Quando, em dezembro de 1970, conclui meu curso superior, me formando concomitantemente Engenheiro Civil e Bacharel em Física, ambos pela USP, tinha sido estudante (do tipo militante) por toda minha pequena vida. Por inércia, prosseguir os estudos se colocava como um passo lógico. Tinha necessidade de ampliar meus horizontes complementando a lambida de ciências humanas, arte e política que me foi permitido naqueles anos, nos quais havia a censura.
Pouco a pouco se encorpava um sonho: ir para os Estados Unidos, entenda-se Califórnia, onde a contracultura pipocava. Uma vontade de trocar um lugar onde nada se podia, por outro em que -- ao que parecia -- tudo se podia.
Precisava na época de ambos: ser aceito numa universidade na região de San Francisco -- a Meca do Flower Power -- e obter uma bolsa que viabilizasse minha estada lá
A aceitação na Universidade não foi tranquila. Para o centro do poder, São Paulo e Bombaim eram a mesma coisa. Mas tive a felicidade de poder contar com a ajuda generosa do pai de uma amiga querida de nome Vera: o Prof. Tolle que mantinha uma amizade fraternal com o Prof. Aldo Vieira da Rosa (um dos responsáveis pela criação do CNPq), o qual dava aulas em Stanford, onde acabou se tornando professor emérito. Numa de suas vindas a São Paulo, fui até o sítio que o Prof. Tolle tinha em São José dos Campos, onde o mesmo promoveu minha apresentação ao Prof Aldo, que estava pendurado num galho de árvore de cabeça para baixo, esperei que ele descesse e expus o meu interesse.
Ele pegou o material que eu tinha de Stanford,e notou o nome do Chefe do Departamento de Engenharia Civil, Prof. James Gere, que coincidentemente era seu companheiro de jogging, todas as manhãs. Montou a estratégia: anotou meu nome como candidato num papel, e numa manhã iria deixar o James chegar na frente da corrida. Naquele momento de felicidade ele iria tirar do bolso o papel com o meu nome. Não demorou muitos dias, chegou a carta de admissão.
A bolsa de estudos também foi fruto de alguma casualidade. Escolhi como meu primeiro emprego o Instituto de Pequisas Tecnológicas do estado de São Paulo - IPT, que tinha uma política de enviar seus jovens técnicos para fazer pós-graduação no exterior. Quem cuidava desse programa era o Prof. Paulus Aulus Pompéia, que tinha trabalhado no projeto do ITA com o Paulo Tolle e o Aldo Vieira da Rosa. (Dediquei uma postagem ao Prof. Pompéia -- vide http://semidesocupado.blogspot.com.br/2015/06/paulus-aulus-pompeia.html). O Prof. Pompéia, cientista muito respeitado, intermediava os pedidos de bolsa no exterior dos ipeteanos junto à FAPESP.
Neste ponto, as forças cósmicas que regem o destino fizeram chegar uma carta de Stanford dizendo que meu conhecimento de inglês (medido pelo TOEFL) era insuficiente e que eu precisaria me aperfeiçoar no idioma, e mandaram um formulário de inscrição para um curso oferecido pelo seu departamento de Linguística. Na parte inferior do formulário tinha um quadradinho que chequei pedindo um bolsa de estudo para o curso. E eu ganhei! (um estudante do Brasil, país em desenvolvimento, merecia mais ajuda do que um japonês ou alemão, mesmo).
A assessoria da FAPESP estava dividida com relação a aprovação do meu pedido de bolsa, em boa parte porque o campo que escolhi -- planejamento urbano -- era pouco conhecido no Brasil, E também não me acompanhavam boas notas no boletim, incompatíveis com tardes de passeata, noites de assembléia e madrugadas de pichações.
Desta vez foi o Prof. Pompéia que montou a estratégia. Me perguntou se eu tinha dinheiro para a passagem (fiz um empréstimo de um pai rico de um aluno particular). E disse que iria obter meu afastamento remunerado do IPT para eu fazer o curso de inglês. No pior cenário, eu retornaria com um inglês aprimorado.
Um dia muito bonito de verão californiano recebo uma carta do Prof. Pompéia -- acho que ele escreveu semi-rindo, dizendo que se encontrou com o Presidente da FAPESP para discutir alguns pedidos de bolsa, e recebeu a notícia que meu pedido tendia ser denegado. Ele então lhe informou: "O Emílio já foi".