sábado, 31 de outubro de 2015

Bife de baleia







(Obs - a imagem original -- que foi bem notada pelo Marcelo Giacaglia como sendo a de um tubarão baleia, foi substituída por esta, de uma baleia-baleia)



Eu era criança quando havia uma atividade de pesca e a comercialização da carne da baleia na costa atlântica. Era praticada por empresas japonesas -- uma conhecida era a Tayo. O animal era dividido ao ser descarregado do barco baleeiro em pedaços enormes que chegavam a ocupar um caminhão inteiro. Este fazia o transporte direto até uma praça em São Paulo, onde era retalhado para ser vendido a um público majoritariamente de donas de casa que chegavam a fazer fila.

Sobre um caminhão ensanguentado, os pescadores/vendedores vestiam uma roupa especial branca e iam retalhando os pedações de baleia em filés, com a ajuda de diferentes tipos de facões -- um deles de cabo muito comprido e lâmina curva parecido com aqueles usados para cortar cana. Era bem impressionante. 

Acompanhei um par de vezes minha mãe para ir comprar a carne de baleia, cuja pesca foi há muitos anos proibida por aqui; a baleia é um mamífero, e sua carne se assemelha à carne de vaca, mas com a leveza de um pescado. Muito boa. 

De quebra, os caminhões também dispunham para vender enormes atuns, com os quais mamãe fazia deliciosa conserva -- é bem fácil e já aprendi a fazer. 


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Noite "quente" em Praga

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(Observação: Esta deve ser lida em continuidade à postagem anterior, servindo de contraponto)

Que as coisas deveriam ser um tanto barra-pesada na República Checa, deu para intuir quando fomos alugar um carro em Berlim. Ângela, Francisco e eu deveríamos retornar à Frankfurt para pegar o voo de volta para o Brasil, dali a uma semana. Praga foi incluída em nosso roteiro. 

Alugamos um carro Mercedes Benz -- que a locadora não permitia que entrasse no território checo --porque o seguro não cobria o risco. Para ir e voltar até a bonita cidade de Praga, tivemos que fazer uma troca na bonita cidade de Dresden por um Ford Focus, retomando o Mercedes quando ali retornamos para prosseguir a viagem. 

Era o início de agosto de 2007, e tinha chegada a hora e a vez de Praga como importante destinação turística; estava inundada de visitantes, alvo de uma neo-rapinagem fácil. Muita coisa transpirava a exploração grosseira, com a moralidade vale-tudo de um capitalismo ainda primitivo. (Fico devendo detalhes) Guardei uma imagem muito ruim totalmente incompatível com a beleza do lugar e a tradição culta de seu povo. 

Mas vamos ao causu. Diferente do que normalmente ocorre em outras cidades, o metrô de Praga não tinha bilheteria, nem catracas, que facilitariam a vida. A gente precisava encontrar uma tabacaria onde se vendiam os bilhetes.

Usei o metrô para ir conhecer o centro velho, e na volta, acabei sorteado em meio a uma multidão que voltava para casa, por um fiscal grandão que ficava de tocaia no corredor de entrada, uma "zona de caça", que pediu para ver meu bilhete -- que por azar tinha a validade ultrapassada 20 minutos. E fui multado, um valor barato pois afinal o atraso resultou de ter visto o espetáculo do Orloj anunciando a mudança de hora

Turista brasileiro, acompanhado de mulher e filho, usando o metrô pela primeira vez, a menos de 24 horas num país em que desconhece o idioma, com informações contraditórias, não interessa ... Argumentei que fora vítima de um evidente engano, mas o meganha não dispunha mecanismo pessoal algum  para usar alguma tolerância que subrogou pela prepotência. Nos acompanhou até um caixa eletrônica para que sacasse o dinheiro para pagar a multa -- que ele mesmo embolsava. Me fez retirar mais dinheiro porque eram 3 as infrações, tentei relutar e ele açodando começou a telefonar para a polícia. 

Muitas vezes nos refletimos na alteridade: me identifico muito mais com o sistema do guarda florestal de San Gregório (vide postagem anterior) do que o daquele praga de Praga. 



domingo, 25 de outubro de 2015

Sábado frio em San Gregório

Sinal proibido caminhada do cão
















Era o ano de 1973, eu era aluno de mestrado na Universidade de Stanford, e morava em Palo Alto com uma família de origem inglesa:os Lush. Num sábado à tarde Mr. Lush, cujo primeiro nome era Kenneth, me viu em casa meio de bobeira e acabou me convidando para acompanhar seus dois cachorrinhos até a praia. San Gregorio Beach ficava a uns 50 quilômetros dali, e se atingia por uma estrada estreita e sinuosa atravessando uma serra que tem como paisagem uma linda mata de pinheiros. 

A praia é um local bem frio que era trazido pelos ventos oriundos do Pacífico. (A propósito, fica ao lado de uma praia de nudistas e parece que passar frio deveria ser parte da atitude contestadora). 

O local faz parte de um parque estadual (San Gregorio State Beach) que não é "dog-friendly", acho que devido ao fato de que serve como santuário sazonal de uns animais marinhos meio feios. Mesmo assim Mr. Lush entrou no parque com os dois cachorrinhos e, naturalmente, foi citado por um guarda florestal. Na sua lógica de direitos dos animais, argumentou com o guarda que os cachorrinhos amavam ("loved") estar lá. 

O guarda tirou um talonário, destes que se preenche à mão, com cópia carbono, e fez um registro daquela transgressão. O interessante que, ao invés de multa, o que Mr. Lush recebeu foi uma advertência (warning) por escrito, e assinou um compromisso de não repetir o feito. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O sineiro




"Seu" Marino
(postado pela colega Serena Stampi)

Com a aproximação da festa de comemoração de 50 anos de formatura do curso científico do Dante Alighieri, há um compartilhamento de fotos muito antigas do colégio e de nossa turma. Na década de 50, em que o processamento de imagem vivia na pré-história, uma vez por ano ia um fotógrafo profissional tirar fotos da sala de aula, ou de nós enfileirados com a professora ao lado. E em alguns casos, montava um albunzinho. Acabou se tornando uma grande iniciativa -- perpetuando imagens branco e preto daqueles anos coloridos. 

No meio destas fotos, uma foi recebida com grande carinho: a do "seu" Marino, uma pessoa especial no trato de crianças. Entre outras coisas, era responsável por tocar o sino -- acho que de bronze -- que ecoava pelas paredes sérias da escola. Sineiros, como muezins, e outros arautos, têm o dom de enviar sons universalizantes.

Era muito esperada aquela badalada que anunciava a hora do recreio, e também o menos esperado fim do recreio. Ele tinha desenvolvido uma sequencia de badaladas -- que lembrava muito o tema inicial da 5a. de Beethoven -- que está impregnado na melhor parte de nossa memória afetiva.

Quando o colégio ia completar 100 anos, foi promovida uma reunião de ex-alunos, e de repente, reunidos no pátio, ouvimos o sino tocar aquele mesmo som... Era o Marino que tinha conseguido permissão para descer do céu.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Macete da maçaneta





Enquanto estudante na Universidade de Stanford, morei na casa de uma família -- eles eram ingleses -- em Palo Alto. Um banheiro servia o meu e mais dois outros quartos igualmente alugados a outros dois estudantes de pós-graduação de Stanford. Não estou bem seguro se por motivo de segurança, mas o código de obras local não permitia que banheiros pudessem ser trancados. 

Se a porta do banheiro estivesse fechada, o que era raro, eu aplicava tecnologia "tem gente?" de bater na porta para saber se estava ocupado. E sempre estava... 

Depois de quase um semestre descobri que havia um "código": cada usuário deveria deixar a porta aberta quando desocupasse o banheiro sinalizando desta forma a desocupação. No Brasil, o costumeiro era justamente o contrário -- deixar fechada a porta após o uso. 

Meu pensamento agora se volta para meus dois vizinhos de corredor -- o Larry e a Cathy -- quanto tempo não teriam perdido postados diante da porta do banheiro -- que eu tinha deixado fechada -- esperando alguém sair! Me sinto semiculpado.





sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Paraíso de Dante





(Gustave Doré, ilustração da Divina Comédia) 

Nesta semana, um grupo de ex-alunos do Colégio Dante Alighieri, que completa 50 anos de formatura, marcou uma pizzada, Embora não tenha completado o colegial com o grupo, pertenci a esta turma durante 6 anos (jardim e primário), mais do que suficiente para "fazer parte". 

O local do encontro era no piso de baixo da bonita pizzaria Dona Veridiana, e logo que me identifiquei na entrada a recepcionista me fez descer dois lances de escada. Dei de frente com um pessoal grisalho, e a gente ia se reconhecendo um e outro e dando abraços confirmatórios. Foram muito boas as lembranças de nosso convívio de meninos e meninas que fomos há 60 anos atrás -- época de muita inocência, que por algum motivo resolveu comparecer. 

Uma sensação de permanência daquele espírito era prenúncio de como vai ser congestionado o nosso reencontro no paraíso, como na Divina Comédia, obra prima do patrono de nosso colégio. Pude reconhecer minha Beatriz com jeito de matrona... 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Jejum





Rio Miranda (MS), data provável 1994

Mauro Negrão e sua mulher Sueli são amigos de infância da Ângela e nossos padrinhos de casamento. O hobby do Mauro é pescar, e vivia me convidando para ir junto com ele. Nunca dava certo, até que um dia ele fez uma manobra e quando me dei conta já estava num grupo de oito. Ainda por cima emprestava varas de pesca, linhas e anzóis preparados.

Eu, um ente urbano, nada sabia sobre pescarias, e aquela era do tipo completa.

Fomos de carro desde São Paulo, num Fiat Tempra preto até a confluência dos rios Miranda e Aquidauana, no Pantanal onde nos aguardava uma chalana, nossa casa-barco por uma semana. No caminho de ida paramos em Campo Grande para obter a licença de pesca; em Aquidauana compramos iscas vivas, uns peixinhos -- me lembro de um tipo bem escuro que era o jejum, que fazia a alegria das piranhas.

O Pantanal tem muitos pássaros bonitos, tuiuius, garças, araras, cuja concentração denunciava a presença de peixes (dica de pescador). Na beira do rio, poucas pacas e jacaré "pacas".

Dois ajudantes do local ajudavam na navegação e na limpeza do peixe que era base da alimentação diária .

O pai e o sogro do Mauro, mais idosos, pescavam na barranca. Tranquilos em nossos botes, fomos abordados pela fiscalização que queria ver a licença

Alguns acidentes: um mandi ferroou a mão do Francisco. De minha parte, escorreguei e bati a canela num degrau; repeti a façanha no mesmo lugar no dia seguinte. Um dia faltei para ver o jogo do Brasil na copa do mundo, num bar.

Pegar um peixe grandão e saboroso é muito difícil -- e acabei por descobrir a essência da pesca: posar com um peixão.

Na volta ao lar, com as caixas de isopor cheias de peixe e gelo, tivemos que parar no posto fiscal para recolher o ICMS. O cheiro de peixe permaneceu por um bom tempo no Fiat Tempra.

Como prêmio (de bom comportamento, eu acho) me tocou o peixe mais cobiçado, um dourado, que tinha alcançado a medida, e que foi servido no jantar de meu aniversário.

Foi bom o aprendizado que me proporcionou aquela pescaria, e toda tecnologia envolvida, com destaque para a engenhosidade do molinete. Posso me considerar que nesta matéria sou agora um peixe semi-fora d'água.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Ordálio






Estivemos na noite de ontem no Theatro Municipal de São Paulo para assistir à opera Lohengrin, de Richard Wagner. O enredo se nutre de elementos imaginosos, onde trafega a dicotomia bem ou mal. Ambientado no século 10, os personagens trazem nomes estranhos como Lohengrin, Parsifal, Frederico de Telramund, Ortrud, que colaboram para a formação de um ambiente ficcional.

Na construção da fantasia, o personagem Lohengrin, que acaba se revelando cavaleiro do Santo Graal, irrompe na cena puxado por um cisne, para defender Elsa, acusada de matar seu irmão Godofredo. Para realçar o simbólico, na versão de ontem, o cisne é representado por um cubo branco!

Parte importante do cerne da estória, está o confronto entre Frederico de Telramund, do lado do mal e Lohengrin, do lado do bem. Este confronto aparece no libreto -- vertido para o português -- com o nome de ordálio. Os contendentes ficam cada qual em cima de um cubo um à direita e outro à esquerda do palco; cada um dispõe de três lutadores, armados de facas, que dançam, até que Frederico cai no chão, revelando-se o perdedor. Lohengrin lhe concede uma graça, preservando-lhe a vida, o que de certa forma permite que a novela continue.

Com algumas palavras/conceitos como é o caso de ordálio -- e outras onde pode ter participado a Justiça divina -- é melhor a gente ficar no semientendimento: achei que o Houaiss mereceu permanecer descansando na estante... 









quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Cupons





Quando fazia meu pós-doutorado em Berkeley, certo dia o telefone de casa tocou; atendi e ouvi uma voz que deveria ser de uma "old lady". Perguntava se eu não queria fazer uma assinatura do Oakland Tribune. Simpatizei com a ideia, por se tratar de um jornal que representava alternativa local um pouco menos conservadora ao Chronicle, pertencente ao magnata Hearst. Perguntei a ela o que é que o jornal tinha a oferecer. "Muitos cupons na edição de domingo", frustrando minha expectativa de ouvir algum conteúdo mais progressista. 

As edições de domingo dos grandes jornais norteamericanos eram volumosos. Traziam muitos cadernos específicos: um só de anúncios de carros, outro só de imóveis, um só de tiras de história em quadrinhos coloridas, um caderno rosa sobre a programação cultural da semana, os inevitáveis cadernos impressos em colorido brilhante dos cuponzinhos de desconto. (É famoso o caderno de resenha e crítica de lançamentos de livros que acompanha o New York Times)

Cada cupom trazia impresso um código de barras para ser devidamente bipado, por exemplo, nas caixas de supermercado ou das "drugstores", consumando o desconto. Recortar cuponzinhos de desconto e juntar um macinho é uma forma lúdica das velhinhas norte americanas ocuparem seus fins de semana obtendo pequenas economias. E -- por que não? -- de nós bolsistas, que podíamos comer uma coxa do Kentucky fried chicken a mais, ou levar para o consumo da família um litrão de Coca-cola de graça.