sexta-feira, 30 de maio de 2014

Minhas primeiras letras


Quando chegavam as férias escolares, me mandavam passar uns dias na casa de vovó em Jundiaí. Ela morava num sobrado, compartilhado com a família de um dos meus tios, de nome Salim. Era casado com minha tia Ivete, de origem alemã. A administração de um menino em férias ficava por conta delas. Que eram formidáveis na arte. Vovó, por exemplo, enquanto fazia doces de massa folhada, ocupava me fazendo pincelar manteiga cada vez que esticava a massa com o pau de macarrão. Minha tia alemã, loira, de nome Ivete, me ensinava as letras do alfabeto. Me dava uma tesoura e me fazia recortar letras de um monte de revistas e jornais velhos. As duas primeiras letras que tive que aprender foram respectivamente o "O" e o "I", que tinham as formas geométricas mais fáceis. O "o" Gordinho e o "i" magrinho passaram a ser universalizados como ligado e desligado. E destas para o resto do abecedário, e daí para as sílabas e as palavras. No final das férias, com três anos de idade, minha tia Ivete tinha me alfabetizado. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Balanças





Sou um dos cinco mil sujeitos da pesquisa denominada ELSA - Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto. Me mediram e pesaram. Subi numa balança -- onde a gente segura numa espécie de cabo -- que fornece a massa de gordura segmentada ou seja qual a porcentagem de gordura que tenho no tronco e em cada um dos membros. Tudo digital e o resultado já sai impresso. Me sirvo de um palmilheiro que tem outra balança que mostra o quanto do meu peso vai para o pé direito e o quanto vai para o pé esquerdo. O resultado também sai impresso. Essas balanças digitais não balançam.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Trabalhadores do mundo, uni-vos!



Em julho de 1974, fui selecionado para participar durante 3 semanas do Graduate Study Programme, organizado pela ONU em Genebra. A proposta era reunir estudantes de pós-graduação de diferentes países numa simulação dos ritos e procedimentos na ONU, e discutir o tema da População Mundial. Nas sessões, em torno de uma mesa oval, havia apresentação de um especialista que compunha a comissão que preparava documentos para a Conferência sobre População que iria ter lugar em Bucarest, em agosto. Cada sessão era presidida por um Chairman, a quem cada participante pedia a palavra e, o que era interessante, era a quem deveríamos dirigir nossa fala. Que desta forma sempre começava pelo vocativo: "Mr. Chairman, blablablá..."  Tinha tradução simultânea para o inglês e francês. O tema da contracepção sempre foi muito delicado, e tomada por preceitos e preconceitos de ordem moral e religiosa. Foram discussões bastante interessantes, e a convivência com colegas de outros países permitiu me descaipirizar um bocado. Genebra, com 200.000 habitantes, muito cosmopolita. Durante os fins de semana visitamos Gruyere, e a modernizada fábrica de queijos, subimos o Salève para um piquenique, conheci o gazpacho servido gelado no bandejão, e a estonteante irmã do colega da Indonésia, numa recepção que o pai deles, que era o representante de seu governo junto à ONU, deu em sua casa. Nesta recepção, um dos mexicanos, muito engraçado, fez imitações caricatas de alguns dos participantes. Dentre os muitos causus que se definiram na ocasião, selecionei um para esta blogada. Naqueles dias estava havendo em Chipre uma guerra entre turcos e gregos para o controle da ilha. Os esforços de pacificação ocorriam justamente no mesmo "Palais des Nations", que era também local do nosso encontro. De manhã, chegavam dois carros com aquelas bandeirinhas sobre os parachoques dianteiros, um trazendo o representante do governo turco e o outro trazendo o representante do governo grego que se reuniam a portas fechadas. A descida e a volta dos representantes da Grécia e da Turquia aos seus respectivos carros era sempre de cara amarrada e acompanhada por jornalistas e fotógrafos. Durante as conversações, os dois motoristas ficavam na espera, papeando entre si. Numa boa. Acho que deviam ficar falando de salário. 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Caipira internacional


Em uma postagem anterior ("Domingo", de novembro passado) contei de um jantar que, em maldita hora, combinamos fazer na casa de duas colegas americanas, em Berkeley. Eu e meu amigo colombiano tivemos que ir até a peixaria para comprar os ingredientes, preparamos a paella, e nos tocou os pratos sujos... Eu deveria ter previsto, pois já era meio escolado na culinária ready-made das garotas americanas. Vamos ao "causu"... Uma tarde de sábado, saímos eu e o Edson Fregni para ir até a Biblioteca de Palo Alto para uma consulta à lista telefônica de outra cidade que tinha lá disponível. No caminho passamos em frente a uma casa onde se promovia um "yard sale", que é uma instituição: tudo que era tranqueira em geral armazenada na garagem das casas era disposta no jardim para venda a valores de coisa fora de uso. Por exemplo, tacos de golfe, cartões de Natal sem uso, livros infantis, roupa demodé, baldinho de areia, artigos de segunda necessidade e assemelhados. Entramos no jardim curiosos, e nos apresentamos aos donos da casa, que nos contaram ter uma filha no Brasil trabalhando num grupo teatral. Ficou com o nosso telefone. Uns dias depois nos ligou convidando para jantar junto com um hóspede que tinha vindo do Brasil para se tratar no Hospital de Stanford. Montou a mesa com as parelhas, e para que eu não ficasse sem par, incluiu uma sobrinha, daquelas californianas com cabelo dourado, que estava se mudando para Chico, onde iria fazer o colégio. Perguntei a ela o que tinha em Chico, e ela respondeu: lindas amendoeiras. Num momento inicial do jantar foi servido o pão quentinho e soubemos que era a tal sobrinha quem tinha feito. Com uma dose de galanteio que a situação conduzia passei a elogiar sem parcimônia as prendas da moça, imaginando-a de avental, peneirando a farinha, sovando a massa, enrolando um a um, e controlando o forno para que assasse no ponto certo. Que o pão ficara delicioso, e tal. Passado um ano, na prateleira do supermercado encontrei à venda uma especie de latinha contendo o tal pãozinho prontinho para ser assado... 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Campeão do Mundo


Frevo do Bi (1962)

No ano de 1954, "passamos" a copa do mundo em Santos. Era julho, férias escolares, e íamos para lá pois o ar do mar fazia bem para meu irmão que sofria de asma. Guardo imagens do pessoal reunido no hall da Pensão Beira Mar (familiar), onde nos hospedávamos, em torno de um desses rádios enormes, que chiava com volume variável. Em 1958, com 10 anos de idade, já acompanhava futebol, e pude vibrar com a seleção onde estavam escalados muitos dos meus ídolos, como o goleiro Gylmar, o Djalma Santos, o Vavá. Já fazia o álbum de figurinhas. Ouvíamos o jogo no rádio de casa, o nosso era um Telefunken conjugado com uma vitrola estereofônica, e quando o Brasil marcava um gol, como todos, a gente corria para a rua para soltar rojão. Na Praça da Sé altofalantes transmitiam o jogo ao vivo que poderia ser imaginado olhando-se o enorme painel, com um desenho do campo, onde a lâmpada acesa mostrava em que lugar a bola estava. O jogo final, contra a Suécia, foi no dia de São Pedro, e eu tive que ir dançar quadrilha um pouco antes. Em 1962, ano em que o Brasil se tornou bi-campeão, no Chile, a vizinhança competia no item rojões. A novidade daquele ano é que assistíamos ao videotape tão logo chegasse a "fita", e quase sempre era no dia seguinte à porfia. O Frevo do bi, do Jackson do Pandeiro, captou a euforia do momento. A rememoração das copas é também um registro do impressionante desenvolvimento das telecomunicações: inovações foram incorporadas: a transmissão ao vivo via satélite, a transmissão a cores, a transmissão em alta resolução, as câmeras operadas à distância; a gente "entra" em campo.


domingo, 18 de maio de 2014

Jaywalking




Em 1974, fui multado por atravessar a rua no centro de Oakland fora da faixa de pedestres. Tem algo de universal nestes aplicadores de multa do tipo que fica à espreita. Tentei o truque de falar com sotaque e o guardinha começou a falar comigo... em italiano. A infração é conhecida por “jaywalking”. Devidamente instruído, decidi ir à corte para negociar o valor da multa, muito alta para um bolsista brasileiro. Era uma audiência coletiva de julgamento de transgressores no trânsito, no fórum do Condado de Alameda. Inicialmente, um guarda pediu a todos  que levantássemos para a entrada do juiz, que veio de toga. Olhei para meus companheiros de julgamento:  pessoas muito simples e pelo jeito imigrantes em busca de melhor vida,  semidesocupadas. Depois de sentarmos o juiz leu um texto que citava estatísticas terríveis  sobre as vítimas de trânsito no estado da Califórnia, que tive que ouvir de novo em espanhol. Daí ele chamava um por um dos delinquentes para perguntar se se autojulgavam inocentes ou culpados (guilty). Quando fui chamado e identificado, o juiz sem levantar o olhar, leu a acusação que me foi feita de ter atravessado a rua fora da faixa. Culpado, admiti. E o que é que o senhor tem a dizer a respeito disso? Disse que era um estudante que vinha do Brasil, onde era comum e mais seguro atravessar a rua no meio do quarteirão. Tal como um padre no confessionário definindo a penitência em função da gravidade do pecado (deveria ter uma tabelinha própria), ele me passou um papel que me dava um desconto de 50 % na multa, a ser paga na tesouraria da corte. E chamou o próximo da fila.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Relembrando o Nori








O Departamento de Tecnologia da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, ao qual tenho sido afiliado desde 1980, está completando 50 anos. Para marcar a ocasião, está fazendo uma publicação comemorativa para a qual os professores foram convidados a contribuir. Para isto achei oportuno fazer um devido registro sobre a passagem de um dos nosso professores falecidos, pessoa muito especial: o Prof. Noriyuki Yamamoto.

O Nori, como era conhecido, foi meu colega de turma na Escola Politécnica. Enquanto estudante morava no bairro da Liberdade, nos fundos de uma casa onde a entrada era o estúdio fotográfico de seus pais. Após ter se formado, trabalhava como engenheiro na Prefeitura Municipal de São Paulo.

Em 1977, se tornou docente da Escola Politécnica, e foi colocado à disposição da FAU para dar as aulas de Geometria Descritiva. Vinha de ônibus até a Cidade Universitária impedido de dirigir por problemas de visão. Valeu o seu esforço de diferenciar a disciplina daquela dada na Poli adaptando seu conteúdo para questões da arquitetura, dando como exemplo o desenho de telhados. Trabalhava maquetes com seus alunos, que um ano construíram um modelo de castelo japonês, para exposição numa feira de cultura japonesa.

Faleceu em em março de 1995, em decorrência de um derrame que teve enquanto jogava tênis no centro esportivo da Cidade Universitária. Muito discreto, pouco se sabia de sua vida particular, que nos começou a ser revelada no seu enterro, que foi muito concorrido. Chegavam ônibus cheio de estudantes para seu velório, num cerimonioso ritual budista. Ficamos então sabendo o quanto ele era querido na colônia pelo trabalho voluntário que fazia, em especial com as crianças para quem ensinava computação e futebol.

Sete anos depois de sua morte, seus filhos convidaram amigos e colegas do pai para um memorial desta vez num templo budista. Seguiu-se um lanche e cada convidado recebia um mimo, uma caixa de doces. Percebia-se uma aura de felicidade.

Hoje Engenheiro Noriyuki Yamamoto é o nome de uma praça, localizada na Vila Sônia, mostrada no centro da imagem do Google Earth anexa. Talvez porque em vida já fosse um boa praça.





quarta-feira, 14 de maio de 2014

Balinhas







































Peggy Jo é uma amiga americana. Viveu no Brasil, por um ano, tendo morado com a Angela, minha mulher, na época em que ambas eram solteiras. Vive hoje na Califórnia, nas vizinhanças de Carmel, e conversar com ela é um prazer: sempre tem tiradas perspicazes com um humor próprio dos norteamericanos que só consegui captar tendo vivido mais de cinco anos de minha vida naquele país. Um humorismo, daquele tipo das dos quadrinhos do Minduim (Charlie Brown), que universaliza a cabeça das crianças de lá. Aproveitando uma viagem no mês passado, fomos visita-la. Falávamos sobre mudanças, e ela -- que vivera em diferentes cidades -- veio com esse seu entendimento a respeito de como medir a adaptação a um novo lugar: esta só se dava quando você tiver encontrado a "sua" balinha do local ("finding your own candy bar").






terça-feira, 13 de maio de 2014

Jair Rodrigues

Nota introdutória aos meus leitores Durante meu "período de férias" deste blogue, muita coisa interessante aconteceu, entre as quais eu cair na tentação de aceitar coordenar um projeto, viajar duas semanas pela Califórnia, e mandar umas semiblogadas através do Facebook. Abaixo reproduzo uma delas, motivada pelo falecimento do Jair Rodrigues.




Era o início da década de 60, e eu fazia um curso de árabe, aos sábados à tarde, no Club Homs, um casarão adaptado na avenida Paulista que tinha um famoso salão. No meio da aula, comecei a ouvir dentro daquele prédio meio labiríntico uma música cantada pela Elis Regina. Fui atrás, entrei no salão e não é que era a Elis em carne e osso ensaiando junto com o Jair Rodrigues, o show que iriam ali dar à noite. Fiquei quietinho no fundo da plateia e assisti a todo o ensaio com exclusividade. Chamou atenção o profissionalismo perfeccionista da dupla. Tudo tinha que sair perfeito. A Elis swingava e o Jair mostrava sua dicção perfeita, palavra por palavra inteligível. Só voltei a rever o Jair Rodrigues em carne e osso, há uns meses atrás num show que deu no clube Pinheiros, em que ele plantou bananeira. Deixe que digam...
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domingo, 11 de maio de 2014

No dia das mães, retornando à atividade blogueira


Maio de 2014

Há poucos dias, mamãe me passou um envelope com a fichas de acompanhamento que meu pediatra, Dr. Woiski lhe deu quando fechou seu consultório em São Paulo, em 1956. Mudava-se para Ribeirão Preto para assumir o Departamento de pediatria da recém inaugurada Faculdade de Medicina que a USP instalou naquela cidade. 

Era para ela entregar aquele material para meu novo pediatra coisa que, pelo jeito, ela nunca fez. De minha melhor puxada de memória, não me lembro mesmo de ter sido levado a outro pediatra, e em se tratando de minha mãe até entendo: o Woski já lhe passara a rotina... e a intuição de mãe superava toda a medicina.

Minha mãe me teve no Líbano, em dezembro de 1947. Esperou eu ficar maiorzinho para pegar o navio de volta para o Brasil, onde chegamos em novembro de 1948. Disse que dei tanto trabalho na viagem, que um marinheiro tinha sugerido me jogar no mar... Minha primeira consulta com o Woiski, foi em março de 1949, e na melhor tradição quantitativa da ciência pediátrica, em minha primeira ficha ao lado da data da consulta, meu peso -- 9 quilos e 680 gramas e altura 77 cm. 

"Inapetente. Regime o mais desordenado possível. Evacuações normais. Vacinação só contra varíola. Não foi contra a difteria. Pé chato. Amigdalite em regressão (Nota: anos depois acabei operando as amígdalas)". Se seguiam seus comentários: "Não obstante a multidão de erros e a neuropatia, o estado é satisfatório". E anotava sua prescrição: Regime de 4 refeições + leite, Navitol e vacinação, registrando entre parêntesis, sua percepção de que "tudo em pura perda; nada espero que seja tratado". 

Um primo meu, Jamil Auada, já falecido, foi aluno do Woiski em Riberão Preto, e contava que esse era o estilo dele, franco, autoritário e sentimental. Imagino a impressão desesperançosa causada ao douto doutor, por minha mãe, cuja simplicidade escondia uma enorme inteligência. O nome dela é Maria. 

Transcrevo a última anotação, feita 7 anos depois, aos 8 anos, quando eu já pesava 27,5 quilos e tinha estatura de 1,25 m. "Está passando bem. Veio para um exame geral. Evacuações normais. Nega resfriados frequentes. Quando se resfria tem tosse com catarro. Dorme bem. Bom apetite. 3 copos de leite ou coalhada por dia. Demais alimentos muito bem. Vitaminetas (sic) e levedo de cerveja. PA 110/66. 

Condições gerais ótimas. Corado. Boa musculatura. Esqueleto bem conformado. Lentes boas. Todos núcleos no corpo".