João Cabral de Melo Neto
FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC
—— De sua formosura já venho dizer:
é um menino magro, de muito peso não é,
mas tem o peso de homem, de obra de ventre de mulher.
—— De sua formosura deixai-me que diga:
é uma criança pálida, é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem, marca de humana oficina.
—— Sua formosura deixai-me que cante:
é um menino guenzo como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem já bate nele, incessante.
—— Sua formosura eis aqui descrita:
é uma criança pequena, enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas nas suas já se adivinha.
—— De sua formosura deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro que vence a areia marinha.
—— De sua formosura deixai-me que diga:
belo como o avelós contra o Agreste de cinza.
—— De sua formosura deixai-me que diga:
belo como a palmatória na caatinga sem saliva.
—— De sua formosura deixai-me que diga:
é tão belo como um sim numa sala negativa.
—— é tão belo como a soca que o canavial multiplica.
—— Belo porque é uma porta abrindo-se em mais saídas.
—— Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia.
—— é tão belo como as ondas em sua adição infinita.
—— Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria.
—— Belo como a coisa nova na prateleira até então vazia.
—— Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia.
—— Ou como o caderno novo quando a gente o principia.
—— E belo porque o novo todo o velho contagia.
—— Belo porque corrompe com sangue novo a anemia.
—— Infecciona a miséria com vida nova e sadia.
—— Com oásis, o deserto, com ventos, a calmaria.