segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Semiparafraseando Drummond





(inspirado na situação da foto)

na escrivaninha tinha 
um par de óculos
tinha um par de óculos 
na escrivaninha tinha
um par 
no meio dos cabos tinha um par.

onde esqueci meu par de óculos?
rotina de minhas retinas 
tão fatigadas







sexta-feira, 27 de novembro de 2015

California Dreamin




Quando, em dezembro de 1970, conclui meu curso superior, me formando concomitantemente Engenheiro Civil e Bacharel em Física, ambos pela USP, tinha sido estudante (do tipo militante) por toda minha pequena vida. Por inércia, prosseguir os estudos se colocava como um passo lógico. Tinha necessidade de ampliar meus horizontes complementando a lambida de ciências humanas, arte e política que me foi permitido naqueles anos, nos quais havia a censura.

Pouco a pouco se encorpava um sonho: ir para os Estados Unidos, entenda-se Califórnia, onde a contracultura pipocava. Uma vontade de trocar um lugar onde nada se podia, por outro em que -- ao que parecia -- tudo se podia.

Precisava na época de ambos: ser aceito numa universidade na região de San Francisco -- a Meca do Flower Power -- e obter uma bolsa que viabilizasse minha estada lá

A aceitação na Universidade não foi tranquila. Para o centro do poder, São Paulo e Bombaim eram a mesma coisa. Mas tive a felicidade de poder contar com a  ajuda generosa do pai de uma amiga querida de nome Vera: o Prof. Tolle que mantinha uma amizade fraternal com o Prof. Aldo Vieira da Rosa (um dos responsáveis pela criação do CNPq), o qual dava aulas em Stanford, onde acabou se tornando professor emérito. Numa de suas vindas a São Paulo, fui até o sítio que o Prof. Tolle tinha em São José dos Campos, onde o mesmo promoveu minha apresentação ao Prof Aldo, que estava pendurado num galho de árvore de cabeça para baixo, esperei que ele descesse e expus o meu interesse.

Ele pegou o material que eu tinha de Stanford,e notou o nome do Chefe do Departamento de Engenharia Civil, Prof. James Gere, que coincidentemente era seu companheiro de jogging, todas as manhãs. Montou a estratégia: anotou meu nome como candidato num papel, e numa manhã iria deixar o James chegar na frente da corrida. Naquele momento de felicidade ele iria tirar do bolso o papel com o meu nome. Não demorou muitos dias, chegou a carta de admissão.

A bolsa de estudos também foi fruto de alguma casualidade. Escolhi como meu primeiro emprego o Instituto de Pequisas Tecnológicas do estado de São Paulo - IPT, que tinha uma política de enviar seus jovens técnicos para fazer pós-graduação no exterior. Quem cuidava desse programa era o Prof. Paulus Aulus Pompéia, que tinha trabalhado no projeto do ITA com o Paulo Tolle e o Aldo Vieira da Rosa. (Dediquei uma postagem ao Prof. Pompéia -- vide  http://semidesocupado.blogspot.com.br/2015/06/paulus-aulus-pompeia.html). O Prof. Pompéia, cientista muito respeitado, intermediava os pedidos de bolsa no exterior dos ipeteanos junto à FAPESP.

Neste ponto, as forças cósmicas que regem o destino fizeram chegar uma carta de Stanford dizendo que meu conhecimento de inglês (medido pelo TOEFL) era insuficiente e que eu precisaria me aperfeiçoar no idioma, e mandaram um formulário de inscrição para um curso oferecido pelo seu departamento de Linguística. Na parte inferior do formulário tinha um quadradinho que chequei pedindo um bolsa de estudo para o curso. E eu ganhei! (um estudante do Brasil, país em desenvolvimento, merecia mais ajuda do que um japonês ou alemão, mesmo).

A assessoria da FAPESP estava dividida com relação a aprovação do meu pedido de bolsa, em boa parte porque o campo que escolhi -- planejamento urbano -- era pouco conhecido no Brasil, E também não me acompanhavam boas notas no boletim, incompatíveis com tardes de passeata, noites de assembléia e madrugadas de pichações.

Desta vez foi o Prof. Pompéia que montou a estratégia. Me perguntou se eu tinha dinheiro para a passagem (fiz um empréstimo de um pai rico de um aluno particular). E disse que iria obter meu afastamento remunerado do IPT para eu fazer o curso de inglês. No pior cenário, eu retornaria com um inglês aprimorado.

Um dia muito bonito de verão californiano recebo uma carta do Prof. Pompéia -- acho que ele escreveu semi-rindo, dizendo que se encontrou com o Presidente da FAPESP para discutir alguns pedidos de bolsa, e recebeu a notícia que meu pedido tendia ser denegado. Ele então lhe informou: "O Emílio já foi".




quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Minha primeira neve




Stanford University, com a vista do branquinho da neve no topo da serra


Meio desnecessário dizer que minha primeira visão da neve não aconteceu no Brasil. 

Era dezembro de 1972, próximo do início do inverno no hemisfério norte, depois de uma noite muito fria, quando ia para a faculdade em Stanford, vi o branquinho no topo da serra que passava atrás da faculdade. Peguei o carro e guiei morro acima, bem agasalhado e não menos animado, para chegar até neve e ver do que se tratava.

Fui sozinho porque achei que seria um tanto caipira, convidar alguém para me acompanhar até a neve -- e acabou sendo melhor assim, pelo que vou confessar em seguida. Quando cheguei no topo, havia sim uma camada não muito espessa de gelo cobrindo partes do chão de pedra, e fui andar em cima. Levei um escorregão e caí sentado, molhando a calça jeans. Meu traseiro pode constatar como o gelo é gelado.

PS - :Passados alguns dias voltei até a neve desta vez na região do Lake Tahoe onde tive aulas de esqui "downhill". Parafraseando o Paulo Vanzolini, "homem de moral", levantei, sacudi a poeira e dei "voltas por cima"

domingo, 22 de novembro de 2015

Aconteceu em Lisboa



No mundo todo, é crescente o interesse pelo futebol. Nos últimos anos temos visto florescer em países que não tinham tradição.  Além dos campeonatos nacionais, são promovidos campeonatos pelos continentes, como é o caso da Liga dos Campeões da Europa. Há campeonatos entre nações, como a Copa América, e naturalmente a mais importante de todos que é a Copa do Mundo, que atrai bilhões de telespectadores.

Tal popularização foi consolidando  muitos interesses comerciais envolvidos, principalmente de produtos de consumo de massa, se destacando a Coca-cola. Surgiram os Sport Bars, uma aliança do esporte com as cervejarias; num quadro negro na porta de tais bares, o horário dos jogos a serem televisionados na semana, disponíveis mediante o consumo.  Para os jogos de maior interesse, colocam-se telões.

Passes de jogadores atingem valores da ordem de 50 milhões de euros. A FIFA – Federação Internacional de Futebol Association, órgão responsável pela regulamentação e promoção do futebol no mundo vira uma caixa de ressonância desses interesses, tendo se tornado um poço de corrupção.

Em viagens, costumo aproveitar para aprender um pouco sobre a situação local, que inclui a política e o futebol. Aos poucos, meu "espaço" futebolístico que se resumia ao campeonato paulista quando comecei a acompanhar esse esporte, foi se globalizando: passei a me familiarizar com novos clubes e jogadores que se destacam vindo de outros países.

Nos bares que ficam em saguões dos hotéis é costumeiro passar jogos ao vivo. Uma noite me encontrava em Lisboa quando retornei ao hotel onde estava hospedado, tendo adentrado o hall quando o futebol havia recém terminado. Embora  apenas semissoubesse  quais times jogaram, curioso, perguntei  a um dos espectadores que deixavam o salão: “Quem ganhou o jogo?”. Resposta com sotaque local “Eles” .


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Memória de um país dilacerado


Mausoleu de Saladino - Damasco 




Mosteiro grego-ortodoxo de Nossa Senhora de Saidnaya


No momento em que escrevo esta postagem, a Síria serve de palco de uma sangrenta batalha, que envolve uma complexidade de facções, de base étnica, religiosa e da "grande política". É muito triste o cenário de destruição que aparece na imprensa e comovente o drama dos milhões de refugiados. São chocantes as cenas de barbárie veiculadas na imprensa. Estima-se, até o momento, mais de 250 mil mortos e um sem número de feridos, com condições precárias de atendimento médico. 

No ano de 1974, fui "passar o dia" na Síria. Fui para lá de carro conduzido por meu tio que mora no Líbano, ele gostava muito de ir a Damasco, cidade onde fez seu curso de medicina. Damasco ficava à beira de um rio e a presença da água trazia uma conotação de oásis. 

O contraste com o Líbano era muito grande: foi pela primeira vez que me senti no Oriente, ouvindo os sons dos minaretes, e uma certa discrição do povo trabalhador, não sei até que ponto reflexo de um regime mais autocrático do presidente Assad, o pai. Percebi o quanto o Líbano era uma gostosa bagunça. 

Guardo bem na memória esse dia encantador, meio mágico, conduzido por meu tio, de nome Rachid Haddad que conhecia as ruas e becos dessa cidade antiga, com muita história: tinha comerciantes amigos e encheu o carro de frutas para levar para casa. Chegamos no suk, na hora do almoço e o silêncio das lojas fechadas indicava que o pessoal estava na vizinha grande mesquita  (dos Omíadas). 

Fomos visitá-la, deixando o sapato na porta; eram tantos que duvidava que alguém seria capaz de achar o próprio quando saísse. Meus pais sempre contavam que a mesquita houvera sido uma igreja bizantina, e que dentro estava o túmulo de São João Batista, e vi que era verdade -- nem tudo o que o pai diz é invenção. Quando saímos, a reza havia terminado, e era totalmente outro o ambiente que se via, muita gente, uma gritaria de vendedores. 

Fomos almoçar num restaurante muito elegante, e uma comida mais elegante ainda. No caminho passamos por uma construção pequena mas muito bonita e bem mantida: o mausoléu do sultão Saladino, e me lembro dos guardas que devem ter sido selecionados pelo portento do bigode. 

Meu tio era de religião grega ortodoxa e fez questão de esticar até Saydnaya, vilarejo muito bonito numa região mais árida, para que eu conhecesse o mosteiro, local de peregrinação, onde ele tinha batizado seus filhos. 

Inesquecíveis os artesanatos, doces e os sorvetes da Síria!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

XV





Muitas datas nacionais tem sido apropriadas para servirem como nome de ruas ou avenidas, ou para nome de associações ou clubes de futebol: sete de setembro, treze de maio, quinze de novembro. No caso desta última, que corresponde à data da proclamação da república no Brasil, muito provavelmente por sua fonalidade, o povo prefere dizer apenas "quinze", que é uma palavra dotada de uma "força e luz" própria, deixando implícito o mês, 

(Para nossa republicanização, por sua relativa pacificidade  -- não tivemos enforcamentos e tampouco tomada de alguma bastilha -- é muito ter dia e mês).

É por exemplo o caso paradigmático do time de futebol, da cidade de Piracicaba, "Quinze de novembro", referido sempre como XV de Piracicaba. No impagável hino do time -- que é acima apresentado na sua versão heavy metal -- se aclama o "quinze", como grita a torcida, ao invés do "quinze de novembro".

O mesmo se dá com a famosa Praça XV, no centro da cidade do Rio de Janeiro...

Para os numerólogos e afins: quinze é o produto de dois primos entre si. 





quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Derrapada patriótica




Fazia meu curso de Master of City Planning em Berkeley, quando aproveitando as pequenas férias escolares de Natal e Ano Novo (que era o de 1974), fiz uma memorável viagem de carro até a cidade do México, indo pela Baixa California, e voltando por Nogales, na fronteira com o estado do Arizona. Fiz a viagem acompanhado de um colega francês, Christian Chemla, estudante de engenharia de transportes. 

Recomendaram que, antes da viagem, preparasse meu Mustang para conseguir tragar a gasolina que serviam no interior do México. As velas (eram 8) foram trocadas. 

Quando estávamos chegando a Guadalajara, o carro começou a falhar. Levei a uma oficina, dessas grandes, e quando fui retirá-lo soube que o que fizeram no carro foi justamente trocar as velas! Falei que aquilo não precisava ser feito pois as  mesmas tinham sido recém trocadas. (Velas em castelhano se diz bujia, que até então era para mim uma macaca).

Destrocaram a vela, e resolveram cobrar a mão de obra!! Seguiu-se um bate-boca, e não me recordo em que termos falei algo a respeito de não levar comigo uma boa imagem do México. Não sei o que um senhor, que por ali estava, entendeu e começou a gritar comigo que se não tivesse satisfeito que voltasse para minha terra. E elevando cada vez mais a voz prosseguiu, dizendo que não admitia que o México fosse insultado. Aquela parte ao lado do globo ocular ficando cada vez mais vermelho, vociferando que deveria mandar me prender. 

Achei melhor ficar quieto e pagar a conta, quando o caixa me informou que -- se entendi bem -- o tal senhor era o chefe da polícia de Guadalajara. Fui me explicar com ele, dizendo sermos amigos, até porque foi naquela cidade, no estádio Jalisco, que o Brasil tinha pavimentada a conquista da copa do mundo de futebol em 1970. Acho que funcionou, pois se despediu de mim dizendo: "Que te vaya bien!"


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Marinheiro de primeira viagem






Enquanto bebê, foram percursos mais curtos e ele ficava dormindo. A primeira viagem (de maior duração) que fizemos de carro com o Francisco foi em 1989; morávamos em Berkeley, California, e fomos para Portland, no vizinho estado do Oregon, onde fui participar do encontro da ACSP - American Colegiate Schools of Planning que lá se realizava. Uma rota de mil quilômetros em cada direção, atravessando verdes parques nacionais onde se explora a produção de madeira. Na volta retornamos pela sierra, o que nos permitiu uma esticada para ver a deslumbrante água azul profundo do Crater Lake. 

Imaginem o que era a cabecinha de um menino de 3 anos querendo entender as horas sentadinho, preso por cinto de segurança, no banco traseiro de um carro em movimento! E sem noção do tempo que faltava... Uma condição comparável ao período sob anestesia geral quando somos submetidos a cirurgias. Para lhe dar um refresco, parávamos de vez em quando numa das muitas lanchonetes de fast-food tipo MacDonalds, ou Burger King, onde a comida vinha acompanhada por algum brinde.

Foi uma viagem de dois dias. Na ida, pousamos num motel numa pequena cidade do Oregon. Após nos acomodarmos, perguntamos à senhora dona do motel onde é que poderíamos jantar com uma criança. Ela deu o nome de um restaurante familiar, do outro lado da estrada, e disse que lá serviam o que toda crianças gosta, que reduziu a: pizza, hambúrguer e batata frita.

O raio é que adultos também gostam muito de pizza, hambúrguer e batata frita; a diferença é que tendem a gostar também de algumas outras coisas que nem sempre as crianças apreciam, como a cerveja, o jiló, o grapefruit, queijo Roquefort ou o pickles de pepino. 






quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Forjando amizades



Ex-alunas: Mônica, Camila e Fabiane 

Em uma postagem anterior (http://semidesocupado.blogspot.com.br/2013/11/resta.html) fiz uma breve reflexão sobre essa coisa de ser professor. Comparei com a atividade de outros profissionais, como engenheiros que podiam exibir as obras em que trabalharam, arquitetos,idem com as obras que projetaram, médicos obstetras, que podem contabilizar quantos bebês ajudaram a vir ao mundo, e assim vai. 

A "produção" do professor é quase sempre imaterial, ou de difícil demonstração: por exemplo, como apontar o que foi a formação e o conhecimento que "passou" para seus alunos? 

Fiquei feliz em ver postado no Facebook o retrato sorridente do re-encontro de três alunas minhas que se conheceram como colegas no curso de MBA em Desenvolvimento Imobiliário, que coordenei, até antes de me aposentar. Pelo sorriso, o leitor pode estimar o quanto foram boas alunas. Aproximar é importante componente do processo educacional. Como bem definiu nosso poetinha:"A vida é a arte do encontro"

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O elevador das nove






Tenho ido ao fitness  para me exercitar no horário das 9 às 10 da manhã. A "academia" fica no quinto andar de um complexo esportivo, que inclui duas piscinas olímpicas aquecidas, uma quadra com arquibancada, alguns salões para aulas em grupo como é o caso do balé infantil, ioga, alongamento etc., um grande salão dividido em quadras poliesportivas, salas de fisioterapia, vestiários, uma lanchonete que vende produtos naturais e energéticos.

O edifício dispõe de dois elevadores compartilhado por diferentes tribos e biotipos que usam aquelas facilidades. Cada elevador pode levar até 32 pessoas. Aquele que eu costumo pegar concentra as pessoas que começam suas atividades esportivas no prédio às nove, e que inclui uma moçada muito alta, que quase bate a cabeça no teto, que são do time de volei; no outro extremo de altura as pequenas com uniforme de balé, que é rosa, e uma touca prendendo o birote; muitas avós.

A maioria dos homens é constituída por "personal treiners", outros vestidos de terno e gravata, já estão seguindo para o trabalho. Usando uniforme de ginástica são geralmente aposentados ou semi (como é meu caso), que podem ir um pouco mais tarde. Fica no ar um cheiro misto de desodorantes.

Nesta semana, enquanto ia indo, cruzei com Marília e Guto, um casal vizinho esportista que já estava de retorno do seu treino matinal e ia para o trabalho. "Você está com a vida feita, hein", brincaram comigo, dado o adiantado da hora.