Faleceu hoje o Paulo Vanzolini.
Uma das coisas que me tocou na vida foi ser indicado como representante do Instituto de Pesquisas Tecnológicas numa comissão da FAPESP que iria decidir sobre uma iniciativa numa área de conhecimento cuja importância crescia, chamada Ecologia. Era o ano de 1975, e a FAPESP de então era uma confraria de amigos cientistas. Paulo Vanzolini era o presidente da referida comissão. Um tipo inesquecível. A instrução que eu tinha recebido do Superintendente do IPT era de propor -- em se tratando de área em que o conhecimento tateava -- que se buscasse inicialmente desenvolver conceitos que pudessem nortear um programa de pesquisa. O Paulo Vanzolini, ansioso para usar a verba em um projeto piloto, veio com essa : O Alberto (Pereira de Castro, superintendente do IPT) prefere ficar engraxando as armas do que ir pra batalha...
Vaí aí a Praça Clóvis, uma de suas composições onde brilham sensibilidade e inteligência
http://www.youtube.com/watch?v=lBkCW2J9u1o
segunda-feira, 29 de abril de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
"O cochilo" do Governador
Sexta-feira, dia 26, hora da siesta, durante uma interessante palestra sobre a norma IVS (International Valuation Standard) 310 - Avaliações para garantias financeiras. Foto de Márcia Ferrari.
Dentre os direitos humanos que são desrespeitados pela sociedade produtivista, que ainda não percebeu a necessidade de economizar energias, está sem dúvida o direito à siesta. Acho que voltarei a insistir nesta bandeira. O episódio me fez lembrar um "causu" divertido. Seguindo aquela tradição norteamericana de abrir uma fala com uma piada para quebrar o gelo, o governador Geraldo Alckmin, autoridade maior na cerimônia de entrega do Prêmio Top Imobiliário, começou contando aquela do cidadão que se aproximou de uma senhora e lhe disse: "Nós já nos conhecemos; aliás, nós até já dormimos juntos". Um tanto surpresa, a mulher perguntou: "Quando foi isso?" Ele respondeu: "Na palestra do Prof. Epaminondas sobre o legado de Gôngora" (por não me lembrar do tema da palestra inventei esse aí) . Seguiram-se gargalhadas ao meu ver desmedidas. A pessoa sentada a meu lado acabou com o mistério: "Ele contou esta mesma piada quando abriu seu discurso do ano passado"
sábado, 27 de abril de 2013
Uma hipótese conspiratória
Em postagens anteriores, respectivamente "Sudoku de domingo" e o "Mistério do Sudoku não solucionado", que podem ser acessados clicando o índice aí do lado, fiz questão de registrar um intrigante fato, destoante de minha rotina pessoal, que foi não ter sido capaz de resolver o Sudoku dominical, publicado no jornal Folha de São Paulo. No domingo seguinte que foi o último, volta ao normal: resolvi na média o do jornal O Estado de São Paulo, o qual na semana passada -- e sem aviso algum aos leitores -- passou por mudanças que "comprimiam" o jornal, a exemplo do que tem ocorrido em veículos similares. Por exemplo, hoje, sábado, o Sudoku de fim de semana que deveria ser do tipo difícil saiu do tipo fácil e bem pequenino. E era fácil mesmo: levei menos que dez minutos, pois solucionei no intervalo de um jogo de futebol que vi pela televisão, com o rabo de olho nos melhores lances e nas garotas dando atenção para bebedores cerveja que patrocina a transmissão. Minha hipótese conspiratória é a de que o jornal o Estado de São Paulo pediu às editorias que pegassem mais leve junto ao leitor, para evitar dificuldades outras que pudessem potencializar antipatias com novo formato editorial. Devemos investigar se houve acordo com o sindicato dos "Sodokuzinheiros", de formas que à redução do grau de dificuldade promovida no Estadão, seria acompanhada por um deliberado aumento da dificuldade dos Sudokus de outros jornais como da Folha de São Paulo. A semidesocupação tende a aguçar a observação, e permite tempo ocioso para especulações.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Declaração anual de Imposto de Renda
A Declaração anual de imposto de renda é uma espécie de
confissão financeira, onde atrás da janelinha do confessionário há uma juba. O preenchimento
da folha de dívidas e ônus reais seria o exame de consciência. E o imposto a
pagar, a penitência. As despesas efetuadas mostram a evolução da saúde da
família e sua educação. Tem muito pano para reflexão sobre a vida. Este escrito
teve sua origem depois da constatação de que neste ano o Francisco já não está mais –
atingiu a idade limite – na relação de meus dependentes. Os liames se rompem
sutilmente, e nossa relação cada vez mais “wireless”. As bênçãos são imateriais,
anyway...
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Mañana, mañana
Na Califórnia, onde passei 6 anos de minha vida, vive uma população de origem latino-americana muito grande, a grande maioria de origem mexicana. Há um enorme choque entre a cultura norte-americana e a mexicana, num conflito dialético que se resolve forjando o chicano, que -- como me disse um mexicano intelectualizado embriagado em La Paz, na Baja California, não é americano, e não é mexicano... Na tentativa de facilitar a interpretação do ethos da população de origem mexicana, os norteamericanos recorrem a estereótipos presentes em expressões populares como: “mi casa, tu casa”, “adiós, amigo”, “hasta la vista, baby”, esta última notabilizada pelo Exterminador do Futuro Arnold Schwarzenegger. Uma destas frases clichê, em especial, meio carregada de preconceito é: mañana, mañana... Há mais do que mera procrastinação nestes dizeres, há uma postura ofensiva ao modo “eficiente” norteamericano. Que, quando diz a um Latino “mañana, mañana”, quer acusa-lo de indolente. Estou achando que “mañana, mañana” tem quase tudo a ver com a prática da “semidesocupadologia”, tema deste blog. Não sei se por isso mesmo estou deixando para concluir minha declaração de imposto de renda para “mañana, mañana”. O prazo só vence às 23h59 do dia 30 de abril.
Enquanto isso, vamos ouvindo “chicano music”: Dr. Loco's Rockin' Jalapeño Band cujo sax leader é PhD em Antropologia. Imaginem que fomos numa festa em Oakland atraídos pelo nome da banda, deixando o Francisco com uma baby-sitter. Valeu!
http://www.youtube.com/watch?v=hP21Obro5oA
Enquanto isso, vamos ouvindo “chicano music”: Dr. Loco's Rockin' Jalapeño Band cujo sax leader é PhD em Antropologia. Imaginem que fomos numa festa em Oakland atraídos pelo nome da banda, deixando o Francisco com uma baby-sitter. Valeu!
http://www.youtube.com/watch?v=hP21Obro5oA
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Maurício Gertsenchtein
Uma das regalias de se fazer um blog é ser o dono da pauta. Eu
estava redigindo a postagem desta noite que tinha como tema a declaração anual de
imposto de renda, uma destas tarefas que não permitem um cidadão brasileiro tranquilo
ultrapassar o estágio de semidesocupado, quando recebi a notícia do falecimento
do meu ex-professor na Escola Politécnica, Maurício Gertsenchtein. De grande
competência na área de Estruturas, era daquele tipo de pessoa doce, em quem
reconhecemos ser um “tipo humano”, muito amigo dos alunos. Fiquei pensando, dois
dias atrás aqui homenageei a Nina Simone, tenho razões de sobra e não menos importantes
para lembrar de alguém que me deu aulas. Ter sido professor tem me permitido
reconhecer a doação pessoal inerente ao magistério. O Imposto de Renda fica
para mañana!
segunda-feira, 22 de abril de 2013
O mistério do Sudoku não solucionado
Minha postagem de uma semana atrás trazia minha estranheza por não ter sido capaz de solucionar o Sudoku "de domingo". Ontem foi "normal", cheguei à solução com o nível de dificuldade esperado. O que posso revelar, no momento, é que o Sudoku não solucionado foi publicado em um jornal diferente daquele cujo Sudoku costumo "fazer". Teria sido isto relevante? Posso revelar também que em seguida ao insucesso, mandei uma mensagem para o jornal para saber se alguém mais tinha se queixado de não ter conseguido resolver aquele Sudoku, e recebi como resposta a seguinte mensagem:
Prezado senhor Emilio,
É um prazer saber de seu interesse por nossas revistas.
Informamos que não tivemos nenhum retorno de leitores da Folha de São Paulo sobre o passatempo citado.
Atenciosamente,
A Recreativa
Vamos juntos atrás do "culpado", o Sudoku ou eu. Matéria para um folhetim de mistério, a ser destrinchado nas postagens de segunda-feira.
domingo, 21 de abril de 2013
Dez anos que Nina nina...
Como "amigo" no Facebook do espírito virtual da Nina Simone, recebi o link abaixo, que relembra que hoje é o décimo aniversário de seu falecimento. Ela foi a maior dentre todas as deusas que pude -- e não pude -- assistir. Foi numa manhã de domingo no Parque do Ibirapuera, que fiquei paralisado, ao descobrir a pianista tribal.
Estou seguro que ouvir este belíssima composição "The time is now" trará mais significado para a semana que se inicia.
http://www.youtube.com/watch?v=SN6ORGuNh68
Vai aí um pedaço da letra:
The time is now, I need you
Hold me close
The time is now, I need you
So don't be cold
The time is now, so don't worry
I'll love you good
The time is now, don't worry baby
I know I should
Don't you know I need you
So hold me close
The time is now, don't hesitate
Don't wait, just love me once more
sábado, 20 de abril de 2013
Café da manhã
Minha vontade de ser cronista se desenvolveu a partir da leitura de muitos outros que me servem de inspiração e inveja. Cada um tem um estilo e uma força própria, mesmo o Millôr Fernandes que assim se apresentava "enfim um escritor sem estilo". Vou falar de um deles, que me fez perceber a universalidade do cotidiano. O autor, um indiano, tinha sua pequenas crônicas publicadas diariamente no jornal que deixavam de manhã em nosso quarto num hotel de Bombaim. A leitura trazia uma pitada de humanidade e humor que acrescia às especiarias e o leite da vaca sagrada no café da manhã. Num dia o tema foi : o que era melhor: barbear-se antes ou depois do banho. No outro dia contou sobre a sua mulher que ouvira dizerem que iria faltar água e fez toda a família acordar às 4 da manhã para tomar banho e em seguida foi lavar a roupa... e o que faltou foi justamente a falta de água no dia seguinte. A partir do prosaico conseguia perorar sobre as dúvidas e o desatinos da vida.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Endereço: canal da Mancha, s/n
Fronteiras... pontos de controle. Depois de um mês em Manchester, na Inglaterra, onde segui um curso sobre “Environmental and Social Planning in Britain”, viajei para Paris. Tinha um bilhete Londres – Paris, que muito antes do eurotunel era feito de ônibus até Ramsgate, onde se pegava o “hovercraft” (um aerobarco que “voava” sobre um colchão de ar) até Calais, e daí novo ônibus até Paris. Quando cheguei no controle de passaporte, em Calais, o moço não me deixou passar: “pá de visá, pá de visá”. Entregou meu passaporte para o comandante do “hover...” me levar de volta. Me dei conta que o visto inglês havia expirado na véspera, e atravessei intranquilo a Mancha tranquila achando que o mesmo ocorreria do lado inglês, e que se iria se iniciar um processo pendular... Já me imaginava morando no hovercraft, o resto dos meus dias. Mas o oficial inglês, verdadeiro gentleman, que todos os dias deveria receber de volta uma grosa de gente como eu, era parceiro. Me disse para pegar um táxi que me levaria até Folkstone, para um pegar o visto, e combinar para que ele me esperasse para trazer de volta. Deu tudo certo e no caminho pude ver o castelo de Sandwich. Foi tudo tão coordenado que, após atravessar o canal da Mancha pela terceira vez (tendo só pagado uma), ainda deu tempo de pegar o ônibus de conexão para Paris. O trecho final não deixou de ter suas emoções porque aquele motorista francês maluco ficava guiando na contramão.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Se meu mustangue falasse II - parte audiovisual
Outono 1972, em Palo Alto. Fotos de fotos. O do macacão não é o filho do Supermário: sou eu mesmo aos 25.
O fonfon foi comprado por 1.100 dólares, e vendido em 1975, por 600 dólares! O modelo -- vermelho -- tornou-se desde então um "clássico" e hoje está anunciado no Brasil por R$ 85.000,00. Um exemplo paradigmático da formação de valor numa economia de mercado, no qual o valor de uso se descola do valor de troca.
e vai lá um fundo musical:
Fazia muito tempo que não ouvia o "Mustangue cor de sangue". Prestei mais atenção na letra que diz que a questão social industrial "não permite que eu ande a pé" nem que eu "seja fiel", para explicar um balanceio com um "corcel cor de mel". Nos Estados Unidos, era meio constrangedor optar pela alternativa ao "corcel cor de mel" , que levava o nome de Ford Pinto.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Se meu Mustang falasse...
Nos jogos olímpicos as provas de equitação são disputadas pelo "conjunto": cavaleiro e cavalo. Pois entre o segundo semestre de 1972 e o primeiro semestre de 1975, fui dono de um Ford Mustang, cor de sangue, ano 68, decapotável, com muitos cavalos. O conjunto, no caso eu e o Mustang (raça de cavalo selvagem), fomos protagonistas de uma série de pequenos "causus", que daria um opúsculo. Muitos deles se deram na viagem que fiz na companhia de Christian, um colega muito divertido que estudava engenharia em Berkeley, desde San Francisco até a cidade do México, durante as férias de natal e ano novo. No caminho cerca de Puerto Vallarta, demos um chega-mais em outro Mustang conversível com três americanas, que acabaram nos oferecendo para ficar no apartamento delas, numa inesquecível noite de ano novo, celebrado com tiros para o ar. Na cidade do México fui parado por um guarda, para perguntar se eu queria vender o carro. Foi guiando o Mustang à brasileira que assustei tanto uma colega, Marie Howland, que vim a rever em 2011, em Washington, que ela começou a me estapear, e além minha mãe, foi a outra mulher que me bateu até hoje. Atolei no Death Valley, fiquei sem gasolina na Bay Bridge, fui parado e multado duas vezes o que me fez receber uma carta do Ronald Reagan, então governador do estado da Califórnia me declarando oficialmente um "unsafe driver". Tinha um rádio em que ouvia lindas músicas do ano como: Daniel, Killing me softly, You are so vain, Very supersticious. Vou me deter em um dos causus. Meu carro de recém formado no Brasil era um fusquinha. E pulei, sem a devida preparação, para um esportivo Mustangue. Os carros tinham muitas diferenças, uma delas era que o fusquinha era refrigerado a ar. Sem ter noção de que o Mustang precisava de água, um dia o carro ferveu em plana freeway. Encostei, e fiz o que me pareceu o óbvio: botar água no radiador quente, com o motor desligado. Provoquei um mini-geiser, e é claro arruinei o radiador. Pedi ajuda para um colega de Stanford, o Edson Fregni, que veio de longe me buscar enquanto o carro era rebocado para uma oficina. Desde então quando me encontra, o Edson costuma perguntar se eu verifiquei o nível da água no radiador. Aquilo reforçou um certo sentimento de culpa por me atrever a guiar o carro dos deuses. Freud explica?
terça-feira, 16 de abril de 2013
Vacinação romântica contra a gripe
O ano: 1972. Eu estudava na Universidade de Stanford, na Califórina, no dia em que ouvi no rádio um destes programas em que ouvintes conversavam pelo telefone pelo com o apresentador questões de relacionamento amoroso, ao vivo. A forma aberta era muito incrível para quem vinha de um país sob regime autoritário em que tudo era censurado. Ia ao ar durante o dia e o apoio comercial não fugia ao tema: vinha de uma fábrica de cama dágua. Num dado depoimento, o ouvinte falava de seu relacionamento com a namorada, e para exemplificar como iam as coisas, disse que foram juntos tomar a vacina antigripe (o que em português tem 7 silabas, em inglês leva duas: flu shot). Me passou pela cabeça um monte de idéias para uma tomada de vacina antigripal com romance. Marta Suplicy acompanhava na época seu então marido que conduzia um seminário sobre o Brasil em Stanford, e não é impossível se suspeitar que aquele programa de rádio pudesse ter de alguma forma inspirado o seu programa sexologista que comandava na televisão brasileira. Como não dispunha de outro, eu só houvia rádio no carro, um Mustangue cor de sangue, conversível, ano 1968, a respeito do qual tenho para relatar um "causinho", que deve ficar para a postagem de amanhã.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Sudoku de domingo
Empaquei. Depois de passar duas horas sem conseguir encontrar número que preenchesse os quadradinhos, resolvi "jogar a toalha". Faz um bom tempo que isso não acontecia... O desafio que tenho me colocado não é mais o de resolver, mas o de fazer o mais rápido possível. Os jornais publicam os Sudokus com crescente dificuldade, durante a semana: fácil na segunda e terça, depois média e finalmente difícil aos sábados e domingos. (Uma vez, na sala VIP do aeroporto de Amsterdam, havia um jornal local em que eram colocadas três desafios, sendo que um deles era classificado de diabólico, tanto o quanto me permitia traduzir meu conhecimento do idioma holandês -- que não devia ser tão mal assim porque eu estava até sudokuzando em holandês...). Para não me entediar, tenho me dedicado ao joguinho apenas aos domingos. Blogs -- na sua multifacetude -- recuperam aquele elemento terapêutico dos "amigos diários", confidente silente dos aventureiros ou das moças apaixonadas.
domingo, 14 de abril de 2013
O outro lado da ficha de aposta
Não havia wi-fi nos hotéis e cassinos em Las Vegas. Fui à Universidade de Nevada / Las Vegas - para ter acesso à Internet. De transporte público. No ponto de ônibus, um gringo sentado tomando cerveja. Perguntei-lhe quanto custava o ônibus, e ele me disse o valor mas que era preciso entrar com o dinheiro contadinho, porque o motorista não dava troco. Me indicou o caixa de um cassino ali perto para trocar o dinheiro... e de quebra fazer uma fezinha. Quando voltei, começamos um papo. Diz ter vindo de um estado do norte onde fazia muito frio, e que se dera bem com o clima de Nevada. Perguntei o que é que ele fazia, e ele me disse ser um jogador profissional (um gambler), mas que não jogava todos os dias, aquele era seu dia de descanso ("day off"), no qual se dedicava à cerveja. Quando o ônibus chegou, ofereci-lhe a vez para entrar, e ele me olhou meio feio: já te falei, que hoje é meu dia de folga e estou sentado neste lugar para beber cerveja, eu adoro beber cerveja... Entrei no ônibus, onde se via a Las Vegas que o turista não percebe: migrantes, mal vestidos, um sem dente, outro obeso... Parte de uma população que rasteja para pegar migalhas que os afluentes fazem rodar das mesas de jogo.
sábado, 13 de abril de 2013
Caipirice
Estou redigindo e postando desde a cidade de Cerqueira César, 300 km a oeste de São Paulo. Casei-me com uma cerqueirense da gema, o que tem me feito visitar a cidade, onde Ângela tem suas origens, família e amigos que me adotaram como tal. Até então, minha única experiência de viver fora do Jardins foi quando estudara em Stanford e Berkeley, ambas na região de San Francisco, na Califórnia. Portanto, devo a Cerqueira César o que vou chamar afetivamente de caipirização, um processo educativo que guarda valores temporais semelhantes ao da vida de aposentado, entre os quais a tranquilidade, o prazer em papear "causus". Esta vivência me permitiu ser protagonista de um causu formidável. Estávamos visitando uma exposição no Shopping Morumbi sobre a vida nos Estados Unidos, e entrei num stand do recém criado "site" de viagens: viajo.com. Eles promoviam um destes concursos de frases. Quem desse a melhor resposta para a pergunta: por que viajar é bom? ganharia duas passagens e uma semana de estadia nos Estados Unidos. E eu ganhei. Fui com a Ângela passar uma semana em Las Vegas, hospedado no Bellagio. Aproveito para deixar meu testemunho e reconhecimento aos patrocinadores pela lisura. Em Las Vegas, ocorreu um outro causu muito gira que vou postar oportunamente. Pelo título desta postagem, vocês já devem ter uma dica sobre a frase vencedora: "Viajar é bom para globalizar minha caipirice".
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Yoguijaca
A condição de semidesocupado faz o tempo perder seu valor utilitário para ganhar valores de não uso. Eliminam-se os prazos de entrega, e o semidesocupado busca formas "criativas" (para usar o termo do Domenico de Masi) para preencher seu tempo. Ontem fui até a estação Marechal Deodoro do Metrô para pegar o bilhete do idoso, que me permite andar de metrô de graça. Flanando na saída da estação, dei de cara com um ambulante vendendo jaca. Inteironas, partidas ou já desbagada em bandeja, do tipo mole, e do tipo duro. Acabei levando um pacote de bago mole. Acabou não sendo bem acolhido em casa -- onde pelo jeito só eu gosto de jaca. Hoje fui acompanhar mamãe nos médicos, e decidi levar comigo aquele pacote, "já que" em casa ele correria risco de ser descartado. Mamãe tinha na geladeira como de hábito aquela maravilhosa coalhada caseira com a qual eu fui crescido. Foi perfeito, jaca, coalhada, o tempo ocioso em conspiração, e foi só destroçar a jaca e misturar na coalhada para perpetrarmos (como diz o Silvio Lancellotti) o que talvez tenha sido o primeiro yoguijaca. Coalhada da mama com sabor de fruta silvestre. Hearthy tasting.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Celebridade -- estilo oriental
Se sentir como uma celebridade é quando um desconhecido lhe aborda pedindo para tirar uma foto junto. Quando estive em Macau participando do Encontro da Asian Real Estate Society, no ano de 2007, nos deram um transporte de
ônibus com um guia para uma breve visita a pontos históricos. Paramos num lugar chamado Praça do Pagode, escrito em bom português, onde fica o templo budista da cidade. Boa parte do
grupo era de estudantes chineses. Um deles, a quem ensinei dar nó em gravata, chegou
perto de mim respeitosamente: “Professor, posso tirar um foto com o senhor?”,
eu disse que sim. Daí ele saiu, e veio outro no lugar com o mesmo propósito. E
depois outro, e depois outro, depois mais quatro. Todos pediram meu cartão com e-mail para
mandar cópia da foto. A deferência se devia à minha condição de Professor, muito respeitado naquela cultura. Acho também que tenho cara de dar mais sorte (para isso vão ao
templo), do que a estátua do Buda, com quem por sinal, acho que estou cada vez
mais parecido. A beatitude sempre está à nossa espera...
terça-feira, 9 de abril de 2013
Aplicando o "Peter Principle"
Em 29 de maio de 2010, postei a mensagem abaixo aos meus colegas do Departamento de Tecnologia da FAU-USP. Percebi que atingira meu nível de incompetência, mas infelizmente não me qualificava o suficiente para um cargo na Reitoria:
Sou mesmo um ente anacrônico.
Sou mesmo um ente anacrônico.
Apesar de me
esforçar em acompanhar a moçada, continuo achando que sala de aula não é sala
de visita. Que as relações entre professor e aluno são essencialmente
assimétricas.
Depois de
ter seguido pacientemente o roteiro para repreensão a um casal que conversava
na sala de aula ignorando minha presença, e sem ter resposta, julguei ser
apropriado pedir para que um deles -- cujo nome estou procurando descobrir --
mudasse de lugar.
Achei que
seria a forma adequada de ação. Por um lado, afastaria a tentação de
continuarem a discutir os assuntos que deveriam ser muito mais importantes ou
urgentes que os da aula. Por outro lado, excluí-lo iria impedir que recebesse
os possíveis ensinamentos que eu trouxera.
Para minha
surpresa, ele me desobedeceu: confesso que não estava devidamente
“aggiornado", para administrar afrontas, a primeira que tive em quase
quarenta anos de magistério. A coisa mais imediata que ocorreu foi acionar a
segurança da escola.
Duas semanas
depois, o Professor Ângelo, que presenciou o fato, e que é muito mais jovem, a
ponto de ter sido meu aluno, me explicou porque mudar de lugar era forma de
humilhação a um aluno: tratava-se de medida que se aplica a crianças da escola
primária. (Sou mesmo obsoleto, hoje se chama escola fundamental). Foi o que
acabei depreendendo de sua análise fundamentada em princípios talvez
freudianos.
Velho
ranzinza tem mais é que ir curtir o passado com os amigos, como presenciei
naquelas quadras de pétanque, que fazem a alegria dos aposentados em Marselha!
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Testando "Adicionar um link"
Estava explorando os ícones de edição que aparece numa barra horizontal superior do "Blogger", e encontrei um símbolo que indica "adicionar um link". Peço a paciência de algum eventual leitor para testar tal recurso com um vídeo que traz uma música que fazia sucesso em minha infância, e que lembra este momento. Vamos ver juntos o que vai dar
http://www.youtube.com/watch?v=jrV_yW9jyIk
http://www.youtube.com/watch?v=jrV_yW9jyIk
domingo, 7 de abril de 2013
A arte de embromar (Ars embromatoria)
Semi-estreante em blogadas, segui o conselho de quem quisesse fazer uma crônica deveria ler crônicas. Na coluna: Prosa de Sábado,(Caderno Sabático do Estadão de ontem), Sérgio Augusto se refere ao que batizou de "ars embromatoria", uma técnica em que, desconhecedor do assunto de uma prova ou exame, o aluno "preenche o vazio com com algo que demonstre esforço e inteligência", enquanto "testa a sensibilidade do professor que, se de fato sensível e sensato, só não irá recompensá-lo se a algum disparate somar-se um aluvião de erros de ortografia e concordância verbal". Me fez logo lembrar de um "causu"... O ano era 1968, o das passeatas e militância contra o regime autoritário, e a gente até que ia na aula quando dava tempo entre uma panfletagem e uma assembléia estudantil. Resultado: não tendo passado no escrito, fui para o exame oral em Mecânica dos Solos, poucos dias depois da promulgação do AI 5.Tive então que exercitar o melhor de minha "ars embromatoria" ao ser questionado por um dos examinadores sobre cisalhamento pelo Prof. Carlos de Souza Pinto, um daqueles professores sensíveis e sensatos a que se referiu o Sérgio Augusto, e passei de ano. Muitos anos depois, calculo que tenham sido uns 25, um colega meu de trabalho, Celso dos Santos, foi participar de um congresso de mecânica dos solos na Rússia, ocasião em que encontrou o Prof. Carlos Pinto. Ele contou que eu e ele trabalhávamos no mesmo departamento, e que teve que ouvir o seguinte comentário: "O Emílio era um aluno muito inteligente; tive que aprová-lo sem que ele soubesse a matéria".
Assinar:
Comentários (Atom)