quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Memória de um país dilacerado


Mausoleu de Saladino - Damasco 




Mosteiro grego-ortodoxo de Nossa Senhora de Saidnaya


No momento em que escrevo esta postagem, a Síria serve de palco de uma sangrenta batalha, que envolve uma complexidade de facções, de base étnica, religiosa e da "grande política". É muito triste o cenário de destruição que aparece na imprensa e comovente o drama dos milhões de refugiados. São chocantes as cenas de barbárie veiculadas na imprensa. Estima-se, até o momento, mais de 250 mil mortos e um sem número de feridos, com condições precárias de atendimento médico. 

No ano de 1974, fui "passar o dia" na Síria. Fui para lá de carro conduzido por meu tio que mora no Líbano, ele gostava muito de ir a Damasco, cidade onde fez seu curso de medicina. Damasco ficava à beira de um rio e a presença da água trazia uma conotação de oásis. 

O contraste com o Líbano era muito grande: foi pela primeira vez que me senti no Oriente, ouvindo os sons dos minaretes, e uma certa discrição do povo trabalhador, não sei até que ponto reflexo de um regime mais autocrático do presidente Assad, o pai. Percebi o quanto o Líbano era uma gostosa bagunça. 

Guardo bem na memória esse dia encantador, meio mágico, conduzido por meu tio, de nome Rachid Haddad que conhecia as ruas e becos dessa cidade antiga, com muita história: tinha comerciantes amigos e encheu o carro de frutas para levar para casa. Chegamos no suk, na hora do almoço e o silêncio das lojas fechadas indicava que o pessoal estava na vizinha grande mesquita  (dos Omíadas). 

Fomos visitá-la, deixando o sapato na porta; eram tantos que duvidava que alguém seria capaz de achar o próprio quando saísse. Meus pais sempre contavam que a mesquita houvera sido uma igreja bizantina, e que dentro estava o túmulo de São João Batista, e vi que era verdade -- nem tudo o que o pai diz é invenção. Quando saímos, a reza havia terminado, e era totalmente outro o ambiente que se via, muita gente, uma gritaria de vendedores. 

Fomos almoçar num restaurante muito elegante, e uma comida mais elegante ainda. No caminho passamos por uma construção pequena mas muito bonita e bem mantida: o mausoléu do sultão Saladino, e me lembro dos guardas que devem ter sido selecionados pelo portento do bigode. 

Meu tio era de religião grega ortodoxa e fez questão de esticar até Saydnaya, vilarejo muito bonito numa região mais árida, para que eu conhecesse o mosteiro, local de peregrinação, onde ele tinha batizado seus filhos. 

Inesquecíveis os artesanatos, doces e os sorvetes da Síria!

Um comentário:

  1. Meu primo, ainda que eu não viaje, vejo o mundo por seus olhos. Muito legal. Abraços, Anamaria.

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