segunda-feira, 9 de março de 2015

Manhãs de domingo


 



Na primeira metade da década de 60, enquanto no Brasil se estabelecia o regime militar autocrático, emergia em paralelo (e em parte como antítese) a "Jovem Guarda". Sua alegre celebração aos domingos à tarde e transmitida para todo o território nacional pela televisão era comandada pelo cantor Roberto Carlos, que uma década depois gravou "Jovens tardes de domingo", uma canção a respeito.

A lembrança me veio com a notícia do falecimento da cantora Inezita Barroso, que conduzia um outro programa dominical, desta vez de manhã, chamado "Viola minha Viola", e que trouxe para a grande midia, a música caipira, com sua linguagem e cultura. Transmitida pela televisão pública, na sua missão de difundir aquilo que não interessa ao mercado patrocinador.

Sempre que ia passar o fim de semana em Cerqueira César, visitando seu Antonio, meu sogro, e dona Geleana, minha sogra, (ambos falecidos) depois do café da manhã,  de nossas "jovens manhãs de domingo", à frente da televisão fazia parte assistir a Inezita Barroso. E comecei a me interessar pelo mundo dito "caipira", com seus valores humanos e sentimentos, totalmente incompatíveis com o do "homus economicus" necessário e vitorioso sob o capitalismo. ("Não quer outra vida, pescando no rio...")

Com uma lógica e sobretudo um humor próprio, retratado na sua expressão maior a "moda de viola". Belíssimas composições, cheia de alma, do "soul" do nosso interior. Meu sogro apreciava muito Cornélio Pires, e eu tirava uma lasquinha dos "causus" descritos nos livros da estante.

Inezita fazia questão de distinguir a música caipira, de base na sonoridade da viola instrumento de 10 cordas, sendo 5 pares, da música sertaneja, movimento musical mais recente, com forte penetração na mídia, e letras de qualidade duvidosa, vulgares, mesmo. Dizia, que o sertão ficava no nordeste.

Reparem na "Moda da Pinga", com seu substrato de contravenção, na maneira diferente e própria de pronunciar. (Para ter acesso ao vídeo é preciso clicar no link a seguir

https://www.youtube.com/watch?v=HeMEMkgnbng

Moda da Pinga

Inezita Barroso

Co'a marvada pinga é que eu me atrapaio
Eu entro na venda e já dô meu taio
Pego no copo e dali num saio
Ali mesmo eu bebo, ali mesmo eu caio
Só pra carregá é queu dô trabaio, oi lá!
Venho da cidade, já venho cantando
Trago um garrafão que venho chupando
Venho pros caminho, venho trupicando
Chifrando os barranco, venho cambeteando
E no lugar que eu caio já fico roncando, oi lá!
O marido me disse, ele me falô
Largue de bebê, peço pro favor
Prosa de home nunca dei valor
Bebo com o sor quente pra esfriá o calô
Se bebo de noite é pra fazer suadô, oi lá!
Cada vez que eu caio, caio deferente
Meaço pra trás e caio pra frente
Caio devagar, caio de repente
Vou de currupio, vou deretamente
Mas sendo de pinga eu caio contente, oi lá!
Pego o garrafão é já balanceio
Que é pra mode vê se tá mesmo cheio
Num bebo de vez por que acho feio
No primeiro gorpe chego inté no meio
No segundo trago é que eu desvazeio, oi lá!
Eu bebo da pinga porque gosto dela
Eu bebo da branca, bebo da amarela
Bebo no copo, bebo na tigela
Bebo temperada com cravo e canela
Seja quarqué tempo vai pinga na goela, oi lá!
Eu fui numa festa no rio Tietê
Eu lá fui chegando no amanhecê
Já me deram pinga pra mim bebê
Já me deram pinga pra mim bebê, tava sem fervê, oi lá!
Eu bebi demais e fiquei mamada
Eu caí no chão e fiquei deitada
Aí eu fui pra casa de braço dado
Ai de braço dado é com dois sordado
Ai, muito obrigado!

2 comentários:

  1. Há décadas eu não ouvia essa obra, quando num pernoite, durante uma cavalgada pelo interior, a dona da pousada tirou a viola do saco e hipnotizou toda a turma de cachaceiros cantando a Moda da pinga.

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    1. É muito bem composta, rica em rimas e bom humor.

      Vamos nessa nos juntar ao coro:

      Pego o garrafão é já balanceio
      Que é pra mode vê se tá mesmo cheio
      Num bebo de vez por que acho feio
      No primeiro gorpe chego inté no meio
      No segundo trago é que eu desvazeio

      Delícia!

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