
Um texto meu de 2003, encontrado limpando meus arquivos na Faculdade. Tem algo a ver com algum concurso sobre a Avenida Paulista, do qual não consigo me lembrar
Como o humano, o corpo terrestre tem entradas para suas escuras e tépidas entranhas onde praticamos o estranho prazer de sentir medo. São dutos, túneis e cavernas. Estradas que acabam não se sabe aonde, que levam a lúgubres, misteriosos recônditos que podem ser extasiantes.
Como no peito da mulher que amamenta, uma rede vascular irriga o maciço sempre fremitante que constitui o espigão da avenida Paulista, onde jorra o maná leitoso do capital financeiro internacional. Lembrando curvas gêmeas, o túnel da Nove de Julho atravessa de norte a sul e o buraco do Metrô, transversalmente, do oriente ao ocidente, passando pelo Paraíso.
Entradas públicas relembram o ápice da cultura paulistana, o brigadeiro necessário de todas as festas infantis, o masp que enfrenta o trianon, entesourando resquícios da Semana de 22, a consolação do cemitério, as clínicas a Madalena, que segundo o nosso maior compositor carioca, Jesus manda perdoar.
Mas há entradas secretas. Como a que fica na intrigante casinha no meio do jardim do parque Siqueira Campos. Têm privilegiado acesso os sáfiros que perambulam no quarteirão de mata Atlântica, dançando ao inaudível sons que saem da flauta da estátua de Pan. Espíritos e fantasmas se divertem pregando peças na avenida Paulista, em particular durante as manifestações e passeatas que lá costumam ocorrer, e que o caos causam em toda a urbe. Como quando se transformam em punks que atiram cocos contra a polícia.
Como na Internet, os túneis sob São Paulo se interconectam com a rede mundial de caminhos subterrânos. Através de camadas profundas da terra chegam a Tora Bora, e as explosões de bombas do exército americano durante à caçada a Osama bin Laden, reverberaram nos pisos dos edifícios do Citybank, do Bank of Tokio, do AMRO, jogando para cima juros e juras.
São muitas as notícias da grande história humana que chegam através dessa rede, do canal subatlântico desde a África e entram pela passagem secreta na quadra da Vai-Vai, no Bairro do Bexiga, que as utiliza em sambas enredos memoráveis, como foi o Orun Aiyê, vencedor do carnaval paulistano.
Grupos de orcs Tolkenianos, responsáveis pela contínua ampliação desta teia, subcontratados para trabalhar nas obras do Metrô, virulentos, reagem à exploração da máfia dos empreiteiros, cavando túneis até os subterrâneos do cemitério de Araçá, onde têm obtido bons cadáveres para afiar seus caninos.
O mundo desconhece, mas o seu tráfego subterrâneo é controlado pelo centro de operações na rua Vergueiro, um edifício paralepipedal em cuja vidraça se reflete a imagem da desativada cervejaria Brahma, deus hindu, cujo maior segredo era usar essa água contaminada pelo eflúvios místicos daquela parte do subsolo. Notícias vindas do Egito veiculadas no hebdomadário "Grunhidos das catacumbas", o jornal de maior circulação nos porões da Paulista, informam que as múmias já teriam feito uma convenção para amaldiçoar a venda para a Budwiser, como a de uma morte anunciada.









