Uma coisa que chamava atenção na construção de edifícios em Bombaim (ora Mumbai) era o colorido dos saris, em movimento no meio daquele buchicho que é uma obra civil . O professor que nos guiava informou que as mulheres tinham presença definida nas obras por serem muito mais capazes do que os homens de transportar os tijolos em pilha equilibrando na cabeça, até o ponto de assentamento, como por exemplo na construção da alvenaria. Disse também que contratavam a família (marido e mulher, e filhos) para trabalharem juntos.
No Brasil, salvo nos mutirões, as tarefas da construção civil são geralmente coisa prá homem. A afinidade imediata com as pedreiras indianas é com as nossas lavadeiras que carregam na cabeça uma bacia de roupa ida e volta até o "córgo". Ou da lata dágua na cabeça, como lá vai Maria.
Não se restringia às mulheres transportar coisas na cabeça, porém. Na minha infância, adorava acompanhar mamãe na feira da rua. Aquela profusão de frutas e legumes, os divertidos anúncios gritados pelos donos de barraquinhas: "Laranja da chácara do Pelé", "Olha o coração apaixonado" "Pente cinco barbatana dois", perpetrando assim a algaravia. Na esquina ficavam uns moços muito fortes, que poderiam ser contratados para acompanhar as senhoras carregando as compras numa enorme cesta, que equilibravam na cabeça. Cada vez que alguma coisa era comprada, eles levavam ao chão a cesta para colocar a nova compra de forma equilibrada. E depois acompanhavam a compradora até a casa. O carregador preferido de minha mãe era o Ziza, um negro muito forte que poderia ter sido modelo de alguma gravura do Debret.
Com o progresso, veio a universalização do abastecimento doméstico de água, e o automóvel; pouco a pouco esse equilibrismo na cabeça vai desaparecendo.