para perscrutar o que ficava escondido ali atrás. Me lembro ter conseguido ver uma caixa de dinheiro, um monte de loções e um afinador de navalhas.

Ouvia a conversa "de gente grande". Um dia se comentou o suicídio do Getúlio Vargas. Um fundo sonoro vinha, em tom alto e oscilante, de um rádio destes "de válvula", que transmitia um programa de calouros conduzido pelo Ary Barroso. cujo gongo foi precursor da buzina do Chacrinha.

Muitos anos passados, já casado, ia passar feriados e fins de semana na cidade de Cerqueira César, visitando a família da Ângela  e nos mesmos sábados à tarde aproveitava para ir cortar o cabelo no salão do Zé Dias, que muito lembrava aquele de minha infância. Sinal dos tempos atuais, em lugar do rádio, uma televisão colorida com imagem oscilante, que transmite um programa de calouros, desprovidos da diversão dos gongos, buzinas e outros escrachos.

Zé Dias -- que faleceu no início desta semana -- era uma personalidade em sua cidade. Tinha pendurado na parede um diploma de curso de cabeleireiro e outros com láureas de melhor da cidade --  mostrava de vez em quando um álbum de fotografia da família que guardava numa das gavetas. Muito falador, contava de pescarias e fazia deliciosos comentários politicamente incorretos, monologando com os fregueses sentados. Estabelecia o valor do serviço pelo que considerava justo; Como tenho pouco cabelo, me cobrava quase a metade do valor de um corte regular, porque "não queria explorar". Muito experiente e habilidoso no manuseio do pente e da tesoura.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Meio par







A cirurgia de catarata em um dos olhos resultou na diminuição do grau de miopia. Ficou necessária a troca de uma das lentes do óculos, correspondente ao olho operado. Na ótica, o "seu" Gilberto ligou para o depósito para perguntar se havia disponível um "meio par" de lentes de acrílico com 2 graus.

Neste mundo, nem sempre a unidade é o um. No caso dos óculos, como destarte dos sapatos, meias ou luvas emprega-se como unidade o par.

   

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Mais um pouco sobre meu pai e Mimes, sua cidade natal



Foto da casa (abandonada) de meus avós paternos no vilarejo de Mimes, no sul do Líbano onde meu pai provavelmente nasceu e morou até migrar para o Brasil (foto tirada em abril de 2015)


Aproveitando a aproximação do dia dos pais no ano passado, coloquei uma postagem (Um pouco sobre meu pai) sobre a memória que mantinha do "meu velho". A chegada do dia dos pais neste ano de 2015, dá azo a que retome o assunto, desta vez de modo mais semi-historiográfico. Pois neste meio-tempo, em abril passado, realizei uma viagem para o Líbano (que foi também sujeita a postagens), e estive no palco e cenário de sua infância e adolescência, gravadas em inescrutável memória; a parte dele, carregou e levou consigo.

Tinha uma casa de pedra (a da foto), onde a família morava e produzia azeite com a colheita de um olival próprio. Papai, um irmão e duas irmãs, vieram para o Brasil, onde fincaram novas raízes e constituíram famílias. No Líbano ficou apenas um meu tio Rachid, que se tornou o médico da região, e sua família.

Em Mimes, sobrevivem casas de outras famílias que também migraram para o Brasil. E uma igreja ortodoxa onde estão dependurados na parede que separa o altar dois quadros que meus tios Rachid e Nabiha dedicaram em memória da filha deles, Maha, minha prima, atingida e morta durante a guerra civil libanesa. Muito provavelmente o único registro nominal dos Haddads que lá permaneceram.

Anexo à igreja, há uma casa cuja construção foi financiada por outro que migrou de lá, Fuad Kairalla, que prosperou no ramo de tecelagem, em São Paulo. É destinada para abrigar os brasileiros quando forem visitar os parentes. Tem um livro de registro de visitantes, entre eles uns Haddads, como agora o meu.

Uma curiosidade -- na minha carteira de identidade, consta como local de nascimento: Mimes, Líbano, embora minha mãe, que testemunhou o fato, garanta que eu nasci em Beirute, na maternidade francesa. No Lìbano, os nascimentos são registrados no local de moradia da família.






















quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Parto jazz-induzido (*)

Diálogo (editado) de um desses grupos de amigos dentro do Facebook do qual participo 

Silvia Maria : Boa viagem Alberto, divirta-se!
Alberto : Obrigado, amigos queridos!
Paulê: Vai no Blue Note, Alberto?
Alberto : Ainda não sei, Paulo, estou acompanhando filho, nora e neto, e eles são roqueiros. Sei que vamos num show da Shania Twain. Outro filho meu já foi na Blue Note nos 70 anos do Chick Corea.
Paulê: Rs, quem sabe negocia com eles...
Alberto : Negociarei sim rsrsrs
Paulê: Boas viagens....abração
Alberto : Obrigado. Abração.
Rosa Maria : Acho q Blue Note vale qq negociação!!! Boa viagem Alberto!
Alberto : Já estou negociando. Obrigado, Rosa!
Alberto : Pode ser que em vez do Blue Note, seja o Village Vanguard. Palco do meu guru Bill Evans.
Emilio: O Theatro Municipal em São Paulo também serviu de palco para o Bill.
Alberto : Sim! Assim como a Sala Cecília Meireles no Rio, e o Chico's Bar, também no Rio, onde eles deu uma canja memorável, inclusive tocando a quatro mãos com o meu outro guru, Luiz Eça.
Paulê: Tem o disco dos dois no Chico's, Alberto?
Alberto : Paulo, o disco eu não tenho. O que eu tenho foi uma fita cassete gravada pelo sonoplasta do Chico's, e que um amigo me deu de presente no meu aniversário seguinte. Essa minha fita foi digitalizada e postada no finado blog Loronix, do Zeca Louro. Eu tenho em mp3 sem ser cortada em faixas, e também cortada pelo Zeca. E eu até acho que foi a partir dessa postagem que foi lançado o disco. Na minha fita e nos mp3 tem as conversas entre eles. No disco também tem?
Paulê: Acho que não, não lembro...
Silvia Maria: Assisti o Bill no Teatro Municipal de São Paulo e falei com ele e fui direto para o hospital. Fiz meu primeiro parto contando a maravilha que tinha visto e ouvido!!! Impossível esquecer essa experiência, única!!!
É como se tivesse sido ontem... Foi a quarenta e dois anos... Kkkkkkkkkkkk
Silvia Maria: Desculpem mas não resisti, tive que contar! Kkkkkkkkkkkk Então, foi o nascimento da minha primeira filha!
Esmeralda : Que maravilha!!!
Emilio: Silvia Maria, já que estamos trocando figurinhas.. Você se lembra do frio que fazia?
Silvia Maria: Sim e como foi parto de emergência, eles cortaram a minha roupa! Kkkkkkkkkkkk
Conrado : a trilha musical desta conversa....:
esta versão é f*... Bill Evans - Like Someone in Love
Silvia Maria: Eu falava mais que a boca por conta da dupla emoção e então me apagaram... Kkkkkkkkkkkk
Paulê: e olha que na minha longa vida obstétrica nunca tinha ouvido falar em parto jazz-induzido (*) ....maravilha!!
Conrado : "parto-jazz-induzido" huehuehueeeee vamos consultar a literatura médica!!
Paulê: rs.. acho que foi o parto da Adriana...música na veia!!
Alberto : Lembranças maravilhosas Silvinha! 360 graus de emoção!
Alberto : Obrigado, Conrado! Abração!
Alberto : Nossa, Conrado! Interpretação deslumbrante do Bill! Vc adjetivou corretamente rsrs
Conrado : acho q é uma das mais liricas sei lá, tudo tinha lirismo nesse homem
Silvia Maria: Sutileza e amor! Só pra constar foi o nascimento da Marcela, minha filha mais velha! Beijooooo

(*) copyright pleiteado pelo Dr. Paulo Emílio

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Miski de Omã


Vidrinho de miski sobre o catálogo da exposição 


Minha condição de aposentado tem permitido tempo para flanar em shoppings. Dar uma paradinha em vitrines e stands ali montados. Um novo e semidivertido exercício de avaliação: tentar adivinhar o preço pedido pelos automóveis de luxo que aparecem expostos.

Nesta semana fui ao Shopping Eldorado para umas comprinhas e num dos saguões estava montada a mostra: "Dias culturais de Omã no Brasil", que chamava a atenção por conter bonitas tendas. O foco era na cultura omani, com fotos, peças de artesanato, desenhos de henna feito nas mocinhas visitantes.

Ganhei uma sacola de mimos que incluía um vidrinho de miski, resina vegetal, perfumada, usada em doces árabes; dá um delicioso sorvete. Com o miski se faz o chiclete árabe: a gente coloca uma pedrinha da resina em meio a alguma massinha mastigável; quando criança me lembro de usar para esse fim um toco de vela, destas votivas.

E pronto: vai aí a decifração do aparentemente misterioso título desta postagem.

... e a capital do Sultanato de Omã, país com atividade comercial importante, localizado próximo ao estreito de Ormuz, é semisignificativamente Mascate.