Escrevi esta blogada em outubro de 2007,

Diário da colônia
Ontem saí caminhando de meu hotel na “Zona Rosa” da cidade do México na direção de seu centro histórico.
Me lembrei de uma palestra dada em Berkeley pelo Lawrence Ferlinghetti, grande poeta e dono da livraria e editora City Lights, da (velha e maluca) cidade de San Francisco, quem promoveu e publicou grande parte da produção da Geração Beat. A palestra fora promovida por um grupo de solidariedade ao povo da Nicarágua, que sofria na época as conseqüências do apoio dado pelos norteamericanos aos contras (lembram-se do famoso caso Irã-Contras, pelo qual o dinheiro obtido pela venda “por fora” do petróleo iraniano a Israel era transferido através da CIA aos contrarevolucionários na Nicarágua?).
Já com a voz enfraquecida, o Ferlinghetti começou a contar que recém chegou da Nicarágua, e o que mais lhe chamara a atenção é que havia vida nas ruas...coisa que ele não conseguia ver nos Estados Unidos.
Pois é, há vida nas ruas da cidade do México, pelo menos nesta parte próxima ao centro. Não chegam a ser as ruas de Bombaim, onde um dos extremos que pude presenciar foi um “tirador de cera do ouvido”, que trabalhava na calçada. Mas aqui há aqueles que levam um tabuleiro de xadrez uma mesinha e duas cadeiras, e se oferece para jogar; há a versão mexicana da baiana do acarajé, que fazem tacos, tortilhas e os deliciosos tamales; dogueiros oferecendo todo tipo de comida, milho cozido, rodelas de abacaxi, caldo de galinha,até dog, tudo naturalmente com muita pimenta; estudantes fazendo algazarra.
Interessante é observar a transformação de usos dos edifícios na parte central da cidade do México, muitos dos quais bastante imponentes da época colonial: aquele sutil impacto da globalização, na forma de “tacos árabes”, cursos de feng shui, ao lado de uma laboratório de exames que oferece ressonância magnética de campo aberto; entrei por uma rua seguindo a indicação: Teatro Diego Rivera, onde vi que estava passando a peça com o nome de “Orgasmos”, e garantem que é comédia. Do outro lado da rua, um edifício clássico, iluminado, parecia um outro teatro mas era o velório de uma funerária. Em toda parte os celulares...
No jornal de sexta-feira, hoje há um caderno VIP, melhor dizendo dos VIPs, e é todavia outras pessoas que as das ruas. São as “chefs” que preparam doces para comemorar Colombo, que descobriu a América. O mesmo jornal mostra lado a lado o contraste latinoamericano; o Evo Morales e a Rigoberta num cerimonial celebrando a criação do Estatuto do povos indígenas e na outra foto, Lula e dona Marisa, sentados vendo o rebolado de uma mulatona de biquíni.
Temos um olhar para eles e eles têm um olhar para a gente. Diferentes olhares fazem superar o etnocentrismo.
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