domingo, 18 de maio de 2014

Jaywalking




Em 1974, fui multado por atravessar a rua no centro de Oakland fora da faixa de pedestres. Tem algo de universal nestes aplicadores de multa do tipo que fica à espreita. Tentei o truque de falar com sotaque e o guardinha começou a falar comigo... em italiano. A infração é conhecida por “jaywalking”. Devidamente instruído, decidi ir à corte para negociar o valor da multa, muito alta para um bolsista brasileiro. Era uma audiência coletiva de julgamento de transgressores no trânsito, no fórum do Condado de Alameda. Inicialmente, um guarda pediu a todos  que levantássemos para a entrada do juiz, que veio de toga. Olhei para meus companheiros de julgamento:  pessoas muito simples e pelo jeito imigrantes em busca de melhor vida,  semidesocupadas. Depois de sentarmos o juiz leu um texto que citava estatísticas terríveis  sobre as vítimas de trânsito no estado da Califórnia, que tive que ouvir de novo em espanhol. Daí ele chamava um por um dos delinquentes para perguntar se se autojulgavam inocentes ou culpados (guilty). Quando fui chamado e identificado, o juiz sem levantar o olhar, leu a acusação que me foi feita de ter atravessado a rua fora da faixa. Culpado, admiti. E o que é que o senhor tem a dizer a respeito disso? Disse que era um estudante que vinha do Brasil, onde era comum e mais seguro atravessar a rua no meio do quarteirão. Tal como um padre no confessionário definindo a penitência em função da gravidade do pecado (deveria ter uma tabelinha própria), ele me passou um papel que me dava um desconto de 50 % na multa, a ser paga na tesouraria da corte. E chamou o próximo da fila.


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