quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Visto de saída do país






https://familysearch.org/search/collection/results?count=20&query=%2Bgivenname%3AEmilio~%20%2Bsurname%3AHaddad~&collection_id=2140223


A FamilySearch.org (ligado à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos dias -- mórmons) promove um trabalho coletivo de genealogia pela rede mundial. O saite disponibilizou, entre outras bases de dados, cópias escaneadas das fichas de registros de estrangeiros com residência no estado de São Paulo, que imigraram entre os anos de 1902 e 1980. Estas fichas foram produzidos pela Secretaria de Segurança Pública e se encontram hoje no Arquivo Público do estado de São Paulo. Pesquisei e encontrei a ficha de meu pai Said Haddad, de minha mãe Maria Abboud Haddad, e a minha própria ficha.

No arquivo -- houve mistura de chegadas e saídas -- e acabei achando também a ficha da figura -- que se refere a um requerimento de visto de saída do país, que submeti há 42 anos atrás. Naquele ano de 1973, eu ainda não houvera obtido minha cidadania brasileira, o que em nada prejudicara minha vida num país acolhedor.

Encontrava-me no Brasil para passar o Natal com a família, que não tinha encontrado por um ano e meio. O pedido de visto de saída do país tinha como objetivo permitir meu regresso à Berkeley para concluir meu mestrado em planejamento urbano e viajar pela Europa nas férias.

Vivíamos sob o regime militar, que restringia certas liberdades, como a de sair do país sem pedir licença. No meu caso, o visto era sempre um pouco demorado para ser concedido em virtude de possuir um homônimo que era lider do partido de oposição em Minas Gerais. Nunca cheguei a conhecer o outro Emílio Haddad, que era uma pessoa muito querida.

Com a redemocratização do país o visto de saída foi abolido; as companhias aéreas fornecem a lista de passageiros às autoridades. Cada vez sobravam mais folhas em branco nos meus passaportes.

Há muitos aspectos interessantes neste documento: o que parece mais chamar a atenção é o meu par de óculos sem aro -- à la Trotski -- que era na época quase um distintivo da esquerda intelectual. E  como eu tinha cabelo!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sayadieh






Promovemos um jantarzinho com parentes e alguns amigos por ocasião de meu aniversário natalício. A cada ano escolho um prato que eu mesmo faço questão de preparar (há aí séria controvérsia, em virtude de ajuda que me dão na cozinha “para evitar bagunça”); deve ser saboroso e surpreendente por ser pouco conhecido da grande maioria dos convivas. Por exemplo: numa vez, foi uma sopa creme (“chowder”) com pedaços de salmão e dill servida fria, que conheci no jantar de um congresso de urbanismo que participei em Helsinki; outro ano, um tipo sopa de dióspiros, com canela e vinho do Porto, que conheci num jantar familiar que nos ofereceram na cidade do Porto; ou, ainda, aproveitando um vidrão de creme de castanhas que eu trouxera do Chile, um “Mont Blanc aux marrons”.

Neste ano, cismei em perpetrar um clássico da culinária libanesa, que não tenho comido e tampouco visto por aí, chamado “sayadieh”. Coloquei como um grande desafio, pois iria contar apenas com a memória e um conjunto de receitas e vídeos disponibilizados na Internete.

O sayadieh é basicamente um prato feito com arroz e peixe, acompanhado de cebola e pinholes torrados  e especiarias, que deixam o arroz escuro. Um certo trabalho pois é preciso fazer um caldo onde entra a cabeça do(s) peixe(s) com o qual o arroz é cozido. Fica com uma apresentação bonita. Posso arriscar que seja um precursor da paella, porque o peixe é servido por cima do arroz.

O “meu” sayedieh acabou avaliado bom para muito bom, mas ainda umas 500 milhas daquele que vovó fazia.

Cometi naturalmente erros, típicos da inexperiência. Confesso um deles, para ilustrar. O tamanho do peixe. A receita que eu tinha, para 15 pessoas, falava em 2 kg de peixe. Para o número previsto, eu precisava de 3 quilos. Na peixaria, onde deveria ter chegado bem mais cedo, comprei um peixão de 3 quilos, quando o correto seria comprar dois peixes de 1 quilo e meio, que teriam uma superfície externa maior, ficando mais bem frito, mais gostoso, e dando bem menos trabalho para processar.

Servi com um molho tarator, o que nem sempre é feito, mas que valorizou bem o sabor.

A culinária é um processo de aquisição de segredos irreveláveis – bem lembrando que conhecimento é poder.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Irmão






Dormíamos no mesmo quarto, até quando ele se casou. No começo, eu achava estranho aquela cama vazia, que acabou virando um sofá. Nove anos depois quem casou e mudou fui eu. E hoje o quarto serve de sala de televisão para minha mãe. Um resto de coisas minhas (tipo velhas fotos e material de escola) que ela (agora com menos ímpeto) ameaça jogar tudo pela janela.

Cada um seguiu sua vida, posso dizer que foi paralela em trabalho e honradez; sempre me atribuíram a pecha de ter sido mais folgado. Um entendimento mútuo devido aos fatores naturais (DNA) e adquiridos pela mesma educação. 

Num desses almoços dominicais no apartamento da família, em que mamãe caprichava na culinária árabe, pedi ao meu mano Sérgio para que adivinhasse qual foi o filme que eu tinha assistido no voo de retorno da Europa que acabara de fazer. Ele imediatamente respondeu: "Singing in the rain". Como é que ele tinha adivinhado? Eram mais de 50 películas disponíveis. Ele explicou: porque também ele houvera selecionado este filme clássico para assistir no seu voo de retorno da Europa. 




quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Feliz ano novo



Old Father Time Baby New Year Playing Cards Clock 1920 Happy New Year



Mais na casa de minha avó em Jundiaí, que eu me lembre, nesta época do ano chegavam as chamadas "folhinhas", com uma página para cada mês ilustrada com um alegoria da época. Ela recebia como cortesia de um posto de gasolina, da vizinhança.

O mês de janeiro sempre tinha a figura de um menino representando o ano novo, em postura dialética com a figura de um velho de barba branca comprida, representando o ano velho. O mesmo ocorria na página do mês de dezembro:com uma diferença, no fim do ano, aquele que era o menino passava a ser o velho. Essa explicitação do ciclo da vida me assustava um pouco. 

Não tinha jeito para ser como o Peter Pan, e ficar uma criança esperta, para sempre?


sábado, 12 de dezembro de 2015

Dead week






Nas universidades norteamericanas (e canadenses, por suposição), esta semana que se interpõe entre o término das aulas e o início dos exames finais é a dead week -- uma semana morta, oficialmente (ou semi) dedicada apenas aos estudos e a entrega dos trabalhos finais. Atividades culturais e sociais ficam suspensas. 

Em Stanford, onde estudei, as bibliotecas ficavam abertas as 24 horas do dia, e as salas de estudo cheias de gente comendo e bebendo produtos daquelas vending-machines, enquanto fazia estudar. Consumia-se comprimidos de NoDoz -- pura cafeína.

Excepcionalmente não tinha o "Sunday flick", filme de domingo à noite promovido pelo grêmio ao preço de um dólar, que reunia a moçada para a culminância do fim de semana.

A Dead Week era desses semiradicalidades da sociedade tipo anglosaxã -- comparável à lei seca. Parar tudo para ficar só estudando.

A vida de aposentado acaba se desalinhando destes momentos típicos da vida acadêmica; não tenho mais que viver a morta semana, tampouco avaliar os exames finais. Só restam férias (sem interrupções para provas de recuperação). 



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Aconteceu no Jardim Europa




Cartoon: stop the Zoo Jail! (medium) by Munguia tagged stop,walfare,suffering,animal,cruel,jail,animals,zoo




Pouco antes das nove horas da manhã, sigo pelas calçadas de casa até o fitness. No caminho, um edifício de apartamentos do tipo alto luxo recém terminado, e como soe nestes casos, os proprietários novo ricos fazem obras para adaptar ao seu gosto.

O regulamento do condomínio só permite que obras sejam realizadas a partir das 9 horas, e no momento em que passo há sempre uma grande fila de operários que devem se identificar na portaria para obter acesso. São dois portões de grade, formando um tipo chiqueirinho, onde o grupo fica aguardando para entrar, um de cada vez.

Nesta manhã, eu ia seguindo meu caminho rotineiro; vi em minha frente na calçada uma destas mocinhas atraentes com trajes de verão "desfilando" diante do chiqueirinho lotado. Um alvoroço! Na hora do almoço, comem de marmita

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Bem casados







Dezesseis anos são passados desde que re-encontro Camilinha -- amiga de adolescência -- na fila do banco, vestida em trajes de ginástica, uma faixa prendendo os cabelos, e pusemos a "vida em dia". Me contou de duas novidades no seu "status": ela houvera recém se aposentado e, não menos recentemente, casado.

Passados alguns meses ela me ligou: "Emílio, o Luiz Álvaro, meu marido, e eu pensamos no seguinte: gostamos de reunir os amigos para festejar nosso aniversário e notamos que são praticamente os mesmos. Por isso ao invés de cada um de nós dar uma festa de aniversário, decidimos fazer uma festa só, maior e mais elegante. E para não privilegiar um ou outro, escolhemos a data do nosso casamento. E gentilmente me convidou para a festa, da qual tenho participado todos estes anos.

Os aniversários se fundem na comemoração anual das bodas do casal. Um sentimento de permanência advém de que o local da festa é a casa dos pais da Camilinha, que acabou herdando e mantendo o mobiliário, os quadros e peças decorativas. Alguns ritos de festas de casamento são preservados, como a decoração de flores, a música ao vivo, a valsa, o bolo cortado a quatro mãos, a taça de champanhe sorvida com os braços entrelaçados, o beijo sob aplauso. Camilinha e Luiz Alvaro carregam a imagem bíblica de que com o casamento o casal passa a ser "uma só carne".

Com a prerrogativa de noivinha, a cada aniversário, Camilinha escolhe uma cor como temática,  e solicita aos seus convidados que se trajem com a cor escolhida.

Nas recepções de casamento, é costumeiro encontrar os "bem casados", que ficam em geral empilhados na entrada dos salões -- para a gente pegar na saída e levar nos bolsos para casa. Nas festas na casa da Camilinha e do Luiz Álvaro estes não poderiam deixar de comparecer. Afinal são bem casados!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Passado e presente


minha sala de aula no 4. ano primário (1957). Eu sou o penúltimo na fileira da direita.


em 2015, tinha sido divida em duas e são ocupadas pelo diretor do colégio: