domingo, 29 de março de 2015

Vaca preta





Me lembro quando a Coca Cola aportou no Brasil. Foi nos anos 50, e eu fazia o curso primário no Colégio Dante Alighieri e durante uns dias um caminhão parava na saída para distribuir garrafinhas com aquela novidade, De graça. Me lembro de ter gostado daquele sabor diferente. 

E desde então nosso país foi se cocacolizando. Um marco deste processo, a vaca preta, mistura de Coca-cola com sorvete de creme, popular entre os jovens nas décadas de 50 e de 60, mas hoje completamente "demodée". 

A ocasião, "a que faz o ladrão", surge em festas ou jantares em que se serve sorvete de creme -- ou assemelhados, como o sorvete de flocos -- quando faço minha vaca preta, cujo sabor é identificado com uma gostosa, no seu "stricto sensu", recordação daqueles anos dourados, que ficaram eternizados na canção de Tom e Chico Buarque. Em geral, é para matar de vez todo escrúpulo por ter transgredido aqui e ali a dieta, que cometemos durante a refeição.

Às vezes ocorre ter que misturar aquela coisa superindustrializada, com sorvete caseiro. Mesmo no sistema capitalista, algumas convivências são possíveis. 


quinta-feira, 26 de março de 2015

Gênero



Não tinha mesmo outro horário para fazer hidroginástica no clube. Acabei marcando para o meio do período da manhã, em que os "normais" deveriam estar no trabalho. Resultou uma classe só de mulheres sessentonas, que deixavam os netos no parquinho. E eu.

Não tinha muito assunto de interesse comum para dialogar com minhas colegas de piscina aquecida. A professora, jovem, cuidava do fundo musical e sempre se dirigia ao alunato no feminino plural. Mesmo dada minha condição de professor universitário, que me obriga o convívio com a moçada, me dando alguma experiência de comunicação com gente de outra faixa, eu ficava a maior parte do tempo ouvindo. O som da água se mexendo, se somava aos comandos da professora que usava microfone, que tinham que ser suplantados pela conversa da mulherada. Uma algaravia. 

Eu era o estranho dentro daquele gineceu. Mas uma das alunas me contou que em turmas anteriores havia um outro aluno homem, e que ele conseguia um bom diálogo com as colegas. Também, pudera! Era médico ginecologista.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Colateral



Os colaterais são entes intrometidos, em geral de menor estatura, uma companhia inevitável. Estão sempre do nosso lado, às vezes invisíveis, outras vezes aparecendo. Sem a exposição dos pontos colaterais (NO,NE,SO,SE) a "Rosa dos ventos", reduzida aos quatro pontos cardeais, iria parecer menos rosa e mais uma  daquelas esfihas fechadas vistas de cima.

Cada um de nós tem o seu colateral, quem sabe tendo assumido o "alter ego". Parece ser ele
aquele "boa gente" a quem nos dirigimos quando se "está falando com seus próprios botões", em especial nas digressões da hora do banho.

Além disso, os colaterais representam papel importantíssimo para a saúde física e financeira. Dão nome aos caminhos alternativos aos vasos sanguíneos entupidos. Por outro lado, com a anglicização do nosso vocabulário e política econômica, é o colateral que se veste de uma roupagem monetária, para participar como exigências de empréstimos ou investimentos. Pelo menos por isso, é bom cada um cuidar de tratar bem do seu colateral. Como mascote.










terça-feira, 24 de março de 2015

sábado, 21 de março de 2015

Estações do ano


Primavera, Sandro Boticelli (ca, 1482)


Tem muitas coisas que a gente aprende na escola e que só vai poder vivenciar um dia. As quatro estações do ano, nos trópicos viram duas: a chuvosa e o estio. Experimentei mesmo a primavera e o outono, quando estudei nos Estados Unidos. Minha primeira primavera coincidiu com o término do Winter Quarter, que me lembra dias curtos, frios e diante das impossibilidades, muito estudo. 

Tínhamos uma semana de  descanso, no mês de março, para curtir a chegada da estação das flores, que antevia o verão. A claridade do céu azul da California propiciava um estado febril que era geral -- conhecido por "Spring fever". Um descontrolado desabrochar de sentimentos floridos de liberdade e de beleza. Inspiração para artistas como Boticelli e Vivaldi. 

O outono por sua vez deixava sua marca no colorido das folhas mortas, que iam caindo no chão. É deslumbrante a chamada foliage na Nova Inglaterra. 

Desde pequeno ouço dizer que em São Paulo temos as quatro estações num mesmo dia. Não é pois desprovido de um certo fundamento cósmico este semipermanente convívio de bons e maus humores, a que estamos acostumados.





quinta-feira, 19 de março de 2015

Siri


Siri

Na década de 50, costumávamos ir e voltar das férias em Santos, onde nos hospedávamos na "Pensão Beira Mar -- familiar", usando um serviço de transporte por peruas que foi a precursora do que é conhecido hoje por vans. O que caracterizava a perua do Expresso Luxo era seu espaçoso portamala onde os motoristas após tentarem vários jeitos chegavam a armazenar quase toda nossa bagagem incluindo os apetrechos de praia,

Santos ficava (ainda fica) numa ilha e o canal que a separava do continente era um manguezal onde o pessoal pegava siris para vender na beira da estrada. Eram amarrados e vendido em fiadas. Um detalhe: vivos. E bem sujos de lama cinzenta. Como não tinha outro lugar, em geral eram embrulhados e colocados no piso do banco traseiro onde eu e meus irmãos vinhamos sentados. 

Subíamos a serra pela via Anchieta enquanto eu me semidivertia vendo aquilo se mexendo. 

Ao chegar em casa, depois de devidamente bem lavados, mamãe colocava o cortejo ainda vivo dentro de uma panela de pressão, para cozinhá-los. Eles que eram arroxeados saiam da panela bem vermelhos. Deveria ser de raiva, pois é a cor dos irados desenhados pelos cartunistas. 

Depois comíamos sua carne quebrando o bichinho em partes, o que tinha algo de semilúdico. Mas me incomodava um pouco fazer aquilo com companheiros de viagem

segunda-feira, 16 de março de 2015

Prestígio


Fiz meu curso ginasial (hoje 5a. a 8a. séries) num colégio masculino dirigido por padres canadenses. Na sua estruturação, não escaparam de alguns de seus viéses etnocêntricos. O Canadá, país rico, não contava com mão de obra mal remunerada, e muito dos serviços tinham que ser desempenhados pelos alunos mesmo. Um deles era operar o barzinho que abria nos momentos de recreio. Cada semana um grupo de cinco alunos trabalhava no atendimento aos colegas, e no fim do período tinha que fazer um balanço do estoque para novos pedidos.

Quem coordenava esta atividade era o Pe. Cláudio, palmeirense por ter sido vigário em bairro italiano; era encantado pelo Brasil tropical, contraponto aos dias frigidíssimos do Québec onde nasceu, cresceu e se ordenou sacerdote. Era literalmente tarado pelo bombom prestígio, com seu recheio sabor coco. Na semana que me coube compor o grupo que servia na bombonière, pude vê-lo chegar e já ir pegando uns três ou quatro Prestígios, para seu ávido consumo próprio, em geral desfrutando o primeiro deles imediatamente. Pe. Cláudio também nos dava aula das santas matemáticas, enchendo a gente de exercícios. Era muito querido. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

PSG vs. Chelsea

Champions 2015: Transmissão ao vivo PSG x Chelsea (canais de TV).


Em alguns aspectos, por não ser capaz de acompanhar bem as mudanças, acabo me vendo anacrônico. Com uma boa dose de lamento. É o caso do futebol, paixão do homem brasileiro. Quando comecei a acompanhá-lo, nos anos 50, os times nasciam nos clubes esportivos. Tinham uma dimensão regional. Dirigidos por cartolas, pouco a pouco se profissionalizavam. Os jogadores em geral eram fiéis à camisa não mudando de time durante a carreira.

Disponho agora de tempo para assistir aos jogos da liga européia, que são transmitidos durante a semana à tarde. Ontem o mundo acompanhou um jogo de entre times que levam nome de bairros ditos nobres de Londres, o Chelsea, e de Paris, o Paris Saint German. O primeiro hoje é uma das propriedades de um trilhardário russo de nome Roman Abramovich, que fez fortuna com a perestroika, e o segundo é uma das propriedades do Emirado do Catar, grande produtor de petróleo.

Nestes anos o futebol e jogadores se tornaram cada vez mais mercadorias, num mercado cada vez mais global, com cada vez mais altíssimos salários e valores de venda, e cada vez mais objeto de desejo do mercado financeiro. Tanto o Chelsea como o PSG têm valores estimados em mais que 1 bilhão de euros, numa longa lista de equipes que não inclui time brasileiro.

A propósito, sete jogadores brasileiros estiveram em campo, e alguns marcaram gols.  São convocados para a seleção brasileira, desclassificada pela esquadra da Alemanha, por sete a um, na copa do mundo do ano passado.  Interessante, com a fuga de talentos, a dinâmica de nossos times é montar suas equipes com jovens promessas que se espera sejam bem vendidos e os mais velhos que já retornaram. (E euzinho que ia ao campo ver o Pelé jogando, ou dirigindo seu carrão na rua, pouco me conformo em ter que ver meus craques só pela telinha). No momento o destino é a Ásia, e fico imaginando um dos nossos neguinhos tendo que combinar jogada em mandarim.

Terminou dois a dois, tendo o PSG se classificado porque fez mais gols no campo do adversário,




segunda-feira, 9 de março de 2015

Manhãs de domingo


 



Na primeira metade da década de 60, enquanto no Brasil se estabelecia o regime militar autocrático, emergia em paralelo (e em parte como antítese) a "Jovem Guarda". Sua alegre celebração aos domingos à tarde e transmitida para todo o território nacional pela televisão era comandada pelo cantor Roberto Carlos, que uma década depois gravou "Jovens tardes de domingo", uma canção a respeito.

A lembrança me veio com a notícia do falecimento da cantora Inezita Barroso, que conduzia um outro programa dominical, desta vez de manhã, chamado "Viola minha Viola", e que trouxe para a grande midia, a música caipira, com sua linguagem e cultura. Transmitida pela televisão pública, na sua missão de difundir aquilo que não interessa ao mercado patrocinador.

Sempre que ia passar o fim de semana em Cerqueira César, visitando seu Antonio, meu sogro, e dona Geleana, minha sogra, (ambos falecidos) depois do café da manhã,  de nossas "jovens manhãs de domingo", à frente da televisão fazia parte assistir a Inezita Barroso. E comecei a me interessar pelo mundo dito "caipira", com seus valores humanos e sentimentos, totalmente incompatíveis com o do "homus economicus" necessário e vitorioso sob o capitalismo. ("Não quer outra vida, pescando no rio...")

Com uma lógica e sobretudo um humor próprio, retratado na sua expressão maior a "moda de viola". Belíssimas composições, cheia de alma, do "soul" do nosso interior. Meu sogro apreciava muito Cornélio Pires, e eu tirava uma lasquinha dos "causus" descritos nos livros da estante.

Inezita fazia questão de distinguir a música caipira, de base na sonoridade da viola instrumento de 10 cordas, sendo 5 pares, da música sertaneja, movimento musical mais recente, com forte penetração na mídia, e letras de qualidade duvidosa, vulgares, mesmo. Dizia, que o sertão ficava no nordeste.

Reparem na "Moda da Pinga", com seu substrato de contravenção, na maneira diferente e própria de pronunciar. (Para ter acesso ao vídeo é preciso clicar no link a seguir

https://www.youtube.com/watch?v=HeMEMkgnbng

Moda da Pinga

Inezita Barroso

Co'a marvada pinga é que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dô meu taio
Pego no copo e dali num saio
Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio
Só pra carregá é queu dô trabaio, oi lá!
Venho da cidade, já venho cantando
Trago um garrafão que venho chupando
Venho pros caminho, venho trupicando
Chifrando os barranco, venho cambeteando
E no lugar que eu caio já fico roncando, oi lá!
O marido me disse, ele me falô
Largue de bebê, peço pro favor
Prosa de home nunca dei valor
Bebo com o sor quente pra esfriá o calô
Se bebo de noite é pra fazer suadô, oi lá!
Cada vez que eu caio, caio deferente
Meaço pra trás e caio pra frente
Caio devagar, caio de repente
Vou de currupio, vou deretamente
Mas sendo de pinga eu caio contente, oi lá!
Pego o garrafão é já balanceio
Que é pra mode vê se tá mesmo cheio
Num bebo de vez por que acho feio
No primeiro gorpe chego inté no meio
No segundo trago é que eu desvazeio, oi lá!
Eu bebo da pinga porque gosto dela
Eu bebo da branca, bebo da amarela
Bebo no copo, bebo na tigela
Bebo temperada com cravo e canela
Seja quarqué tempo vai pinga na goela, oi lá!
Eu fui numa festa no rio Tietê
Eu lá fui chegando no amanhecê
Já me deram pinga pra mim bebê
Já me deram pinga pra mim bebê, tava sem fervê, oi lá!
Eu bebi demais e fiquei mamada
Eu caí no chão e fiquei deitada
Aí eu fui pra casa de braço dado
Ai de braço dado é com dois sordado
Ai, muito obrigado!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Tigela




A tigela daquelas bojudas são o recipiente ideal para comidas que são finalizadas com a mistura, como no caso das saladas e do espaguete. A forma simétrica tem um quê de democrática, todos os participantes espalhados igualitariamente, a gravidade levando os molhos para o fundo. É o "prato" típico na culinária tradicional do dia a dia no extremo oriente como a japonesa, onde serve o arroz grudadinho, ou na chinesa onde se come o macarrão boiando na água. Em ambos os casos aproximando a tigela à boca e usando os dois pauzinhos.

Sempre existiram aquelas tigelinhas individuais para servir em geral sobremesas, como mingaus, o Crème brûlée, as coloridas gelatinas. E não podemos esquecer o prato fundo (um meio caminho entre o prato raso e a tigela) mais para as sopas, no inverno. Sem falar nas cuias, coisa de índio, e que no Peru se usa para se servir a chincha.

Meu eventual leitor deve estar se questionando porque motivo de repente resolvi eleger a tigela para perorar. É que ultimamente cada vez mais participo de recepções sociais em que são servidas pequenas porções individuais de acepipes em tigelinhas, para se comer com garfinho: polentinhas, escondidinhos, etc. Nossa sociedade vive uma retigelação?


quinta-feira, 5 de março de 2015

Achados e perdidos



Como todo ser semidesorganizado vivo perdendo coisas, grande parte das quais aparecem quando a gente não precisa mais delas. Me impressiona muito o quanto "elas estavam aqui agora mesmo"... Coleciono muitos, muitíssimos causus, de coisas perdidas e achadas. Vou ilustrar com um destes, e na falta de assunto conto outros em postagens futuras. 

Esqueci meu caderninho com endereços e telefones numa cabine telefônica na estação de trem de Dublin, e quando me dei conta já estava em Cork. Eu tinha encontrado um americano como colega num curso de verão sobre "Environmental and Social Planning in Britain",que fizemos na Universidade de Manchester, em 1973,  após o qual ambos em férias e com pouco dinheiro -- resolvemos mochilar juntos. Adquirimos um destes bilhetes que permitiam viagens ilimitadas de trem e e ônibus pela república da Irlanda durante 14 dias, Dormíamos em "bed and brekfast" a um libra e meia o pernoite com café da manhã, gordurosos egg and bacon, com café, O resto do dia nos alimentavam a cerveja Guiness e "oxtail soup", Com isso, fomos à costa oeste do pais até Galway,

Meu eventual leitor de hoje em dia tem tudo que precisa guardado na nuvem, pode imaginar a falta que fazia esta cadernetinha. Era o registro de toda minha comunicação com o mundo, eu que estava há um ano fora de casa, 

Quando retornamos a Dublin, pensei em ir no achados e perdidos da cidade, que ficava numa delegacia muito parecida com uma que serve de cenário ao filme "A Hard Day´s Night". Não estava lá, até que veio a ideia de procurá-la no "achados e perdidos" da estação de trem, A esperança, última que morre, definhando. A cadernetinha lá estava guardada, havia três semanas! Normal...

segunda-feira, 2 de março de 2015

Oda a la cebolla







Tinha tirado a foto acima, de uma cebola que eu houvera partido ao meio, mostrando suas formas circulóides, e bonitas linhas cor roxa. A natureza inspirando e hoje casualmente folheando um livro de poesias do Neruda, encontrei um ode que faz justiça à esta criação divina.


Oda a la cebolla (Pablo Neruda)


Cebolla,
luminosa redoma,
pétalo a pétalo
se formó tu hermosura,
escamas de cristal te acrecentaron
y en el secreto de la tierra oscura
se redondeó tu vientre de rocío.
Bajo la tierra
fue el milagro
y cuando apareció
tu torpe tallo verde,
y nacieron
tus hojas como espadas en el huerto,
la tierra acumuló su poderío
mostrando tu desnuda transparencia,
y como en Afrodita el mar remoto
duplicó la magnolia
levantando sus senos,
la tierra
así te hizo,
cebolla,
clara como un planeta,
y destinada
a relucir,
constelación constante,
redonda rosa de agua,
sobre 
la mesa
de las pobres gentes.

Generosa 
deshaces
tu globo de frescura
en la consumación
ferviente de la olla,
y el jirón de cristal
al calor encendido del aceite
se transforma en rizada pluma de oro.

También recordaré cómo fecunda
tu influencia el amor de la ensalada,
y parece que el cielo contribuye
dándole fina forma de granizo
a celebrar tu claridad picada
sobre los hemisferios del tomate.
Pero al alcance
de las manos del pueblo,
regada con aceite,
espolvoreada
con un poco de sal,
matas el hambre
del jornalero en el duro camino.
Estrella de los pobres,
hada madrina
envuelta 
en delicado
papel, sales del suelo,
eterna, intacta, pura
como semilla de astro,
y al cortarte
el cuchillo en la cocina
sube la única lágrima
sin pena.
Nos hiciste llorar sin afligirnos.
Yo cuanto existe celebré, cebolla,
pero para mí eres
más hermosa que un ave
de plumas cegadoras,
eres para mis ojos
globo celeste, copa de platino,
baile inmóvil
de anémona nevada
y vive la fragancia de la tierra
en tu naturaleza cristalina.