quinta-feira, 6 de junho de 2013

Improv

San Francisco nos anos 60 (the sixties) foi a Meca alternativa. Cheguei lá para fazer pós, em 1972, bem no fim da festa, mas deu ainda para pegar os últimos convivas. Psicodelismo, hippies, harekrishnas, lutas marciais, Hell's Angels, Allan Watts, Doobies, Black Panthers, rock and roll, Civil Rights, pornografia, paz e amor. Uma mistureba que produzia um cheiro próprio da liberdade voltada à desproibição. Nada não podia. Logo que cheguei, fiz um curso de Inglês, na Universidade de Stanford, e fiquei amigo de uma das professoras, de nome Elizabeth, com quem até hoje me correspondo. Ela fazia parte de  um grupo de amigos que íamos juntos nos fins de semana para San Francisco, a uma hora de distância. Ela, naturalmente, sendo nortemericana e professora, nos ajudava a não nos perdermos muito nas trilhas urbanas daquele lugar meio amalucado. Do roteiro, nos domingos, fazia parte uma ida à Glide Memorial Church, para o culto mais roqueiro que já vi -- a igreja, metodista, tinha um rabino em residência, que brandia uma bengala que o Ho Chi Min havia lhe dado, bradando contra a política de cortes de programas sociais do Presidente Nixon, -- e o Golden Gate Park, ponto de convergência de todas as tribos -- para um dogão.  Retornei a San Francisco algumas vezes para testemunhar o processo de caretização. Nos anos 2000 -- parafraseando o John Lennon -- o sonho havia definitivamente terminado. A cidade retomou sua direitice, virou um importante centro de design, e de turismo comportado. Yuppified. Che Guevara já era só um poster. Mas Elizabeth conseguiu manter-se fiel ao velho San Francisco. Ensinava inglês para imigrantes, dava aulas de ioga, e se dedicava ao Improv, prática da improvisação. Numa das viagens, ela levou a mim e ao Francisco que me acompanhava então, para assistir um show de improvisação. Era uma competição entre duas equipes, e cada uma delas tinha que cumprir tarefas e que recebiam notas de um juri, como nestes programas de calouros. As tarefas eram dadas na hora, e era tudo muito divertido. No início da sessão, o apresentador pediu que todos levantássemos porque era a hora do hino. Levamos a mão ao peito e tocou uma música dos Monkees, e todo o mundo cantou junto. Naquele teatrinho -- local adaptado do que foi o Presídio de San Francisco -- senti um restinho resistente do cheiro perfumado de liberdade que 30 anos antes pervadia toda a cidade.




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