quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fone de ouvido





O que houve?

Vê a gente
mas
não nos ouve


O que ouve
Deve haver

Mas a gente
não há de ver

terça-feira, 29 de julho de 2014

Palavrão



No ambiente no qual fui crescido, palavrão era coisa muito feia. Se aceitava apenas em alguns lugares em circunstâncias especiais: estádios de futebol, peças de teatro para maiores, literatura do tipo realista. Utilizado como forma extrema de xingamento uma pessoa, atribuindo-lhe e à sua mãe desvios sexuais. Falar palavrão era falta de educação, uma transgressão social.

No curso ginasial, tínhamos aulas de inglês com o Padre Geraldo, um canadense. Ele adotava um livro didático que ao lado da gramática continha trechos de obras de autores importantes. Numa certa aula, iríamos ler um trecho das "Vinhas da Ira", do Steinbeck. Padre Geraldo, no seu exórdio, nos preveniu de que o autor descrevia cenas de gente rude, e que muitas vezes, falavam palavrões, e é claro a classe ficou mais esperta.

A cada aluno cumpria ler um trecho, que era então traduzido. Num dado trecho, Padre Geraldo disse: Essa expressão é o pior palavrão do idioma em inglês.Toda a classe ficou silente, fazendo sua aposta mental, puxando da memória sua lista particular de obscenidades. O recatado Padre Geraldo teria coragem de traduzir aquilo em bom português?

"Goddamn", ele nos ensinou, quer dizer "que Deus seja maldito"



domingo, 27 de julho de 2014

Bodas de crizo




Na semana que ora se inicia, mas exatamente no dia primeiro de agosto, Angela e eu completaremos 33 anos de casados. Na tabelinha que achei -- e duplo chequei -- através do google, vamos comemorar bodas de crizo, palavra que acabei de aprender. Fui pesquisar de que se trata este crizo, e não achei, nem no Houaiss, que ganhei uma vez como presente de Natal. Como era de se esperar, outros irmãos blogueiros já passaram por este momento e tiveram a mesma dúvida. Leiam por exemplo a postagem de Arnaldo Onça ou Zeca Barroso. Depois de levantarem diferentes hipóteses algumas apelando para o grego antigo, que não se sustentaram, parece haver consenso que esse tal de crizo não existe mesmo. O problema a ser resolvido é de um presente de aniversário de casamento alternativo a uma caixa de crizos, ou seja, vazia.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Indianas na construção civil


Uma coisa que chamava atenção na construção de edifícios em Bombaim (ora Mumbai) era o colorido dos saris, em movimento no meio daquele buchicho que é uma obra civil . O professor que nos guiava informou que as mulheres tinham presença definida nas obras por serem muito mais capazes do que os homens de transportar os tijolos em pilha equilibrando na cabeça, até o ponto de assentamento, como por exemplo na construção da alvenaria.  Disse também que contratavam a família (marido e mulher, e filhos) para trabalharem juntos. 

No Brasil, salvo nos mutirões, as tarefas da construção civil são geralmente coisa prá homem. A afinidade imediata com as pedreiras indianas é com as nossas lavadeiras que carregam na cabeça uma bacia de roupa ida e volta até o "córgo". Ou da lata dágua na cabeça, como lá vai Maria. 

Não se restringia às mulheres transportar coisas na cabeça, porém. Na minha infância, adorava acompanhar mamãe na feira da rua. Aquela profusão de frutas e legumes, os divertidos anúncios gritados pelos donos de barraquinhas: "Laranja da chácara do Pelé", "Olha o coração apaixonado" "Pente cinco barbatana dois", perpetrando assim a algaravia. Na esquina ficavam uns moços muito fortes, que poderiam ser contratados para acompanhar as senhoras carregando as compras numa enorme cesta, que equilibravam na cabeça. Cada vez que alguma coisa era comprada, eles levavam ao chão a cesta  para colocar a nova compra de forma equilibrada. E depois acompanhavam a compradora até a casa. O carregador preferido de minha mãe era o Ziza, um negro muito forte que poderia ter sido modelo de alguma gravura do Debret.

Com o progresso, veio a universalização do abastecimento doméstico de água, e o automóvel; pouco a pouco esse equilibrismo na cabeça vai desaparecendo. 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Bala Bosta

Balaboosta

Balaboosta: n. A Yiddish term meaning the perfect housewife, homemaker, wonderful mother, cook & gracious hostess. She does it all and she does it well!


Tem algumas coisas que ficam na memória, e que a gente guarda mas nunca teve ocasião ou instrumentos para entender. Uma coisa me chamou atenção, na primeira vez que fui a Berkeley de carro. Foi em 1972. Para se chegar ao campus, a gente saía da free-way e entrava numa avenida de nome óbvio: University Avenue; se via logo à esquerda um restaurante de nome Bala Bosta, nome que imediatamente associei à inventividade de algum brasileiro gaiato. Nunca frequentei aquele lugar, até porque não achava o nome muito, digamos, convidativo. 

Hoje me lembrei daquele nome e resolvi pesquisar na Internete. Acabei descobrindo que se trata de nome comum a outros restaurantes, e o elegante letreiro art nouveau na figura acima é o da casa em Nova Iorque. Note-se um segundo O, que torna o nome um pouco mais palatável. 

Traduzindo, balaboosta é um termo iídiche que significa a esposa perfeita, dona de casa, mãe maravilhosa, "graciosa" cozinheira e anfitriã. Ela faz tudo isso e faz bem!

Fico pensando o que devo ter perdido por não ter ido comer lá.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Apolo 11-- ou a vida passada diante da televisão


Completam-se hoje 45 anos da primeira descida de um homem na lua. Uma fabulosa conquista que no meu caso coincidiu com aquele despertar pessoal pelas conquistas da ciência. Acompanhávamos pelo noticiário o andamento e a consecução vitoriosa deste projeto.

Mas vamos ao causu. Há cinco lustros atrás, em 1989, nesta data eu me encontrava sozinho na casa que alugamos do ilustre Prof. Manuel Castells que estava passando um ano na Espanha, dando uma forcinha ao governo socialista do Felipe Gonzales. Eu tinha ido na frente para arrumar as coisas, e aguardava a chegada da Ângela com o Francisco, que tinha então 2 anos. 

Ficava explorando as novidades daquele lugar onde eu vivera 3 anos na década de 70, e uma das que mais me fascinavam eram aqueles canais de televisão tipo Shoptour. Um dos produtos à venda naquela tarde era uma medalha comemorativa dos 20 anos da descida na lua. O locutor tentava transferir para aquele badulaque o valor do feito, enquanto ficava abaixando o preço inicial pedido. Falava ao vivo pelo telefone com todo o país. Foi então que numa destas ligações perguntou à teleouvinte, que vivia numa cidade do meio-oeste: "E você, se lembra onde você estava naquele momento em que o homem descia no solo lunar?" Ela respondeu: "aqui neste mesmo lugar em frente à TV".

  




sexta-feira, 18 de julho de 2014

Quase sempre chego atrasado




Enquanto destino um pouco do tempo de semidesocupado na produção deste blogue, leio uma matéria que saiu no jornal inglês "The Guardian" com o título: "Devemos chorar a morte dos blogs pessoais?" Já eram... Sou um ser em permanente semi-anacronismo. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Resiliência

Arbusto de Buxinho

Existem termos e expressões que ficam na moda. Em todos os ramos do conhecimento. Um que está na moda atualmente em matérias ligadas ao urbanismo é resiliência. Para a física é a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido tensão. Para a psicologia, a capacidade de uma pessoa voltar ao normal depois de ter sofrido um trauma. 

Fui convidado para participar de uma mesa redonda que trata de cidades resilientes, e estou no momento preparando minha apresentação sobre o tema. Me lembrei das plantas que se recompõem após terem sido podadas. Como as unhas e o cabelo. 

Me fez lembrar um causu. Quando aluno em Berkeley, todo o sábado à tarde ia jogar futebol com o pessoal da International House. Acabado o jogo, íamos tomar cerveja. Um dia, no retorno para o dormitório, estávamos quicando a bola pela rua, quando ela atravessou o jardim de uma casa e entrou dentro de um buxinho. Enquanto enfiava a mão para recuperar a pelota, fui eu mesmo agarrado pelas pernas por dois parceiros -- um deles um inglês semibêbado -- que vieram por trás e me "enterraram" dentro da planta. Claro que ela ficou com uma marca. 

Meu caminho de todos os dias, passava por aquele buxinho e via a marca que deixei. Mesmo involuntário, me sentia um pouco protagonista da história do mundo. 

Quis o destino que quinze anos depois eu voltasse para lá, desta vez em vez de aluno como professor convidado. No primeiro dia fui checar a marca que eu houvera deixado e ela não existia mais. O buxinho era resiliente.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Atracando em Mar del Plata


Costa Allegra

Quando o navio atraca em um porto pela primeira vez, é tradição ser recebido com pompa. Um cruzeiro maritmo que fizemos para a Argentina, com o navio Costa Allegra, incluiu em seu roteiro uma parada em Mar del Plata, onde ia pela primeira vez. Eu tinha o hábito de me levantar cedo, horário em que o navio chegava nos pontos de parada, pois as travessias se faziam à noite. Muito bonita a vista das cidades desde o mar, uma perspectiva inusitada. Mar del Plata fica numa bem conformada baia. 

No caso de Mar del Plata a manobra para "estacionar" foi muito complicada. No convés, eu via o comandante do barco agitado e telefonando. Conversando com ele, depois, reclamou em italiano sempre gesticulando que o "prático" argentino deveria estar dormindo na hora da chegada, e que o navio estava sendo muito mal conduzido, e que teve medo que a quilha trombasse com a marina de pedra na entrada do porto. "Sou responsável por um artefato de 500 milhões de dólares!" 

Mas conseguimos aportar, no momento em que a banda perfilada no cais atacou bem alto, para emoção dos argentinos, "La cumparsita". Por um tapete vermelho,  o prefeito da cidade se aproximou das escadas e subiu no navio trazendo de presente quadro com uma pintura da cidade para ser colocada na parede da cabine de comando. Retrata o cenário de um drama que o comandante vai carregar em sua lembrança.

domingo, 13 de julho de 2014

Baile dos bombeiros de Paris



Em 2009, tivemos a oportunidade de passar o 14 de julho em Paris. Nossos amigos parisienses aproveitaram o feriado para viajar. O Alain, que foi meu colega de dormitório em Berkeley, nos deixou a chave de apê deles na subida para Monmartre, de cuja janela dava para ver bem pequenino ao cair da noite os fogos no Campo de Marte, que culminavam um show de paraquedistas que despencavam lá de muito alto seguidos do som do Johnny Hallyday. (audível na televisão). 

A missa na Notre Dame, onde o organista "mandou muito", tinha os bancos dianteiros reservado para os bombeiros.  Por algum motivo esse grupo semifardado tem no catorze juillet um dia especial de glória. Naquela noite os "pompiers" promovem bailes dentro das casernas, ocasião em que as moças francesas são convidadas a adentrar naquele androceu para bailar com estes queridos heróis anônimos que combatem o fogo, e que todo menino um dia quis ser.

Fico pensando -- encanto por homem de farda à parte -- se esta abertura de portas às demoiselles se trata de alegoria feminista que restou da libertária tomada da Bastilha.  

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Glassa


Combina com doces e com salgados, na tavola fredda e na tavola calda, na salada de frutas, e na salada salada mesmo, misturada ao azeite e limão, substitui o chocolate, até na maçã, ou moranguinho de amor, veste (dress) terra, ar e mar, ou seja carne ave e crustáceos, combina com queijo especialmente a ricota. Pela sua competência em harmonizar sabores contrários e contraditórios, meu candidato ao Prêmio Nobel da Paz.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Engoliu



Eu tinha ido participar de uma conferência da American Collegiate Schools of Planning que teve lugar em Pasadena, na região de Los Angeles. Fui fazer uma ligação nestes telefones públicos operados com moedinhas. Teve um problema na ligação e a máquina já tinha engolido as moedas. Diante disto apertei o botão "O", que chama a telefonista ("operator") e expliquei o caso. Ela disse que não tinha como fazer aquelas moedas cairem de volta mas que eu informasse o número de meu telefone que ela faria o crédito em minha conta. Disse a ela que não morava nos Estados Unidos, e ela pediu meu endereço no Brasil. Logo após meu retorno ao Brasil chegou em casa uma carta com um cheque nominal no valor de U$ 1,50 (um dólar e 50 centavos)! A taxa cobrada pelos bancos para fechar o câmbio para depósito em minha conta corrente oscilava em torno de 60 dólares. 

Passei várias vezes por situações assemelhadas no Brasil, em que o cartão telefônico consumia créditos a troco de nada, ou simplesmente era engolido. Por mais que procurasse nas instruções pregadas no telefone, nunca consegui achar a quem reclamar. 


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ask Anna





A imagem que atribuo às pessoas muito ricas, é que elas dispõem do trabalho de outros para cuidarem de seus afazeres ou negócios pessoais. Há uma variedade destes: mordomos, valet de chambre, chefe de gabinete, capangas, secretários, motoristas. Possuem o seu dentista, podólogo, agente de viagem, despachantes, etc. 

Minha amiga Lizzy me acompanhou nas compras lá na California. Fui ver uma teleobjetiva para minha máquina fotográfica, e fiquei em dúvida se o preço estava bom. Ela pegou o celular e ligou para sua filha Anna, que trabalha diante de um computador, e pediu-lhe que descobrisse o valor pedido pela concorrência. Três minutos depois veio a resposta, que ela obteve googlando. 

Assim, vislumbramos um tipo novo de colaborador, o google-searcher, (vale um neologismo: o guglador). Precisa de alguma informação rapidinho? Peça ajuda à Anna. 

PS - A tele estava mais barata no Freeshop de Guarulhos...



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Aniversário do amigo



Estávamos num bar, na cidade de Piura, norte do Peru, quando um fulano que eu nunca houvera visto mais gordo, mandou distribuir uma caneca de cerveja para cada um presente. Em seguida, anunciou. "Hoje é o aniversário do meu amigo", indicando o amigo. "Vamos todos fazer um brinde à sua saúde". Ficamos de pé e levantamos a caneca, num coro de parabéns. E continuou: "Agora vamos fazer uma fila, para cada um cumprimentar o meu amigo".