sábado, 30 de agosto de 2014

Calhamaços





A crescente capacidade de armazenamento e de recuperação seletiva de informações é incrível. Centros de documentação com prateleiras compridas onde se ombreavam publicações seriadas com dados socioeconômicos, ou as hemerotecas, vão gradualmente desaparecendo, à medida que a gente descobre que está tudo na Web. Desempoeirado, pronto para ser usado.

Dentre todos os alfarrábios que foram desaparecendo um dos que mais sinto falta são as listas telefônicas, em especial suas páginas amarelas. Percebi que as listas pararam de ser distribuídas com o gradual crescimento da telefonia móvel -- nômades, que não têm endereço. Não me lembro de ter visto alguma vez a lista com os telefones celulares das pessoas.

Quando recebia a cada ano, a primeira felicidade era verificar que o nosso nome estava listado corretamente com o endereço e tudo. Prova de vida, registro escrito de que permanecemos no tablado mais um round nesta luta contra a efemeridade.

As listas telefônicas brancas e amarelas foram precursoras no formato impresso do Google. Nos hotéis, ficavam em geral em prateleira na mesinha de cabeceira, que guardavam inevitável Bíblia nas gavetas. Me entretinha tentando encontrar um xará na cidade.

Traziam mapas de ruas, fatos históricos principais atrações turísticas da cidade, telefones de 3 algarismos, da polícia e dos bombeiros, outros telefones úteis como o do táxi ou do centro de zoonose para informar sobre animais perdidos, DDDs e DDIs do mundo todo telefonável, uma ampla lista de produtos e serviços oferecidos por empresas do local, horários de cultos religiosos. Como agir em caso de um terremoto.

Eram muito espessas, e rasgar uma lista grossa era prova de demonstração de força em concurso de calouros pela televisão.







terça-feira, 26 de agosto de 2014

Anjinho da guarda



Em minha última postagem contei que identifiquei no tungstênio o meu anjinho mau.  

É tinhoso mesmo, conforme a Wikipedia: 

"O tungstênio é o único metal da terceira série de transição que se sabe ocorrer em biomoléculas, usadas por algumas espécies de bactérias. É o elemento mais pesado que se sabe ser usado por seres vivos. Porém, o tungstênio interfere com os metabolismos do molibdênio e do cobre, e é algo tóxico para a vida animal".

Colocada na criação a dialética essencial da virtude e do pecado, passamos a vida monitorados por dois elementos, o anjo da guarda, da legião do Bem, e o outro do Mal, que no meu caso é esse desgraçado do tungstênio.

Consultei a tabela periódica, obra-prima de Mendeleiev, na busca de um elemento que tivesse cara e focinho de meu guardião e elegi o Darmstádio.

O nome provisório desse elemento, após sua descoberta foi Ununílio, que não só rima com Emílio mas parece recompor uma unidade. Outro aspecto interessante é ter sido batizado em homenagem à Darmstadt, por ter sido obtido no seu Gesellschaft für Schwerionenforschung.

Darmstadt é uma gracinha de cidade universitária alemã que de certa forma está ligada ao meu renascimento, pois foi minha primeira estada no exterior após ter trocado a válvula aorta. Convidado pelo Prof. Kosta, fui professor vistante do Programa Erasmus Mundus Urbano, da Universidade Técnica.

Além de tudo isso Darmstádio se trata de um elemento instável, que frequenta o mundo travestido de isótopos, o que combina com um tipo de anjo da guarda camarada.

Darmstádio vs. Tungstênio, "meu bem, meu mal"






segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tungstênio



Fui dormir com o estômago semi-cheio. E sonhei com um elemento terrível que estaria querendo me azucrinar o resto da vida: tem o nome de Tungstênio, nome que cabe muito bem para cria fabulosa de algum deste cientistas do mal, tipo doutor Silvana. Deve ser aparentado do Frank-stênio. 

Tão dissimulado é que -- ao contrário do usual -- adota como símbolo químico o W, letra diferente da inicial do seu nome. Por se tratar o "dabliu" de uma letra extinta do abecedário do idioma português, tenho motivo para achar que se trata de um estrangeiro. 

Xô!






sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Parque do Ibirapuera completa 60 anos








Na data de ontem, o Parque do Ibirapuera, projetado pela dupla Niemeyer / Burle Marx, completou 60 anos desde que foi inaugurado, como marca das comemorações do IV Centenário da fundação da cidade de São Paulo.

Eu tinha 6 anos e já frequentava o local que eu chamava de Vira-poeira, não por mero acaso, porque coincidia com a visão que eu fazia do lugar, meio no que era para nós o fim da cidade, com ruas de terra, e tinha poeira para virar. Já havia o laguinho, com um deck, com um bar, e onde podia se alugar um barquinho.

Me lembro que fomos assistir à festa de inauguração. Conversando com mamãe ela disse que se lembrava também porque não se conseguia um táxi, e tivemos que voltar a pé para casa, com ela carregando minha irmã Cristina, de um ano e pouco no colo.

Guardei na memória uma lembrança que tenho daquele dia de inauguração. Me lembro que havia um desfile alegórico em que incluía um bloco de índios vestidos com uma tanga de penas. Pude ver se estava lá sob a tanga o que eu esperava e, grande desilusão, o tal índio tinha uma cueca por baixo.

Foi importante parte do processo de minha descoberta de que há diferença entre realidade e sua representação. Magistralmente registrado no "c'est pas un pipe", do Magritte. Vira-poeira virou poeira.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

As contas de Ocléris




A argila cozida
Se faz de conta

A artesã pinta
... e borda
Passa da conta

Incontáveis
   contas
mas dá conta

Cosendo
conta a conta
colando
   cores

colares

                                                                       Curitiba, 08/06/2011

Ocléris é uma reconhecida artista plástica e ceramista que vive em Curitiba e é prima da Ângela. Em 2011, aproveitando uma ida àquela cidade onde participei de um Seminário, organizado pela American Planning Association, fomos vistar a família e ao ateliê que fica no quintal de sua casa. Naquele ambiente da artesania, recebi a inspiração que deu nessa poesia.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sgroppino



O conceito de fazer um coquetel gelado misturando o suco de limão a uma bebida alcoólica de sabor neutro, ou quase, se apresenta em várias culturas. É o caso, por exemplo, da nossa caipirinha, sua corruptela, a caipiroska, da marguerita no México e -- provavelmente sua forma mais aristocrática -- o sgroppino, que me apresentaram em Veneza. A receita do sgroppino leva três componentes: vodka, prosecco e sorvete de limão. 

Há nuances de sabor: se na caipirinha "clássica", o limão é do tipo galego, no sgroppino se usa o limão siciliano. Aproveita-se a casca para decorar o drinque bem acompanhado de uma folhinha de hortelã, uma presença do Oriente que tanto influenciou a forma e a cultura veneziana. 

"Salute a tutti" 

domingo, 17 de agosto de 2014

Carona



Após participar de uma reunião em Bogotá sobre Avalúos, dei uma esticadinha na viagem para conhecer Cartagena das Índias, e naturalmente comer uma de suas magníficas lagostas. Hospedei-me dentro parte murada de Cartagena das Índias, numa pousada que me recomendaram. Era uma adaptação de uma casa estilo espanhol com um páteo em torno do qual estavam os quartos e a quitinete da dona. Uma colombiana gordona muito extrovertida e que me deu muita atenção e, de presente, um monte de frutas exóticas quando de lá saí. Uma vez lhe perguntei sobre qual praia deveria ir, e ela me respondeu perguntando se eu estava mais interessado em "las tangas" ou em "las olas". 

Cartagena mantem suas ruas e calçadas estreitas, e um povo moreno. Uma Bahia do Jorge Amado, em castelhano.

Ao voltar, peguei um táxi para o aeroporto, e o motorista tinha que passar bem perto da calçada. Teve que se acercar de uma daquelas mocinhas rebolantes. Diminuiu a marcha, e pela janela, perguntou-lhe se ela gostaria de um passeio até o aeroporto. Ela não se molestou com um tal convite, abriu um sorriso, e disse que não poderia naquele momento. 

Uma questão -- daquelas que se costuma dizer "que não quer calar" -- se caso ela aceitasse, deveria eu negociar com o taxista pagar a metade?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Assunção de Maria

A Assunção de Maria



Ticiano, A Assunção de Maria (1516-1518): Santa Maria Gloriosa dei Frari, Veneza


15 de agosto, festa da Assunção de Maria. Um momento bíblico inspirador. Ticiano usa suas cores para criar a elevação. Assunção, ser assumida, lá em cima, tem uma ascensão. Movimento, momento, fé. Sete metros de êxtase.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Datilografia


Se chamavam máquina de escrever, eram bem pesadas, totalmente mecânicas a ponto de que podíamos ter uma letra mais "forte" que a outra, dependendo da intensidade da teclada. Uma destas, de cor preta, marca Remington se tornara para mim grande atração da fábrica de camisas que tinham meu pai e meu tio.

Com o progresso, elas foram ficando mais leves e portáteis. Quando apareceram as elétricas, traziam novos recursos, as letras saiam mais uniformes, permitiam apagar e reescrever pequenos trechos. Aumentou a velocidade.

Existia uma profissão, a datilógrafa, em geral mocinhas, sob comando da secretária, as primeiras espécies já extintas, e a última em fase de crescente extinção principalmente com a utilização de recursos da eletrônica. O normal era alimentar as datilógrafas com manuscritos semicodificados. 

Proliferavam nas áreas comerciais escolas de datilografia, onde se era treinado a escrever sem precisar olhar no teclado. Aprendi -- mais ou menos -- a datilografar usando um livro de prática que me foi emprestado pelo Cristiano Kok, companheiro de jornalismo estudantil. Eram usados todos os dedos das mãos, cabendo ao polegar uma tecla comprida para espaço vazio. Hoje vemos o contrário, a moçada “texta” usando só os polegares. Exemplo de superação que nos dá o dedão?

Hoje, teclados virtuais, quando necessários, aparecem na telinha de computadores ou dos chamados telefones “smart”. São usados editores de texto, muitos dos quais, como piloto automático, assumem o comando da redação, autocorrigindo e, até, antecipando por contra própria o final de uma palavra. 

Vamos ao causu. Estávamos no Alasca, para participar do I Encontro da International Real Estate Society, realizado em 2001. Alugamos um carro para conhecer a região que era muito bonita e cheia de floresta de pinheiros. Na época descobri que as bibliotecas públicas ofereciam acesso gratuito à Internet, e paramos numa delas, semiescondida na floresta. Enquanto usava o computador, a bibliotecária saiu de trás do balcão me admoestando porque o ruído de minhas tecladas estava incomodando todo o mundo. 


sábado, 9 de agosto de 2014

Um pouco sobre meu pai


Uma foto rara de meu pai, feita em estúdio muito provavelmente em Damasco , pouco antes de ele migrar para o Brasil (cerca de 1930) e que meu primo Pedro Nosralla Júnior acabou "descobrindo".


Amanhã, segundo domingo de agosto, é dia dos pais. Dele pouco escrevi neste blogue e talvez a efeméride dê azo a que eu venha "preencher esta lacuna". Papai se chamava Said, que no idioma árabe, significa feliz. Dele herdei, a calvice, o sobrenome Haddad, e o sentimentalismo que se cristaliza na alma do imigrante que deixou atrás de si a família, para tentar a vida em país distante. Teve vida relativamente curta, morreu aos 54 anos, mas seus últimos anos de vida -- dos quais me recordo melhor -- foram de uma saúde debilitada em consequência de um infarto que tivera 5 anos antes, quando eu tinha 11 anos.

Mas o que chama atenção neste caso é o grande avanço da medicina que tem beneficiado as novas gerações de quantidade e qualidade de vida. Hoje já cheguei aos 66 anos, graças ao acompanhamento médico competente que incluíram duas cirurgias no coração, e que não eram disponíveis na época. Também fiz micro-cirurgias uma em cada ouvido que me restabeleceram uma capacidade auditiva, que tampouco lhe era disponível na época, e eu percebia como era difícil para ele conviver com a própria surdez.

Arrolar todas as operações que fiz, daria uma lista de supermercado. Mais importante de tudo, nenhuma dor ou sofrimento acompanharam tais intervenções cirúrgicas.

Papai está sepultado no cemitério do Araçá, em São Paulo, onde está me aguardando.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

No automático


Viagem para conhecer as Rochosas canadenses. Que ao vê-las pela primeira vez, da janela do carro alugado, o Francisco, ainda menino, nos perguntou: "Vamos subir este morrão?"

Voo noturno de São Paulo a Toronto, onde baldeamos para outro de Toronto até Calgary. Estava escurecendo, um breve lanche e despenquei na cama no quarto do hotel. Acordei semissonambulando para ir ao banheiro, passei pela porta e, de repente, a banheira subiu do seu lugar e me vi deitado dentro dela, começando a ficar molhado. Quando a ficha caiu, descobri que não estava em casa... onde a bacia sanitária ficava do outro lado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Casado com Angela há 33 anos






Quando abri minha página do Facebook no dia 1 de agosto, a primeira coisa que aparecia era uma mensagem do próprio FB, referente ao nosso aniversário de casamento com um conjunto de fotos nossas que estavam armazenadas. Tinha um quadradinho para compartilhar. A Ângela propôs ao invés daquelas fotos que puséssemos uma do nosso casamento, a exemplo do que outros tinham feito. Tirei uma foto de uma das fotos do nosso álbum, e postei. Ficamos muito empolgados com o volume de comentários amigos e de “curtidas”, só estas chegando a uma grosa.  O fotógrafo que contratamos, de nome Fausto, era meio artista, meio jornalista. Falou mais ou menos assim: vocês tratem de casar que eu trato de fotografar: praticamente saía tudo da cabeça dele. Foram raras as poses e muitas as lamentações de que pessoas muito queridas não foram registradas. Passados uns meses uns amigos nos contaram que viram algumas de nossas fotos numa exposição de imagens de casamento que o fotógrafo houvera feito. Ele tinha como premissa que casamentos com noiva de véu branco logo logo não iriam existir mais, e que portanto ele estava empenhado em documentar como eram as coisas no século XX.