sexta-feira, 29 de maio de 2015

Nos subterrâneos da Avenida Paulista: Sinopse para um samba-enredo





Um texto meu de 2003, encontrado limpando meus arquivos na Faculdade. Tem algo a ver com algum concurso sobre a Avenida Paulista, do qual não consigo me lembrar


Como o humano, o corpo terrestre tem entradas para suas escuras e tépidas entranhas onde praticamos o estranho prazer de sentir medo. São dutos, túneis e cavernas. Estradas que acabam não se sabe aonde, que levam a lúgubres, misteriosos recônditos que podem ser extasiantes.

Como no peito da mulher que amamenta, uma rede vascular irriga o maciço sempre fremitante que constitui o espigão da avenida Paulista, onde jorra o maná leitoso do capital financeiro internacional. Lembrando curvas gêmeas, o túnel da Nove de Julho atravessa de norte a sul e o buraco do Metrô, transversalmente, do oriente ao ocidente, passando pelo Paraíso.

Entradas públicas relembram o ápice da cultura paulistana, o brigadeiro necessário de todas as festas infantis, o masp que enfrenta o trianon, entesourando resquícios da Semana de 22, a consolação do cemitério, as clínicas a Madalena, que segundo o nosso maior compositor carioca, Jesus manda perdoar.

Mas há entradas secretas. Como a que fica na intrigante casinha no meio do jardim do parque Siqueira Campos. Têm privilegiado acesso os sáfiros que perambulam no quarteirão de mata Atlântica, dançando ao inaudível sons que saem da flauta da estátua de Pan. Espíritos e fantasmas se divertem pregando peças na avenida Paulista, em particular durante as manifestações e passeatas que lá costumam ocorrer, e que o caos causam em toda a urbe. Como quando se transformam em punks que atiram cocos contra a polícia.

Como na Internet, os túneis sob São Paulo se interconectam com a rede mundial de caminhos subterrânos. Através de camadas profundas da terra chegam a Tora Bora, e as explosões de bombas do exército americano durante à caçada a Osama bin Laden, reverberaram nos pisos dos edifícios do Citybank, do Bank of Tokio, do AMRO, jogando para cima juros e juras.

São muitas as notícias da grande história humana que chegam através dessa rede, do canal subatlântico desde a África e entram pela passagem secreta na quadra da Vai-Vai, no Bairro do Bexiga, que as utiliza em sambas enredos memoráveis, como foi o Orun Aiyê, vencedor do carnaval paulistano.

Grupos de orcs Tolkenianos, responsáveis pela contínua ampliação desta teia, subcontratados para trabalhar nas obras do Metrô, virulentos, reagem à exploração da máfia dos empreiteiros, cavando túneis até os subterrâneos do cemitério de Araçá, onde têm obtido bons cadáveres para afiar seus caninos.

O mundo desconhece, mas o seu tráfego subterrâneo é controlado pelo centro de operações na rua Vergueiro, um edifício paralepipedal em cuja vidraça se reflete a imagem da desativada cervejaria Brahma, deus hindu, cujo maior segredo era usar essa água contaminada pelo eflúvios místicos daquela parte do subsolo. Notícias vindas do Egito veiculadas no hebdomadário "Grunhidos das catacumbas", o jornal de maior circulação nos porões da Paulista, informam que as múmias já teriam feito uma convenção para amaldiçoar a venda para a Budwiser, como a de uma morte anunciada.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Índio no futebol





Um bonito domingo de sol, marcamos para ir ao futebol no Estádio do Morumbi. O ponto de encontro era a casa do meu irmão Sérgio. Um amigo dele, antropólogo, foi acompanhado por dois índios, que se juntaram ao grupo.

O estádio estava superlotado. Na virada dos anos setenta, não havia o CONTRU para regular o número de ingressos máximo tendo em vista maior segurança da torcida. Naquela época só dava para a gente frequentar a geral superior, terceiro andar, sem elevador, que tinha entre outros atrativos o vento frio e as tremidas da estrutura de concreto basculante. Eram bancos corridos de cimento semi gelado, sem marcação de assento.

A entrada para a geral era feita através de rampas segregadas, e escadarias -- que percorremos. Ao chegar na platéia, não encontrávamos mais lugar para sentar. O "fator índios" fez toda a diferença, e duas ou três clareiras se abriram naquela floresta (uma boa metáfora para o caso) de humanos, com espaço que nos eram oferecidos.

Não tive outra experiência semelhante, mas acho que dá para concluir que levar um índio amigo pode ser um recurso válido para se encontrar acomodação numa arquibancada lotada. Fica como ideia.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Soma


Bomba de chopp 

Meu aniversário cai na antevéspera de Natal, um período de confraternizações, o que significa pressão sobre a oferta de bebidas. Uma vez, quando ainda estava na faculdade, não havia mais barril de chope à venda nos depósitos de bebida de São Paulo. Consegui um a muito custo num restaurante que pertencia a um semiprimo de minha mãe. Mas ele não poderia dispor de uma bomba porque precisava no restaurante.

Depois de algum esforço de pesquisa soube que havia uma chopada de fim de ano do pessoal da Elétrica da Poli,. Começava às onze da manhã e combinei com um colega para trazer a bomba para minha casa quando terminasse. O tempo passava, a noite já tinha caído, os convidados para chegar, quando ele me ligou dizendo que ainda havia gente, e como acontece a velocidade do consumo de bebida ia diminuindo na medida em que aumentava intensidade da filosofia do tipo peripatética, e pelo andar da carruagem a coisa iria se estender noite a dentro. 

Fazer o que? Ele não podia acabar com fonte de inspiração da filosofia dos elétricos e ao mesmo tempo atender minha necessidade de uma bomba. Passado algum tempo ele chegou em casa com a esperada bomba, bem acompanhada de um barril semicheio e dos bebuns remanescentes, que esticaram na minha festa de aniversário. Acabei fazendo novas amizades.

A soma pode ser solução para grande número de conflitos. 

domingo, 24 de maio de 2015

Direito do consumidor






Era o ano de 1990, segundo ano de meu Pós-doutorado na Universidade da California em Berkeley, e nos mudamos para um condomínio; no primeiro ano houvéramos alugado uma casa já mobiliada e nosso senhorio era o Prof. Manuel Castells, que passava um ano sabático na Espanha. Nosso novo local de moradia era sem mobília, que tivemos que alugar por um ano.

Por 99 dólares comprei uma televisão colorida na loja "Whole Earth". Quando liguei a TV em casa, a tela só mostrava rabiscos multicores. Era inesperado de um produto Toshiba. Levei o aparelho para a troca; sem questionar, o vendedor me deu um aparelho novo, na caixa, para levar para casa.

Já em casa, ao ligar o novo aparelho na mesma tomada, ele apresentava uma mensagem da operadora da televisão a cabo, informando que em decorrência de umas obras a transmissão estava prejudicada e que logo voltaria ao normal, o que de fato aconteceu.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Solimões




Esta postagem dá seguimento à anterior, sob título "Natush Bush Putsch", sobre a viagem que fiz em 1979, desde Lima até Manaus, contando um pouco sobre como foi o trecho de Piura até Quito. (Recomendo a sua leitura para uma contextualização). Aqui, vou retornar à narrativa, contando sobre o trecho entre Bogotá e Manaus.

O voo da Avianca me levou da Cordilheira para a selva. Percebi a mudança de ambiente, quando desembarquei em Letícia, acolhido por um bafo úmido que tão logo atravessei a porta do avião embaçou meus óculos. A cidade florescia no meio da floresta, em grande parte em função do comércio ilegal. Atravessei a fronteira de táxi, uma Brasilia que me levou a Benjamin Constant, do lado brasileiro, onde a televisão demarcava presença da brasilidade, exibindo o Programa do Chacrinha.

Naquele mesmo dia partia um catamarã da ENASA (hoje extinta porque não houve interessado quando tentaram privatizar aquela empresa), para Manaus. O barco foi projetado no IPT, onde eu trabalhava. Reparti a cabine com um professor de português, que durante o percurso lia Eça ("Amor de Perdição"). A cabine era parte da classe executiva; embaixo, num salão único, ficava a classe turista, onde os passageiros dormiam em redes -- cada um tinha a sua -- levando a bagagem no chão.

A viagem, para quem queria "sentir" a floresta é semidesapontante; o rio é relativamente largo e o que se vê nas margens é mais uma ocupação de fazendas. Era praticamente o único meio de transporte e parava em cidadezinhas; sempre que podia eu descia para ver o ecletismo das construções feita com material comprado em Manaus. (Numa destas descidas, quase fui esquecido pelo capitão que decidiu sair antes do combinado!)

O barco não dispunha de sonar; no seu lugar um marinheiro de binóculos, que guardava na memória o trajeto de ida e vinda e apontava os bancos de areia. Conhecendo esta precariedade, desde então passei a não me surpreender com noticias que chegam de barcos de passageiros que viram.

Serviam peixe todos os dias: tucunarés, tambaquis. No último jantar, de gala, pirarucu. Quatro dias depois desembarcamos em Manaus. Visitei o famoso teatro, na época bem decadente, Comprei um forno de microondas produzido na Zona Fanca. No avião, de retorno passado quase um mês, leio no jornal as notícias da metrópole; aumento brutal no preço da gasolina, e o anúncio de um concerto de 4 pianos no teatro municipal de São Paulo, executado por Caio Pagano, João Carlos Martins, Arthur Moreira Lima e Paulo Maluf. Não dá mais para desistir da volta, após a decolagem.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Natush Bush putsch




Quito


Um passeio costumeiro durante as férias de julho, quando eu estava na faculdade, era combinar com algum grupo de colegas para ir até Machu Pichu. Parte da viagem se fazia com o chamado "Trem da morte", que saía de Corumbá até Santa Cruz de la Sierra. De lá se subia até La Paz, e se chegava a Puno atravessando o Lago Titicaca, e em seguida a Cuzco, e Machu Pichu. Nunca deu certo para mim, mas fiquei em débito, que planejei quitar em novembro de 1979, quando, já com o mestrado,pude tirar férias no trabalho.

Cerca de duas semanas antes da partida planejada, houve um golpe de estado na Bolívia, dado por um "outro" Bush, com um prenome que rimava, Natush, e as coisas ficaram mais bravas naquele país. A Bolívia vivia de altos e baixos, desde a época em que Ché Guevara lá militava, acabando por ser assassinado. Fortemente recomendado para evitar o país naquela circunstância -- conhecida por Natush Bush putsch -- alterei de última hora meu roteiro de viagem: voei até Lima, e fui por terra até Bogotá, onde peguei um avião até Letícia, em seguida um barco pelo Solimões, durante "quatro dias e horas" até chegar em Manaus, retornando de lá para São Paulo.

Fui um mochileiro sem mochila, carregava minha bagagem numa mala. Uma deliciosa aventura, com tantos "causus", que preencheria um livro.

Vou contar como foi o dia em que saí cedo de Piura  -- que ficou notabilizada pelo romance/novela "A Casa Verde" do Mario Vargas Llosa com um bilhete de ônibus até Quito. Eram poucos os passageiros na saída, mas o ônibus ficou lotado, com gente em pé, que o motorista recolhia pelo caminho, desconfio que "por conta própria". Atravessei a fronteira a pé, com minha mala na mão para pegar outro ônibus -- desta vez equatoriano. Um grande movimento de sacoleiros -- na sua maioria mulheres, com suas saias rodadas, que iam se abastecer no Peru. Não havia controle fronteiriço, tivemos que esperar abrir a polícia de fronteira em Huaquillas, fechada para o almoço , para poder carimbar o passaporte.

De lá, região de Guaiaquil, no nível do mar. o caminho até Quito era de uma permanente subida da Cordilheira, lindíssima paisagem, numa estradinha bem estreita, que faz a gente aprender para sempre significado de topografia. O ônibus velho, marchava como velho, lentamente, e eu não tinha comida. (Me arrependi muito não ter comprado um alfajor, destes tamanho família, que um ambulante me ofereceu ainda na rodoviária).  O ônibus só parou em Riobamba, já era noite, e a cidade estava sem luz, iluminada por archotes. Entrei no "restaurante" e vi que os talheres eram lavados num bacião, cuja água era tão preta que imagino que era a mesma desde o período incaico.

Cheguei em Quito alta madrugada, e as sacoleiras iam direto para uma praça muito bonita, e dormiam sentadas com a muamba no colo. Peguei um taxi e não encontrava mais lugar em hotel algum! O taxista finalmente me arrumou um lugar no sótão que ficava no sétimo andar de um hoteleco, sem elevador. Subi correndo com minha mala, que já continha lembranças compradas em Lima. Meu coração disparou, estava a 3 mil metros de altura, onde o oxigênio era rarefeito. Sozinho. Semiassustado, refiz aquela escadaria de volta até o saguão do hoteleco, onde fiquei até o alvorecer pensando que se por acaso eu morresse, seria notado mais rápido. Mas não morri.

sábado, 16 de maio de 2015

BB King



No ano de 2004, estávamos em Nova Iorque e fomos assistir a um show que o BB King deu no "World Famous Apollo Theatre" (era assim que os porteiros nos recebiam: "Welcome to the World Famous Apollo Thetatre"), localizado no semi-estigmatizado bairro do Harlem. Anos depois serviu de local para o demorado velório do James Brown. 

Ele recém tinha retornado do Brasil -- com ingressos 4 vezes mais caros. Entrou no palco agradecendo aos aplausos em português: "Obrigado", e fazendo menção ao quanto tinha sido simpática sua estada no Brazil. 

Estava em casa, na platéia fãs e familiares, muito à vontade -- já se apresentava sentado o que colaborava para aquele cenário semiintimo, onde cativava com seus "causus", com humor cúmplice.. Sempre dialogando com a Lucille, sentada no seu colo, 

Vi nele a versão louisiana do Luiz Gonzaga, nosso Lua, igualmente respeitado e amado. Grandões e carismáticos, souberam forjar letra e música e executar seu instrumento a alma do seu povo. Universalizando.risos e emoções.    

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Alfinetadas





O acupunturista era um emigrado da China ainda maoista, e veio para o Brasil trazendo críticas pessoais ao regime comunista. Aderiu à livre iniciativa, e abriu uma clínica em São Paulo, toda decorada em estilo chinês; na sala de espera uma daquelas fontezinhas permanentes, com água de origem misteriosa. Uma garrafa térmica de chá com biscoitinhos de nata.

Durante as sessões, ficávamos falando de política e ele ficava vituperando contra o Lula, ao mesmo tempo em que espetava suas agulhas em pontos que, a meu ver, não tinham nada a ver: do calcanhar ao cucuruto. Me senti como servindo de um daqueles bonecos utilizados no vodu haitiano.

A dor passou, sem medicação alguma. 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Multa de trânsito





Estar semidesocupado é dispor de algum tempo para se dedicar a coisas mais prosaicas, como dar atenção às multas de trânsito. O normal é a gente receber multa com surpresa, alguma coisa de que a gente não se lembra, e apresentar recurso é tempo mal usado. Mas algumas vezes acabamos ofendidos com o absurdo da situação.

Dou um exemplo, fui autuado por ter cometido a seguinte infração: "parar sobre a faixa de pedestres", Com um adendo: "a infração foi comprovada por sistema automático não metrológico de fiscalização"  tendo essa a notificação sido documentada com a foto acima reproduzida, que mostra de forma clara que o carro não estava parado sobre a faixa de pedestres.

Apresentei recurso, depois de muito tempo procurando achar uma agência de correio para postar -- com aviso de recebimento. As três agências que costumava usar tinham fechado! Recebi a resposta: mantida a autuação. Fica uma hipótese: talvez esta percepção de que o carro não estava sobre a faixa era indicação de que, pelo jeito, sou um ente metrológico.

domingo, 10 de maio de 2015

Cucuruto






O ser humano é mesmo uma criação maravilhosa. Tem órgãos que permitem sentidos e percepções até raciocínios e emoções. Mas, Deus onipotente que me desculpe, cometeu algumas imperfeições de projeto. Um deles é o da colocação dos olhos, na frente do rosto, que torna complicado ver como é andam as coisas atrás da gente. Requer sempre o uso de dois espelhos, como quando o barbeiro quer mostrar se está bom o corte. 

Ontem, por ser véspera do dia das mães, fomos jantar fora, Ângela, eu, Francisco e Mariana, Enquanto aguardávamos ser servidos, pedimos para o garçom tirar esta foto, usando o flash. Pude ver refletido no espelho meu cucuruto, e o avanço da careca. Leva um certo brilho. Uma fotografia de costas deveria ser um item dos "check up", em especial dos que têm a profissão maestro. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sumac



O nome sumac vem do siríaco, e significa vermelho. É uma especiaria, muito especial. A Wikipedia em português não lhe faz referência, o que mostra o quanto é desconhecida por aqui. Copio em inglês: The fruits (drupes) of the genus Rhus are ground into a reddish-purple powder used as a spice in Middle Eastern cuisine to add a lemony taste to salads or meat. (Os frutos (drupas) do gênero Rhus são moídos em um pó vermelho-púrpura usado como um tempero na culinária do Oriente Médio para adicionar um sabor limão para saladas ou carne). 

Está na alma do fatouch libanês, contribuindo para aquele sabor azedinho "yami-yami". Também acompanha o kebab iraniano. A cor carmim contrasta quando pulverizado sobre o hummus, ou outra pasta branquela.

Trouxe do Líbano um quilo de sumac, que fez parte de uma caixa de ingredientes que Pierre Ghanem, primo de minha mãe, mandou botar de presente em nossa bagagem. Me entretenho na culinária experimental, substituindo o caldo do limão por sumac.em alguns pratos. Hoje no café da manhã, por exemplo, coloquei uma boa pitada em cima da papaia. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sismos



Consequências do terremoto de 1989 em San Francisco, justamente numa região (Beach District) que foi edificada em cima de um aterro feito com os escombros do destruidor terremoto de 1906



O Brasil é um país em que o principal desastre natural é o governo. Estabelecido em área geologicamente velha, não temos vulcões e nem falhas geológicas importantes. Mas estive, e até morei, em regiões sísmicas e senti abalos importantes, que foram me fazendo "ensismado".

O mais famoso deles foi o terremoto denominado Loma Pietra, que abalou a região da baia de San Francisco, 7.1 na escala Richter, em outubro de 1989. Ocorreu um pouco antes de eu ir dar aula, num seminário que fui convidado pelo Prof. David Dowell para com ele dividir. Sem ser capaz de avaliar o tamanho da coisa, após abandonarmos o prédio (Wurster Hall), para lá voltamos. Liguei para a Ângela para ter notícias e dei a aula! Só depois fiquei sabendo dos estragos. Sou tido como desligado e era mesmo tão pouco alerta a terremotos na ocasião a ponto de só saber que haviam abalos ("after shocks") pela reação das pessoas em meu redor.

Abalos sísmicos de menor porte eram muito frequentes a ponto do jornal da região, o San Francisco Chronicle, na página dedicada à meteorologia, trazer diariamente um mapa registrando aqueles que aconteceram na véspera. 

No ano de 2001, fui participar do I (e único, até agora) congresso da International Real Estate Society que se realizou no Alasca, próximo de Anchorage, exatamente na região onde ocorreu o "Grande Terremoto" de 1964, de 9.2 na escala Richter, considerado o segundo mais poderoso que se tem notícia, e que varreu do mapa a cidadezinha de Portage. Demos um passeio pela região -- que é belíssima com impressionantes glaciares -- e tudo o que resta da cidade é uma placa informando que ai ela estava. 

Era meio inevitável: na última noite do congresso, estávamos no quarto arrumando as malas para sair na manhã seguinte, quando o chão e o resto começou a balançar bastante, especialmente a cama de molas, onde eu estava sentado. Liguei para a recepção do hotel (Alyeska resort) e a moça que atendeu confirmou ter sido um terremoto, sim! E informou num tom bem blasé: "Isto é o extremo que você vai encontrar por aqui"

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O fim da picada




Ser reconhecido como um velho (a) resulta de uma construção social que é gradual. Os primeiros indícios surgem quando passam a nos chamar de senhor, em seguida quando no ônibus ou metrô as pessoas se levantam para oferecer o lugar que ocupam. 

Nesse processo de envelhização, há momentos embasbacantes. Fui tomar aquela vacina da gripe, e a enfermeira perguntou se eu estava em dia com minha vacinação, se eu havia tomado a vacina contra o tétano. Respondi que sim, até numa circunstância interessante: eu ocupava então o cargo de diretor técnico da Prefeitura do campus da Cidade Universitária, e tinha sob minha direção 1500 funcionários operacionais, do tipo jardineiros, motoristas, seguranças, pedreiros, etc. e foi programada uma vacinação antitetânica. Como superior hierárquico fui o primeiro da fila para dar exemplo e desdesconfiar o povo mais simples. 

A enfermeira perguntou se havia passado muito tempo, eu disse que estimava nuns 20 anos. Ela disse que eu deveria tomar de novo, me embasbacando com a aplicação do argumento de que velhinhos costumam levar tombos, com risco de fraturas que podem provocar o tétano. Tomei, é claro, a vacina, cuja picada carimbava minha passagem para esta fase da vida.