quinta-feira, 30 de abril de 2015

Leitura de uma foto





















Nos museus, encontro guias que ficam "explicando" quadros e outras obras de arte para um grupo. Sempre que dá me aproximo para ouvir o que dizem, e confesso que fico surpreendido com a quantidade de detalhes importantes que um quadro pode apresentar do ponto de vista de sua estética e conteúdo, que escapam a um semileigo. Particularmente no caso das figurativas, como foi, por exemplo, o caso da Santa Ceia. Passei mais de meio século de minha vida vendo reproduções da Santa Ceia em tudo quanto é parede de sala de jantar do Brasil. Não fosse a oportunidade de uma visita guiada que fizemos àquele impressionante afresco, nunca iria imaginar tratar-se da representação do um momento dramático em que repercute a fala de Jesus dizendo que seria traído por um dos apóstolos ali presentes.

Pois bem, percebo que algumas fotos soem trazer algum elemento de perturbação ou estranheza que faz coçar aquela senso de busca dos motivos subjacentes. Foi o caso da foto acima, que tirei no palácio de Beiteddine, no Líbano, onde aparecem a Ângela, e nosso filho Francisco, A foto agradou a ponto de me encorajar a uma breve leitura, como se fosse um ilustrado guia de museu.

Aparecem na foto antíteses, algumas mais evidente: mãe/filho; homem/mulher... uma das pessoas (que não se sabe fotografada) tem o rosto escondido, enquanto a outra (a que sabe e participa com olhar cúmplice) justamente só mostra o rosto. Olha para a câmara, com um jeito de quem diz algo, que poderia bem ser: "serve essa minha cara, no lugar daquela que está aí escondida?"

A porta aberta -- meio que simbolizando a liberdade -- serve de moldura, ainda mais que aparecem de perfil principalmente a da direita. No parapeito de madeira uma formação arabescóide se intercala, quebrando a sequência das coluninhas,

Fora, um páteo cumpre o seu papel de transição entre o edificado e o bosque ao fundo. Ambos os rostos preenchem espaço vazio no horizonte, um de cada lado do cedro, e os três compõem um formato triangular equilibrado.






terça-feira, 28 de abril de 2015

Tia Nabiha

Tia Nabiha (de pé, no centro). e duas filhas: Sálua, ao seu lado, Hind sentada no centro. Almoço de Páscoa de 2015, no seu apartamento em Ashrafieh, Beirute.


Meu pai Said teve dois irmãos (Jamil e Rachid) e duas irmãs (Hassibe e Nassibe), todos falecidos. Os Haddads não são longevos. Daquela geração, só minha mãe, com 93 anos, e tia Nabiha, esposa do tio Rachid, com 87 anos, parentes por casamento, sobrevivem com lucidez, memória e arguta percepção dos fatos. Duas "ladies", se parecem um bocado. Uma fala delicada da tia não esconde um humor às vezes crítico, do tipo: fulana se casou com um homem 18 anos mais velho. Ele era rico...

Dos cinco irmãos, quatro migraram para o Brasil. Permaneceu no Libano, meu tio Rachid, que era médico no vilarejo de Hasbaya, e minha tia Nabiha, onde tiveram 4 filhos: Salua, Hind, Maha (que se foi atingida por uma bala, durante a estúpida guerra civil que durante 18 anos dilacerou o país) e Bassem, que hoje é ilustre Professor na escola de medicina da Georgetown University, em Washington. Ilustre foi também um dos 3 irmãos de tia Nabiha, Assad Kotaite, que estudou na Sorbonne, e que chegou a ser o Secretário Geral da Organização da Aviação Civil Internacional, órgão da Nações Unidas, com sede em Montreal.

Estive com tia Nabiha em 3 oportunidades: em 1966, quando vieram visitar a família no Brasil; em 1974, e agora em abril de 2015, quando visitei o Líbano, passados 41 anos. O reencontro com a tia foi uma ocasião única e muito especial para a costura de partes distantes de um mesmo tecido familiar.

Da viagem que fez ao Brasil, guardava na memória a coxinha de galinha, e a expressão "bom de bico". Da minha primeira visita ao Líbano, me lembro dela em Hasbaya, mostrando encantada uma revista com o belo vestido de noiva usado pela filha do presidente do Egito Anuar Sadat. Durante as refeições, os homens à mesa e ela atenta numa cadeira colocada atrás da soleira da porta da cozinha, aguardando o momento para servir.

Em 2007, estive em Washington para apesentar um trabalho no Urban Research Symposium, na sede do Banco Mundial, e aproveitei para visitar meu primo Bassem, que anualmente vai passar as festas natalinas com tia Nabiha. Abriu um vidro de coalhada seca em bolotinhas, conservado em azeite de oliva preparado pela tia.

Nesta última visita, pedi para que ela fizesse a "leitura" das figuras que se formam com a borra do café no fundo da xícara. Percebi pela reação do grupo que quem fazia bem isso era a mãe dela. Ante a minha insistência, ela não se fez de rogada olhou semi-bem para o fundo da xícara onde apareciam figuras paralelas que formadas pelo escorrimento do café pela gravidade, como se fossem colunas, e disse você vai visitar Baalbeck -- conhecida pelas ruínas, onde se salientam colunas de um templo romano. Boa de bico. Acertou!


sexta-feira, 24 de abril de 2015

No táxi até o aeroporto de Paris, Charles de Gaulle



Manhãzinha meio fria em Paris; às sete da manhã pegamos um táxi no começo da av. des Gobelins, porque nossos anfitriões, François e Michelle, moravam numa rua muito estreita e cheia de pequeno comércio (rue Moufettard), e a esta hora só podem entrar os veículos que trazem os frutos do mar e da terra para o abastecimento local. 

O taxista era um senhor negro, vestido de terno, que guiava numa velocidade constante e tranquila, mas ficava meio inclinado no banco, parecendo ser conduzido por alguma mão superior, Tinha o rádio ligado. Em geral gosto de tagarelar com taxistas, uma forma de praticar o idioma, mas este motorista era silente, um pouco misterioso. 

Quando chegamos ao terminal fez questão de buscar um carrinho e colocar as nossas malas sobre elas. Depois de ter sido pago, junto com o troco ele nos desejou boa viagem ao mesmo tempo em que nos deu um CD em inglês, com o título "Final Events of Bible Prophecy". Estou tentando abrir mas pelo jeito ele foi feito para ser usado num Mac.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O camelo de Baalbek




No ano de 1974, estive visitando o Líbano, ocasião em que tio Rachid me levou com seu Peugeot 403 para fazer um passeio até Damasco com uma esticadinha até Saidnaya, onde fica um mosteiro, muito querido para os ortodoxos da região. No caminho, passamos por Baalbek, para visitar suas impressionantes ruínas que incluíam templos da época dos romanos (onde foi que estes romanos não estiveram?). 

Chegamos em Baalbek cedo, antes da chegada dos ônibus de turistas que partiam de Beirute, e o local estava bem vazio. Quando íamos saindo de lá, os ônibus começavam a chegar. Acordaram um camelo que estava dormindo no meio das ruínas, para ser usado tirando fotografia com os turistas. A propósito, foi o único camelo que vi naquela ocasião, e há a possibilidade de ser o único em todo o país. 

Ontem, passados 41 anos, voltei à Baalbek, desta vez com minha mulher Ângela e o Francisco, meu filho. Fomos com um motorista. Ao chegar na entrada do sítio histórico -- declarado patrimônio da humanidade -- vimos um camelo que estava sentado no local de desembarque dos ônibus de turista. Trocamos um olhar.

sábado, 11 de abril de 2015

Cabeleira






Em 1974, estive na cidade de Hasbaya, no sul do Líbano, visitando meu tio Dr. Rachid. Sua cunhada, Laila e seu marido, gentilmente me convidaram para comer miúdos de frango feito no braseiro, um prato especial para visitas não menos especiais. O casal tinha duas filhinhas.

A oportunidade da viagem tinha surgido quando eu fazia meu mestrado em Stanford e fui escolhido para participar de um programa para pós graduados nas Nações Unidas. em Genebra -- que foi sujeito de uma postagem anterior neste blogue, sob título "proletários do mundo, uni-vos!". Como dispunha de uns dias livres entre o fim da atividade em Genebra e o início das aulas, encaixei ali uma viagem para o Líbano. 

Hoje à tarde, passados 41 anos, retornei à Hasbaya, bem careca. Encontrei a Laila, e uma das menininhas, que hoje é mãe de dois filhos, uma menina engenheira mecânica formada na American University of Beirut. Ela se lembrou de minha visita e do fato de que sua irmã me confundiu com um boneco cabeludo com que ela brincava: o Jack. 

O fato é que fora para o Líbano tendo passado nos Estados Unidos mais de um ano sem ir ao barbeiro. Por uma razão acho que justificável. E, para os que me conhecem, não só para fazer economia Eu não confiava nos barbeiros do local. No Brasil, os barbeiros eram experientes, tinham mãos de barbeiro, e entendo que trabalhavam porque tinham a mister e a maestria. Em Palo Alto eram mocinhos, provavelmente estudantes de qualquer coisa como por exemplo astrofísica, que faziam um bico para ajudar a pagar seus estudos. 

Além disso ainda se sentiam os eflúvios do Hair, e da entrada na era de aquarius, de forma que não ficava lá muito diferente do resto da fauna californiana. Que não havia subido a montanha libanesa.








quinta-feira, 9 de abril de 2015

Dois casamentos, nenhum funeral


dabke



Beirute, Na primeira noite, com a Ângela e o Fancisco, sai para procurar um lugar para jantar e caímos num lugar muito animado, no fundo de um prédio da rua principal da Hamra, um bairro típico do centro da cidade. Comecei a suplementar meu conhecimento desde nascença da culinária levantina, e pedimos um fati de grão de bico, temperado com cobertura de sementes de romã e castanhas. Uma sonzera, ao som de mp4, e na mesa ao lado, um grupo começou a festejar. Perguntei à garçonete o que era aquilo, e ela confirmou ser um casamento.

Nesta segunda noite, acabamos de repetir o ritual, no restaurante de um hotel retrofitado, o Monroe. Desta vez, comemos quibe cru feito com carne de carneiro e uma maravilhosa coalhada seca feita com leite de cabra (dizem que é equiparável àquela feita com leite de camela, comum nos Emirados), acompanhava folhas verdes de zátar. Era um salão mais sofisticado onde na pista de dança todo o mundo se requebrava levado pela música contagiante tocada no órgão eletrônico por um tipo avantajado que também cantava. E como na noite anterior, um u-u-u tom soprano. Era outro casamento.

O da primeira noite eram jovens. O de hoje era de um mais velhão com uma nova vestido longo vermelho. Muito interessante neste último a convivialidade na dança de muçulmanas de véu e vestido longo lado a lado com moças de minisaia, O que diz quase tudo sobre o Líbano, onde novas famílias se forjam.

sábado, 4 de abril de 2015

Voltando à vaca fria


- Cow Parade, decoração de artistas de Porto Alegre -


Quando se retoma uma conversa ou discussão que acabou tergiversando ou perdendo o foco, é costumeiro se dizer: "voltando à vaca fria". E o assunto retomado tem nada a ver com a frigidez de alguma vaca, E no entanto é uma destas expressões populares que nos seduz, quem sabe por seu non-sense lógico. Afinal, sagrada para um quarto da humanidade, nada mais contagiante que uma vaca (exceção feita ao elefante). Ainda mais uma vaca fria.

Estou aqui com certa literalidade "voltando à vaca fria", ou melhor à vaca gelada que foi sujeita da postagem anterior à anterior neste blogue, sob título de vaca preta. Pensei em complementar aquele texto opinando sobre a melhor e a pior. A melhor vaca preta que me lembro combinava Coca-cola com sorvete de castanha do pará, que me fiz numa festa de casamento no Acre. E a pior quando utilizei Pepsi Cola, no lugar da soberana Coca-cola

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Beijing em 1996





Em 1996, a economia de mercado na China atingia a adolescência, esta fase de transição da infância para adulto. Com direito à semi-insegurança que dá a descoberta da individualidade e das espinhas no rosto. 

Fomos participar de uma conferência patrocinada pelo Research Committee on Housing and Built Environment RC43, da International Sociological Association, em Beijing. Na verdade, o Convention Bureau de Pequim, tinha preparado um "kit conferência" que servia de plataforma para captar reuniões internacionais, o que se tornara possível com o descerrar da cortina de bambu. O lauto jantar de abertura e de encerramento foi feito num salão preparado para estes eventos, que tinha aqueles chafarizes iluminados dançantes ao som de uma música de cada país. Ouvimos a mesma fita nas duas noites. Gostei muito da comida. 

Ficamos hospedados numa parte da cidade construída para a realização dos Jogos Pan Asiáticos, e a paisagem vista da janela de nosso quarto dava a impressão que estávamos em Orlando. Com a diferença de fuso horário e duas noites passadas em avião, acabava acordando muito cedo e ia andar num parque em frente ao hotel e cruzava com velhinhos vestidos com aquele uniforme da era Mao, praticando tai chi chuan para acolher o amanhecer, Com uma impressionante elasticidade e equilíbrio.

O que estava por trás da realização daquele encontro era a nova motivação que embriagava os chineses libertos das amarras da vida em comunas:ganhar dinheiro. O encontro era trilingue (inglês, francês e chinês). Na apresentação de meu trabalho, eu falava em inglês, um chinezão repetia em chinês, que servia de base para uma chinezinha dizer em francês. Intercalavam um idioma que não era indoeuropeu, e a coisa parecia quela brincadeira de telefone sem fio. a primeira vez que ouvi o que chegou em francês de minha fala, procurei corrigir. Depois tive que mandar às favas a preocupação com a pureza do idioma e apelar para que algum espírito iluminasse a platéia, que como soe ser na China, era bem grande. 

A conferência foi repleta de causus interessantes. Por exemplo, engasguei com os pedacinhos que ficavam na latinha de um refresco de ninho de andorinha, e tive que cuspir no chão. Levei uma incrível carraspana de um chinês que me fez enterrar aquilo. 

Foi tudo muito bagunçado. Porém, na sessão de encerramento, que incluiu a apresentação de ópera de Pequim (uma delas, para turistas), o presidente da Academia Chinesa de Planejamento Urbano, (que editava uma excelente revista em inglês sobre planejamento urbano, que nunca produzimos igual no Brasil) encerrou os trabalhos declarando que o encontro tinha sido "vitolious", o que me deixou muito feliz. No final, Ganhamos!!!!