segunda-feira, 30 de junho de 2014

Radiestesia


Quando ocupei o cargo de Diretor Técnico da Prefeitura da Cidade Universitária de São Paulo, lá trabalhava em programação visual uma arquiteta, que se interessava por pensamentos alternativos, por vezes místicos. Ela fazia um curso de radiestesia, que até então para mim era aquela prática de encontrar água no subsolo usando uma forquilha. Mas a coisa era muito mais ampla, dizia mais respeito a buscar um alinhamento pessoal com o movimento do cosmos. O melhor exemplo que me passou era o fato de não ter problemas em achar vagas em estacionamentos de shopping lotados: sempre passava por uma vaga que estava desocupando...

Nestes dias encontrei um contraparente numa festa de aniversário que fez um comentário interessante, atribuindo ao cosmo uma inteligência própria que se divertia atormentando as pessoas idosas. Segundo ele, não são os idosos que tropeçam nos degraus, mas é a escada que voluntariamente se mexe, não é o idoso que deixa a comida cair no guardanapo, mas a própria comida que decide sair da boca do idoso. Conspiração desse mundo...

sábado, 28 de junho de 2014

Quentão




Me encontrava na Jamaica, e o colega que me recebeu perguntou se eu gostaria de provar o ginger beer (literalmente cerveja de gengibre), um tipo refresco, vendido em caixinhas tipo tetrapark. Tem mais jeito de suco que o ginger ale, uma soda carbonatada vendida em latinha que a gente quase nunca encontra no Brasil. Mas é normalmente servido nos vôos para o exterior. Contei para ele que com o gengibre se fazia o quentão, bebida típica das festas juninas. Se cozinhava o gengibre com açúcar e especiarias, notadamente cravo e canela em pau, numa panela de cachaça, para ser servido quentão. Depois de lhe explicar o que era a cachaça, um destilado da cana de açúcar, meu anfitrião disse: "Deve ser letal". 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Alto Paraiso


Chapada dos Veadeiros -- vale da lua 

O mundo ia acabar na virada do milênio, muitas seitas e pessoas se instalaram na região, semi mística, um pouco a norte de Brasília. Se falava que lá o subsolo continha muita energia, como em nenhuma outra parte do globo. Infelizmente o mundo não acabou, o local se transformou numa semitapera. Quando visitei, em 2005, os comerciantes do local lamentavam que o mundo não tivesse acabado, porque caso contrário os negócios teriam continuado muito ativos. 


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Pizza


Estive hospitalizado na Tailândia, e ficava assistindo televisão no quarto. Tinha um canal que transmitia desde um dos emirados, onde todos os dias passava um programa destes de culinária. A "chefa" deveria ser uma emira, pela supermoderna cozinha que tinha à sua disposição no programa. Sempre tinha convidados cuja função era a de assistir de boca calada a chefa produzindo suas receitas. Que era dada em árabe. O prato que ela perpetrou num dos programas era...pizza, imaginem!  Do outro lado do mundo, onde me encontrava, deveria ser uma coisa exótica.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Estatísticas



Uma coisa que chama atenção nas reportagens e transmissão do futebol é o crescente número de estatísticas que são levantadas, graças à tecnologia digital. Na televisão é preciso, por enquanto, duas telas em que se comparam os números de um e de outro time. Nesta copa do mundo, na página de internet da FIFA, pode-se obter um monte de valores, tais como, numa determinada peleja -- e no total--  quantos chutes a gol um determinado time fez de dentro da área e que foram fora, quantos foram de fora da área na direção do gol, ou quantos passes curtos, médios e de longa distância foram dados; qual a porcentagem de desarmes, defesas e bolas afastadas, qual o jogador mais jovem, mais antigo, e quem participou de mais jogos da copa; qual o tempo de bola em jogo, qual figura mais nas redes sociais, e o quanto o jogador percorreu. E daí para frente. Fico um pouco embaralhado; uma que me foi mais estranha é a chamada número de assistências, que na minha época significava ambulância. Faltou a sirene. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Quem sabe faz a hora



Meu filho estava sendo esperado para dali uns dois meses. Eu voltava da Europa e, no Free Shop, resolvi comprar uma champanhe para abrir e celebrar seu nascimento. Fiquei esperando o momento adequado. Que acabou nunca se materializando. Não ia ser na sala de parto. Tampouco no berçário. No quarto da maternidade, não tinha a hora: eu tinha que que sair para providências, como ir registrar o Francisco no cartório, tratar com o seguro saúde, fazer pagamentos, em plena vigência do Plano Cruzado, quando mais ninguém -- só meu empregador, a USP -- respeitava determinado congelamento de preços, contratar uma babá, etc. Quando chegamos em casa, era preciso acomodar o novo morador, e não aparecia um momento de estourar a champanhe. Acho que a garrafa ainda deve estar por aí, se é que não se perdeu na mudança. Só então entendi como e porque era muito mais lógico distribuir charutos. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

50 tons de cinza



Precisei trocar minha carteira de identidade por uma nova. No posto da Polícia Federal, a atendente me fazia perguntas. Cor da pele? Branca. Cor dos cabelos: brancos. Epa!!!! Até então me julgava grisalho. Ela confirmou: cabelos brancos, e quem sou eu para discutir com uma pessoa que passa o dia fazendo identificação. Teoricamente, pelo trabalho que faz, é a autoridade na determinação da cor dos cabelos.  O grisalho é um compromisso de transição que o preto fez com o branco. Do tipo: vai com calma!  Pelo jeito, meus cabelos ultrapassaram aquele limiar semidifuso, onde o branco passa a dar o tom.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Gopher



Gophers são pequenos roedores que vivem no subsolo, em cavernas e túneis que eles mesmo cavam. Se alimentam de plantas e suas raízes. São malqueridos pelos fazendeiros, pelo estrago que fazem. Soube da existência deste bicho em março passado, quando fui visitar a Lizzy em San Diego, na California. Tive que pegar a Gopher Canyon Road. Do melhor do meu conhecimento do chamado mundo natural, nunca antes tinha ouvido falar dele. Achei tanta feiura que merecia ser sujeito de uma postagem.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Planejamento hebdomadário


Segunda feira logo de manhã cedinho. Coloco todos os remédios na respectiva caixinha para serem tomados durante a semana.São cinco comprimidos e meio de manhã, e outros sete com o outro meio à noite. Assim organizados, posso conferir se remédios da hora foram tomados. A tendência com o envelhecimento, é do número de comprimidos ir crescendo. Por enquanto tem espaço.

sábado, 7 de junho de 2014

O gato


Uma vez passando por Los Angeles, fiquei hospedado na casa de meus amigos Sérgio e Clorinda. À noite, eles tinham um jantar de gala para ir, da comunidade italiana, e eu fiquei em casa com seus três filhos... e o gato. Me coube dormir no sofá da sala. O gato, um gatão, não parava de vir passar o rabo no meu corpo. Não sabendo o que fazer no caso, fui até o quarto do Marcello, o filho mais velho, pedir alguma orientação. Me respondeu com cara de obviedade: "Give love". Que eu desse carinho. Voltei para a sala, peguei o bicho pelo cangote, joguei-o no lavabo e bati a porta. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

junhos


Junho, Leandro Bassano (Bassano del Grappa, 26 de Junho de 1557 — Veneza, 1622)


Chegou o mês de junho, como acontece todo ano. Junho perturba pela sua ambivalência. Os dias vão diminuindo até o solstício de inverno, quando recomeçam a crescer. Mesmo recuperando a duração do tempo de luz solar, é o inverno. No hemisfério sul. Ao contrário do que ocorre no norte, junho marca o fim do semestre letivo, mas não é o fim do ano, que recomeça em agosto. Antes que o povo se disperse nas férias do mês de julho, acumula festas -- festas juninas, tipo caipira. Para o friozinho, quentão. Matador. Santo Antônio, casamenteiro, dia dos namorados, e a cada 4 anos a copa do mundo de futebol, com rojões e mais rojões, cada gol do Brasil. Usando o arredondamento para cima, já posso dizer que fiquei um ano mais velho. Semi bom e semi ruim.

Gilberto Gil sintetiza: 

Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também
Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo



terça-feira, 3 de junho de 2014

El rey abdicou


No ano de 1993, passei um mês em Madrid, num programa de intercâmbio com a Universidade Complutense. Posso assim dizer que fui um semisúdito de Juan Carlos I e da reina Sofia, que é griega. Todas as manhãs, no noticero, tinha obrigatoriamente notícias do casal real. Por onde passavam, a gente ficava aguardando agitando bandeirolas. Iam prá lá e pra cá, fazendo inaugurações, discursando na abertura de eventos, passando o pelotão em revista, no palanque ou no camarote presidencial, acenando. Uma cozinheira, que teve a sorte de servir ao rei no bandejão escolar que ele estava inaugurando, não conteve lágrimas de emoção ao ser entrevistada para o noticero. Enquanto isso o primeiro ministro tratava de governar. Quando voltei ao Brasil, tinha o Itamar Franco, que quase chegou lá, mas senti falta de um rei e de uma rainha de verdade zanzando no pedaço.