quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Nocaute









1.       Alerta inicial: esta postagem, para ser mais bem entendida, depende um pouco da leitura das anteriores. Acabou ficando muito longa contrastando com o normal de minhas postagens que levam o tempo de um suspiro para serem feitas. É que exigiu pesquisas, revisões e outros desvios de minha desocupação.

2.       Montei uma analogia com uma luta de ringue, tendo de um lado minha progressão horizontal na carreira docente, e de outro lado seu oponente – e um nome adequado para esta criatura representada pelas comissões de avaliação seria: minha regressão.

3.       O primeiro round constou da submissão de um memorial à Comissão Setorial de Avaliação, e sua análise por três assessores. Fui mal avaliado por dois deles. O problema é que muitas notas baixas foram injustas, e decorrera, em grande parte, do texto inadequado que redigi para o memorial.

4.       Muito a contragosto, porque teria inevitavelmente que roçar em aspectos que deveriam ficar restritos ao foro pessoal (como por exemplo problemas de saúde). Mas uma série de explicações ficou devida e fui em frente, com um pedido reconsideração.

5.       No segundo round, o da reconsideração, a Comissão escolheu um novo assessor de sua confiança, que por sua vez deveria partir do material disponível, ou seja, dos primeiros pareceres e revê-los à luz dos novos argumentos trazidos em consideração no pedido de revisão. O parecer da reconsideração assim se manifestou:  

6.       Assessor (Reconsideração)       

Recomendado 3             
Considero significativo o percurso científico e intelectual do candidado. Tem uma obra importante na sua especialidade, reconhecida nacional e internacionalmente, com uma alta produção de trabalhos escritos, participação em eventos, orientações de mestrados e doutorados.
Ele merece a progressão solicitada.

E o Parecer Conclusivo (Reconsideração) foi o seguinte:            

Não recomendado
              
A CAS, após análise do parecerista que analisou o recurso do candidato e, após análise do memorial do candidato decidiu por unanimidade manter o resultado de não recomendar a progressão do candidato. O Professor Emilio Haddad realizou concurso para Livre-Docência em 2010 e, nestes últimos dois anos, a CAS considerou não haver produção que justifique sua progressão.



7.       O terceiro round da porfia, descrito numa postagem anterior, se encerrou com a emissão do seguinte parecer:


O Prof. Emilio Haddad tem uma brilhante carreira profissional, reconhecida pela CCAD, por todos os assessores ad hoc, pelo assessor da reconsideração e pela CAS na avaliação do seu memorial. No entanto, sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de sua última titulação (Livre Docência em 2010). No conjunto, o candidato não atendeu os critérios da CAS.
São Paulo, 21 de maio de 2013.

8.       Vamos reler o parágrafo juntos, meu caro eventual leitor? O que a primeira sentença do parágrafo propõe de forma clara é que o Prof. Emílio tem sua carreira profissional brilhante reconhecida por todas as instâncias. O que significa que deve ser enquadrado na classe superior entre seus pares.  Certo? (Não para o lado da regressão, como verão adiante).

9.       E que, no entanto, justifica o segundo parágrafo, não vai ser assim porque sua produção acadêmica se concentra em período anterior à obtenção de sua titulação. Certo? (semicerto ...)

10.   Dessa leitura, é legítimo depreender que no final do 3. Round já se tinha tornado inquestionável o reconhecimento do mérito do Prof. Emílio Haddad para que fosse recomendada sua progressão?

11.   No entanto, aparece um “no entanto” que serve de empecilho para que minha progressão fosse recomendada: sua produção se concentrar em período anterior a sua última titulação.

12.   Vocês não podem imaginar o tamanho da surpresa que tive ao ler o parecer! Fiquei de queixo caído. Por mais “desligado” (absent minded) que me concede a condição de professor/pesquisador, não me lembrava de ter lido alguma coisa na Resolução que limitasse a análise dos pedidos ao período posterior à última titulação. Até porque nada no mundo seria mais contraintuivo, num processo em que mudança de regras impõe ajustes.

13.   Fui então reler o resolução e achei o seguinte, como condição para se candidatar à progressão horizontal: Para a progressão são requisitos: “anexar ao requerimento memorial circunstanciado, em uma via impressa e em formato eletrônico, que demonstre a existência de atividades acadêmicas, destacando aquelas posteriores à última progressão de nível ou enquadramento em categoria docente superior, observado o interstício preferencial de cinco anos”.

14.    Li e entendi o que está escrito (não poderia ser de outra forma): que o memorial deveria destacar as atividades acadêmicas, dentro do interstício preferencial de cinco anos, posteriores à última progressão. Infelizmente, para nossa tristeza, os comitês preferiram entender diferentemente do que está escrito: e o significado de destacando passou a ser se limitando!!

15.   Veio então o quarto round, este por minha iniciativa, no qual me dirijo à CCAD, para um esclarecimento devido sobre a leitura correta do texto da Resolução no que se refere à redução do interstício preferencial de cinco anos, para apenas dois. Observei a incoerência disso no caso da nossa Faculdade, exemplificando com o caso de professoras que progrediram na carreira, fazendo concurso para Titular dois anos após terem feito a Livre Docência.

16.   O assunto foi colocado na pauta da CCAD em meados de setembro passado. Iniciado o ano novo, fui verificar minha lista de assuntos pendentes, e verifiquei não ter obtido resposta, cobrei e vejam abaixo o e-mail que recebi.

17.   Ao lê-lo me lembrei de uma blague que meus amigos franceses faziam em Berkeley, quando não entendiam o que diziam em suas palestras os filósofos conterrâneos que oportunamente lá desembarcavam nos anos 70. “Il faut bouleverser la dialectique”.


Re: Progressão horizontal do Prof. Emilio Haddad
De: carreiradocente@usp.br
Enviada: sexta-feira, 10 de janeiro de 2014 14:30:50
Para: Emilio Haddad (emhaddad1@hotmail.com)
Prezado Prof. Emilio Haddad,
O senhor solicitou a promoção para Associado 3 na primeira etapa do processo. A CAS
de Arquitetura, Urbanismo e Design solicitou, conforme estabelecido pelas regras,
pareceres de três especialistas em sua área de atuação. Dois dos pareceristas indicados
entendem que o senhor não teve atuação merecedora para a promoção requerida,
argumentando suas opiniões. Olhando-se os cinco quesitos analisados por eles, observase
a seguinte distribuição de conceitos:
• Excelente: nenhum
• Muito bom: nenhum
• Bom: dois
• Regular: cinco
• Insuficiente: três
O terceiro parecerista, em uma avaliação bem mais sucinta, atribuiu três conceitos
Excelente e dois conceitos Muito Bom.
A CAS emitiu, então, um parecer circunstanciado levando em consideração o memorial
apresentado e as opiniões dos especialistas e decidiu pela não aprovação da promoção.
A CCAD homologou, em vista do argumentado pela CAS, esse resultado.
O senhor recorreu da decisão tecendo uma série de considerações. Um novo especialista
foi acionado o qual, ao emitir o seu parecer, não contestou os pontos do parecer da CAS
que a levaram àquela decisão. Após uma nova análise em todo o material, a CAS decidiu
pela manutenção da não recomendação de promoção, o que foi posteriormente
homologado pela CCAD.
O sonhor contestou novamente a decisão tomada pela CAS e pela CCAD. Argumenta
inicialmente que a CAS não acata o último parecer emitido. É importante salientar que o
processo de avaliação não depende, e não pode depender, de apenas um parecer, pois
são levadas em consideração uma série de aspectos e opiniões e a análise deve ser feita
de forma academicamente embasada.
Qualquer avaliação é feita levando-se principalmente em conta o trabalho recente do
docente, o que ademais é recomendado pelo inciso V do parágrafo 7 da resolução
5927/2011. O senhor se apega muito à expressão “não havia produção nos últimos dois
anos que a justificasse” como se esse tivesse sido o único aspecto julgado. Fica claro nos
primeiros pareceres que a avaliação foi muito mais global do que isso e todos os
aspectos mencionados no edital e nos critérios de avaliação da CAS foram considerados.
A CCAD está convicta de que o processo foi realizado com todo o cuidado e atenção que
merece, tendo sido feita uma análise qualitativa cuidadosa do trabalho realizado pelo
senhor embasando as manifestações da CAS e da CCAD.


Minha pretensão foi assim nocauteada com duros golpes (nem todos semilimpos). Fiquei absurdado e “tomado” a tal ponto que trouxe o causo para dentro do espaço deste blogue. Causo e causa amalgamados, numa postagem hermafrodita.

Para não me alongar ainda mais, vou ter que comentar a resposta na próxima postagem. Que terá o título: progressão não é promoção.






quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Envelhecendo na Universidade




Para o eventual leitor que tem "me seguido" -- no neo-sentido da palavra como usada nas redes sociais -- tenho abusado da sua tolerância para organizar queixas, para apresentar ao bispo, sobre o tratamento dado no processo de progressão horizontal da USP.  Dei merecido refresco na última postagem, em que escrevi sobre uma partida de "football" norteamericano que assistira na televisão. E trago uma boa notícia: já houve avanço o suficiente para encerrar este assunto já na próxima postagem.

Retornando ao tema. Relembro que, no seu empiricismo, a avaliação dos docentes, embora trabalhosa, teve uma série de deficiências. Uma delas, foi a de ignorar a história do candidato -- só foram consideradas atividades dos últimos anos. Senti que toda uma vida de cotidiano envolvimento com as coisas da faculdade, como a participação em decisões cruciais, a ajuda mútua, os sacrifícios em momentos exigidos, era jogada na lata de lixo. É muito difícil dissociar o pesquisador do conhecimento que produz, parte de si mesmo. A reputação acadêmica, forjada na acumulação destes registros, valor real, não conta, talvez pela dificuldade de quantificar .

Sob o ponto de vista do verdadeiro problema a ser resolvido, o da classificação dos docentes, deixar de considerar a história individual implicou se ignorar um importante elemento diferenciador -- era como se todos fossem a mesma coisa. Assim, a primeira avaliação para progressão horizontal esvaiu-se de sua essência, e ficou perdida a oportunidade de ouro de serem feitos ajustes e correções que se tornaram possíveis com a introdução dos novos níveis. 

Faltou compreensão: veja por exemplo o meu caso, (que eu não queria aqui usar): eu não podia almejar a titularidade, por vários motivos entre os quais o de não ter podido formar um currículo em boa parte por ter estado no regime de tempo parcial a maior parte de minha carreira, e minhas limitações de saúde, que me obrigaram a fazer 10 cirurgias, sendo duas do coração. O nível máximo que poderia atingir era o de Professor Associado, e desenhei minha estratégia acadêmica para me aposentar naquele nível. Se existisse a nova carreira, teria desenhado minha estratégia para acabar me aposentando com o novo nível -- o de Professor Associado 3. Tenho certeza que nada teria mudado em minha ação, a menos das formalidades: eu já era isso, que estava para ser regulamentado. 

Mesmo com a Resolução 5927  no seu artigo 13 dizendo: A avaliação para a progressão de nível na carreira docente se dará por meio de análise qualitativa de memorial circunstanciado. (...) a CAS adotou um modelo analítico das "tabelinhas", bem quantitativo, que não dava brecha alguma para que as sutis contribuições do pleiteante no dia a dia na construção da faculdade e tampouco as dificuldades enfrentadas pudessem ser tomadas em consideração.

Mas, dentro deste quadro de desconsiderações, uma delas merece ao meu ver destaque porque não está só presente na avaliação feita para a progressão horizontal, mas em processos mais gerais da Universidade: o respeito ao professor mais senior, aqueles com mais histórias. Com a idade, em maior ou menor escala, as pessoas esbarram em limites físicos e intelectuais crescentes. Psicologicamente, se descobrem naquele momento tão bem descrito pelo Chico Buarque: "na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir". Ficamos ranzinzas. E ainda tendo que aceitar ser julgado pela moçada que ajudamos a formar!

A sociedade brasileira criou o Estatuto do Idoso. Viajamos de graça nos transportes coletivos urbanos, não porque nos falte numerário, mas como homenagem à vida. Depois de amanhã, um novo reitor e um novo vice-reitor tomam posse. Estão conscientes da necessidade de reforma política de nossa querida universidade.










segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Saudades do Joe Montana... e do Jerry Rice





Havia programado que esta seria uma postagem sobre o fato e o destino dos que envelhecem como docentes da Universidade de São Paulo. O assunto foi suscitado na sequencia que narra os descaminhos do processo de progressão horizontal na USP.

Mas Deus quis que o descanso fizesse parte obrigatória da semana. Semidesocupado, pude ficar assistindo pela ESPN, ontem ao jogo de futebol americano, semifinais do Super Bowl. Jogava "meu" time, os 49ers, que acabou perdendo o embate para o Seattle Seahawks. Achei ser melhor assunto para conversação, e decidi empurrar a questão dos professores velhos para a próxima postagem.

Enquanto estudante em Stanford e Berkeley, na primeira metade dos anos 70, foi que conheci mais ou menos o "Football", jogado com as mãos. Morria de rir com aquele esporte que permitia tudo que era proibido no "nosso" futebol, que naquele país é conhecido por soccer: jogar com as mãos, derrubar o adversário, correr com a bola embaixo do braço. Ambas universidades disputavam a liga do Pacífico, e não havia como evitar se envolver com toda a cena, as marching bands, e os concursos de cheer leaders, e a rivalidade.

No ano de 1990, quando retornei a Berkeley para um pós-doutorado, mais maduro e melhor instalado, passei a conhecer melhor a regras que me permitiram apreciar aquele esporte que, do melhor do meu conhecimento, só se pratica nos Estados Unidos. O San Francisco 49ers era o time da região. Na virada dos anos 90, formavam uma das melhores e mais elegantes equipes da história do Football, mais ou menos como o Palmeiras na época da Academia. Acompanhei a temporada de 1990, dos niners, campeões, vencendo seu arquirrival o Denver Broncos.

Vendo o jogo ontem me deu saudades; tive saudades do Quarterback de então dos 9ers, o Joe Montana, considerado por muitos o melhor quarterback de todos os tempos! Após arremessada pelo Montana, a câmara acompanhava a bola oval em sua trajetória que inevitavelmente ia de encontro às mãos do receiver, e o escolhido pelos deuses era o Jerry Rice. Mas ontem eles não estavam mais lá. O quarterback -- com o semiimpronunciável nome de Kaepernick -- mandou muito mal.

Após meu retorno para o Brasil quase nunca mais vi partidas de American Football. E o jogadores não envelhecem nos seus times de glória.








domingo, 19 de janeiro de 2014

Terceiro Round






Esta postagem dá prosseguimento ao tema tratado nas cinco anteriores feitas neste blog, que tem mostrado idas e vindas de minha "progressão horizontal".

A Comissão Central de Avaliação, tendo em vista o inconformismo de um grupo de professores com seu pleito não recomendado, abriu a possibilidade do encaminhamento de um novo pedido de reconsideração, qualificado como de em última instância.  Foi o que fiz, e em resposta a este novo pedido, o parecer concluiu que:

O Prof. Emilio Haddad tem uma brilhante carreira profissional, reconhecida pela CCAD, por todos os assessores ad hoc, pelo assessor da reconsideração e pela CAS na avaliação do seu memorial. No entanto, sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de sua última titulação (Livre Docência em 2010). No conjunto, o candidato não atendeu os critérios da CAS.
São Paulo, 21 de maio de 2013.

Obervação: CCAD -- Comissão Central de Avaliação para Progressão de nível  na Carreira Docente; CAS -- Comissão de Avaliação Setorial

Para tentar "decodificar a messagem", esta resposta tem duas partes:

a) a primeira é a de que o Prof. Emilio teve sua carreira profissional unanimemente considerada brilhante, o que em si deveria justificar a recomendação de sua progressão;

b) No entanto... -- e sempre é possível se achar um "no entanto" -- "sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de sua última titulação" (sic) , argumento de bonita aparência que é absolutamente insustentável, tanto do ponto de vista regimental, quanto do ponto de vista de sua lógica subjacente e, o pior, fraseado de modo ambíguo para se permitir o uso de forma traiçoeira.

Tratemos do que diz a Resolução 5927 que instituiu a progressão horizontal. Tem lá um item que diz:  Para a progressão prevista, são requisitos (...) "anexar ao requerimento memorial circunstanciado, em uma via impressa e em formato eletrônico, que demonstre a existência de atividades acadêmicas, destacando aquelas posteriores à última progressão de nível ou enquadramento em categoria docente superior, observado o interstício preferencial de cinco anos".

De minha melhor leitura, e não teria gastado meu caro tempo se assim não entendesse, o que aí está escrito é que o memorial deveria destacar as atividades posterior à última progressão de nível, o que é um tanto o quanto diferente de se limitar às mesmas, como a Comissão de Avaliação, com a lógica que abraçou, gostaria que tivesse sido escrito. Portanto, se esfarela o "no entanto".

Além disso, uma boa reflexão sobre o espírito de uma primeira avaliação tendo em vista a progressão horizontal nos parece ainda devida. A tentativa de tratar do mesmo modo todos os professores associados é desumana. Principalmente quando se ignora a faixa etária. Um professor com décadas de história é muito diferente de um carreirista. Vou aprofundar este aspecto na próxima postagem.

A precariedade analítica de uma avaliação baseada na soma de opiniões de pareceristas díspares, deixava assim nas mãos da CAS todo o poder para decidir o que quisesse, principalmente neste meu caso em que as opiniões eram divididas. O CAS possuía assim em mãos elementos de todo o tipo que justificariam qualquer coisa: tanto para recomendar quando para não recomendar minha progressão.

Como se diz, para os amigos tudo, para os inimigos a interpretação da lei. E eu, pelo jeito, não me encontro na primeira categoria.

Em toda minha longa vida acadêmica fui muitas vezes chamado a analisar e julgar propostas de pesquisa, artigos para publicação, candidatos a títulos, etc, e todas a vezes que tinha reprovar algum destes, o fazia com escrúpulo, re-estudando a avaliação muitas vezes até me convencer que não tem outro jeito, em especial no caso de colegas. Me encheria de vergonha qualquer traço de injustiça -- ou leviandade -- em uma decisão negativa.

Já estava aposentado quando recebi o parecer. A interpretação do "no entanto", no entanto, levou a luta para o 4o. round. Que foi horrendo, como verão. (E a saga continua)




sábado, 18 de janeiro de 2014

O lobo e o cordeiro

Esta postagem dá prosseguimento ao tema tratado na quatro anteriores. 

Encorajado por um grupo de colegas da FAU-USP que também não tiveram a progressão horizontal recomendada, e na busca uma análise mais adequada e justa de meu memorial, submeti, em novembro de 2012, um pedido de reconsideração. A coisa funciona assim: o Comitê setorial pede um novo parecer para um assessor ad hoc, que é de sua escolha, devendo utilizá-lo como base para emitir seu parecer conclusivo. 
Por favor, leiam isso: 
Assessor (Reconsideração) 
Recomendado 3        
Considero significativo o percurso científico e intelectual do candidato. Tem uma obra importante na sua especialidade, reconhecida nacional e internacionalmente, com uma alta produção de trabalhos escritos, participação em eventos, orientações de mestrados e doutorados.
Ele merece a progressão solicitada.


Que legal!, eu pensei. 

Mas o que se seguiu foi o verdadeiro contrassenso. Pasmem comigo: 

Parecer Conclusivo (Reconsideração)

Não recomendado.  A CAS, após análise do parecerista que analisou o recurso do candidato e, após análise do memorial do candidato decidiu por unanimidade manter o resultado de não recomendar a progressão do candidato. O Professor Emilio Haddad realizou concurso para Livre-Docência em 2010 e, nestes últimos dois anos, a CAS considerou não haver produção que justifique sua progressão


Me senti igual ao cordeiro da fábula de Esopo, que com muitos séculos de antecedência era precursora da filosofia política de Maquiavel.

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O lobo e o cordeiro (texto de Monteiro Lobato)

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Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado , de horrendo aspecto.
– Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? — disse o monstro arreganhando os dentes.  Espere, que vou castigar tamanha má-criação!…
O cordeirinho, trêmulo de medo,respondeu com inocência:
– Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?
Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta.  Mas não deu  o rabo a torcer.
– Além disso — inventou ele — sei que você andou falando mal de mim o ano passado.
– Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?
Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:
– Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.
– Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único?
O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:
– Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!
E — nhoc! — sangrou-o no pescoço.


Moral: -Contra a força não há argumentos.
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

E a vaca foi para o brejo



Esta postagem dá continuidade ao assunto das três anteriores, versando sobre minha malsucedida tentativa de progressão horizontal na carreira de Professor Associado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

O processo de progressão horizontal requeria do candidato a apresentação de um memorial, que logo cuidei de preparar. Por se tratar do primeiro processo de progressão horizontal em nossa Universidade, não se dispunha até então algum paradigma que pudesse ser seguido. Fiz o que me pareceu o que deveria ser feito, justificar minha progressão mostrando como e porque me diferencio dos outros professores associados Meu memorial acabou saindo mais discursivo, tem até um introito que começa por citar Camões ("Cantando, espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar engenho e arte” (Os Lusíadas, Canto I) que não deve ter prestado para coisa alguma.

Entregue o memorial, fui cuidar de outras coisas, enquanto as "comissões" começaram a por em andamento sua capacidade pensante e imaginação para montar uma metodologia de avaliação, que só foi divulgada após eu ter entregue meu memorial. Infelizmente, para usar um adágio popular, o “cachimbo entorta a boca”, e a avaliação no processo da carreira docente acabou sendo construído dentro de um paradigma de “bancas examinadoras” ao qual nós, professores estamos afeitos. Só que neste caso a banca não se reúne para inquirir o candidato, o que é essencial.

Os "poderes" preferiram pequena sofisticação analítica, como parece lhes convinha. Aí começaram a aparecer as tabelinhas de dupla entrada, em que o avaliador convidado -- a partir da leitura do currículo dava uma espécie de nota para o atributo do candidato. Em seguida, eram transformada em números e somavam. O resultado era comparado com uma "nota de corte", proposta que, pelos descaminhos, foi logo abandonada. E o meu texto que não tinha sido escrito para isso! Quando soube que foi desenvolvido um programa de computador para esse fim, me conscientizei que a vaca tinha ido para o brejo.

Finalmente, passados quase 1 ano, é claro, não deu outra: fui avaliado tão ruim que por pouco iriam propor a cassação de meu título de Livre Docente!!!

Como era semiesperado, porque baseados em fatores discriminantes pouco ou nada robustos, os resultados foram bem questionados. A percepção geral é a de que pagamos todos um preço altíssimo ante o amadorismo da academia; sem dúvida, o novo processo de progressão de nível iria requerer um correspondente modelo novo de pensar. Pudemos em seguida presenciar no âmbito da Universidade um amplo processo de reflexão crítica sobre os descaminhos da progressão horizontal, como nas matérias veiculadas no Jornal da ADUSP.

Há mais um elemento, que embora muito chato ter que mencionar, é importante para a melhor compreensão do contexto.  No caso de nossa Faculdade, o descuido no processo de progressão horizontal possibilitou que fossem expostas velhas desavenças, e re-abrissem velhas chagas, com ingredientes dignos de uma novela como as televisivas: bate-bocas na Congregação, acusações de nepotismo, contratação de advogados, desinformação que levam a malentendidos, ação de bastidores, um grande rebuliço que acabou por fazer aflorar sentimentos menores, a hipocrisia e a intolerância, quase ódio. 

Surpreendente. Fico até pensando o quanto esta dissenção não poderia ser responsável pelo endurecimento dos corações na hora do "fechamento" das avaliações. 

Recebi muita pressão de colegas que como eu foram preteridos, para que me juntasse ao grupo que buscou apoio de um advogado, mas fiz prevalecer minha fé de que a razão venceria. Hoje me semiarrependo porque o pessoal que usou o advogado recebeu consideração e pelo que me disseram acompanhada de um pedido de desculpas. 

Mas acabei sucumbindo à pressão para que apresentasse recurso, que levei dois dias escrevendo, na tentativa de esclarecer pontos do meu memorial mal entendidos na primeira avaliação, e recebi uma resposta bem simpática, que vou colocar in limine na próxima postagem. (Isto aqui está semivirando um folhetim...)





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Desconstruindo o absurdo

Múmias de gatos ao lado de suas respectivas ossadas reproduzidas por uma impressora 3D: tomógrafo e escâner a serviço da egiptologia

Múmias de gatos ao lado de suas respectivas ossadas reproduzidas por uma impressora 3D: tomógrafo e escâner a serviço da egiptologia (Fonte: Revista FAPESP)


Esta postagem dá sequencia às duas anteriores.

Por muitos anos discutiu-se a necessidade de se dispor de mais níveis na carreira acadêmica da Universidade de São Paulo, que até então praticamente se resumiam a três: Professor Doutor, Professor Associado e Professor Titular. A "subida" de uma classe para outra é feita através dos chamados concursos em que o postulante é examinado por uma banca formada por docentes de maior titulação. A exemplo das Universidades Federais, em julho de 2011, foram introduzidas na carreira da USP subdivisões dos níveis Professor Doutor (que passou a ser Professor Doutor 1 e Professor Doutor 2) e Professor Associado que, por sua vez foi dividida em 3 categorias: Professor Associado 1, 2 ou 3.

Assim a primeira avaliação docente tendo em vista a progressão horizontal carregou consigo a transição do modelo de 3 níveis para o outro modelo de 6 níveis.Todos os professores associados seriam automaticamente transformados em associados 1, e todos os doutores em doutores 1.  Professores doutores e assistentes poderiam pleitear serem enquadrados como 2 (no caso de doutores) ou 2 ou 3 (no caso de associados).

Felizmente, o problema que se colocava era de uma definição semitranquila: classificar os Professores Doutores em um de duas classes; do Tipo 1 ou Tipo 2, à exemplo do que se faz com o arroz vendido em supermercado. E os professores associados em Tipo 1, 2 ou 3, analogamente ao leite que pode ser do Tipo A, Tipo B ou Tipo C. Um problema de taxonomia, procedimento básico em diversos ramos da ciência.

Por nascer de uma Resolução aprovada no CO - formidável acrônimo de Conselho Universitário, imaginei que o processo que envolve pessoas e julgamento, e os desafios metodológicos que lhe são inerentes, iria se beneficiar da contribuição científica de membros do conselho especializados no assunto, como o povo da estatística, da lógica, de recursos humanos, de teoria da decisão, e quetais. Porque a avaliação é um procedimento que está presente em várias disciplinas. Aqui em casa, tem eu, que faço trabalhos de avaliação de imóveis e a Ângela, que usou em seu doutorado uma escala para avaliar o comportamento psico-neurológico de bebês.

Reclassificar este contingente todo era um tarefa desafiadora, considerando, de um lado, a diversidade das áreas de conhecimento, o grande número de pessoas envolvidas, e de outro lado, o compromisso de que a análise privilegiaria aspectos qualitativos. Segundo a resolução que instituiu a nova carreira, "indicadores quantitativos podem ser instrumentos de avaliação da qualidade e não o contrário".

Outra novidade: para conduzir a progressão horizontal, ao invés do tradicional concurso usado na progressão vertical, que sera inviável dada a quantidade de casos a serem considerados, foram criadas comissões de avaliação, penduradas na Secretaria Geral, que -- com transparência, seria responsável pelo análise dos encaminhamentos submetidos.

Tratava-se realmente de um projeto instigante, uma bonita proposta: caberia à corporação dos docentes avaliar seus pares. Assim fazendo, ficaria mais livre para exibir os valores com que a academia se autoestima.

A promessa de um approach mais bem ancorado em fundamentos científicos de análise acabou não vingando. Perdeu para a prática costumeira de contabilidade, que é essencial no comércio.

Prosseguindo no assunto, a próxima postagem deverá ter como título: ... e a vaca foi para o brejo




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Reclamando com o bispo



Minha postagem anterior ("absurdo"), registrava meu aperreio com uma resposta semiinesperada que recém houvera recebido. Conseguia fazer retroceder o andamento de meu processo visando a chamada progressão horizontal na carreira da USP. Como bom primogênito mimado, espernear foi a primeira reação, e de certa forma peço desculpas para meu eventual leitor pela ausência do humor que aqui costuma se fazer presente. Mas... fiquei diante do dilema: ou engolia aquilo e ficava quieto ou não, adentrando pelo emaranhado legal da Universidade em busca finalmente de um trato do qual me julgo merecedor. Optei pelo segundo, o que pedia minha dignidade. Sei bem do risco de que isto possa descambar mais ainda, levando a expor (e a ouvir) coisas que não deveriam se-lo. 

Felizmente disponho deste blogue para exercitar -- sem formalidades -- a casuística. E quem sabe vir a produzir blogadas divertidas, que contraponham a tristeza intrínseca que exalam a injustiça e a maldade. Pretendo, dessa forma, fazer algumas postagens semiinteligentes que deslindem o assunto. Se não estiverem agradando -- o que posso avaliar pela diminuição do número de visitas, ou por dicas que me mandam privadamente -- paro com isso.  

Ruminando palavras, faço inicialmente preparo para ir reclamar com o bispo. 




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Absurdo






No ano de 2011, a Universidade de São Paulo introduziu na carreira docente a chamada progressão horizontal. Foram criados os níveis de Professor Doutor 1 e 2 -- ao qual poderiam se candidatar os Professores Doutores -- e de Professor Associado 1, 2 e 3  -- aos quais poderiam se candidatar os Professores Associados, que era (e é) o meu caso. Eu tinha minha aposentadoria marcada para ser publicada no final do mês de julho daquele ano, e uns dias antes esta nova carreira por muitos anos aguardada foi anunciada. Prometia um novo enquadramento baseado em critérios qualitativos, e um boletim da reitoria afirmava que 90 % dos Professores Associados seriam contemplados. Achei (doce inocência!) que estas informações eram verdadeiras, e resolvi me submeter ao processo de progressão, suspendendo a data da publicação de minha aposentadoria até que saísse o resultado. Continuei trabalhando em ritmo crescente. Tem sido um longo caminho em que os elogios que recebo não são capazes de impressionar uma Comissão preocupada em miudezas, e que tem sido incapaz de se reconhecer como tal. Anteontem recebi da Coordenadora da Comissão de Avaliação um e-mail que parece ser a pá de cal sobre minha pretensão de progressão de forma pacífica. Estou inconformado com a negativa, que seria tolerável se baseado em um processo bem fundamentado e respeitoso para com um colega de ensino. Infelizmente não sobra alternativa senão prosseguir em instâncias superiores, o que implica me dessemidesocupar. Preciso agora gastar um tempo que poderia ser de criação e lazer -- e talvez dinheiro com advogados -- para a crítica de um processo que é revelador de como é possível o destrato num ambiente universitário, no qual sempre se espera a prevalência da lógica, da justiça, trilhas que levam à verdade, e do coleguismo. Por ser revelador de um quadro maior de uma situação não infrequente que vivem professores mais seniores da Universidade de São Paulo, acho que vale a pena postar (parte do) trabalho de reflexão sobre o tema. Para que não fique vazio, vou aproveitar do material crítico detalhando o que quero dizer nas próximas blogadas. Sinto, mesmo!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Rádio funerária







Não me refiro aos caminhões que vendem melancia, morangos de Atibaia, sacos de laranja, caixas de uva, e que viram a esquina anunciando -- previsivelmente de forma engraçada -- seus produtos através daqueles alto-falantes corneta. Falo dos pequenos automóveis que não carregam mercadorias, mas que viram a esquina fazendo anúncios, quase sempre com um som distorcido. Em pequenas cidades, é comum usar este meio para divulgar velórios de pessoas que não tiveram tempo para fazerem em vida.

Uma tarde modorrenta, em julho de 1974, eu estava no terraço da casa de meu tio Rachid, em Hasbaya, sul do Líbano, uma cidade na montanha com praticamente uma rua só, que servia de entrada e saída, quando entrou um carro velho com um alto-falante destes anunciando bem alto uma coisa em árabe que eu não conseguia entender. Eram tempos politicamente difíceis em que o país se armava para uma longa guerra civil que estava prestes a eclodir. Somava-se a isso os barulhentos raids da aviação israelense e tiros de morteiro que eram disparados sobre os acampamentos palestinos estabelecidos na região. Estava morrendo de medo de que se tratasse de algum aviso prevenindo sobre uma possível ação militar iminente na região. Mas era apenas o anúncio fúnebre de uma pessoa que faleceu no vilarejo vizinho. Graças a Deus!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Desapegando


Rosa, primeiranista da FAU-USP, minha bolsista de tutoria


Recebo pressões contínuas para esvaziar meus armários e arquivos por parte de minhas duas patroas: a Profa. Dra. Rosária, chefe do Departamento, que quer que eu leve para a casa o meu material guardado na Faculdade, e a Ângela, minha mulher, que quer que eu faça o contrário, leve o material que tenho em casa para a Faculdade. Trocando em miúdos, tenho mais é  que dar um destino ao meu considerável espólio acadêmico -- para usar uma expressão de um colega de Departamento de Tecnologia, o Prof. Khaled.

Cada pedaço de papel traz memórias de quase 45 anos, que revisito mesmo que fugazmente, antes dele me desfazer. É o passado passado. Inesperado confronto com a efemeridade. E procrastinar, na esperança de um convívio maior com aquele material querido, é um tiro no pé. 

Na foto, ao fundo um dos 6 armários e arquivos de material que tinha acumulado na faculdade. Já consegui desfazer a metade. Felizmente, o tempo tem me permitido encontrar destinação apropriada (bibliotecas, colegas etc). Na frente, a Rosa, cuja ajuda foi fundamental para iniciar o desbravamento sem o qual eu não iria fazer andar com a coisa. 

No armário aberto, dá para ver uma mala preta, pesadona que trouxe de uma conferência em Beijing, duas caixas onde está escrito Chamex, com os questionarios preenchidos de uma pesquisa que coordenei em favelas de São Paulo, uma caixa de material que colhi quando recebi uma bolsa do governo canadense Faculty Enrichment Programme , relativo ao planejamento urbano -- que naquele país se chama de "community planning", (fora de visão) uma régua de cálculo Aristo, uma bolsinha que recebi na Urban Conference de Marselha, uma caixa tipo de sapato com CDs, a maior parte anais de conferências, em cima de tudo uma caixa vazia aguardando entulho, e arquivos.

Tenho culpa na bagunça mas, por favor, levem em consideração três mudanças de lugar nas quais o material foi tirado do armário, e recolocado randomicamente, sem meu acompanhamento.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Uma noite sem meu amor





Nossa cama quadradona
tamanho king
virou um ringue

briga medonha
com o lençol e a fronha

iluminada a noite inteira
por um spot muito quente
eloquente
sobre o criado mudo

o resultado?
nocauteado
estatelado, ora bolas!
sobre o colchão de molas












terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Só há uma pergunta que merece ser feita...






Nas férias escolares, o campus universitário é vazio e sem alegria. Em postagem anterior ("Natal em La Piedad") contei sobre um período de recesso escolar no qual fiz um viagem de carro até a cidade do México. Retornei a Berkeley dias antes do reinício das aulas, depois de ter passado um animado reveillon em Puerto Vallarta, celebrado, segundo a melhor tradição mexicana, com mariachis e tiros para o alto.

Na contrastante placidez do campus, que lembra aquelas cidades sonolentas nos livros do Gabriel Garcia Marques, encontro o John Forester, então aluno de doutorado, sentando com um olhar perdido para o horizonte, onde o sol se punha atrás do perfil da Golden Gate, meditabundo.

John acabou fazendo uma carreira acadêmica importante, especialista que se tornou no rebatimento da Teoria Crítica, que vinha da Escola de Frankfurt, sobre o planejamento urbano. Tornou-se titular na Universidade de Cornell. Após meu retorno para o Brasil, revia-o nos encontros da ACSP- American Association of Collegiate Schools of Planning, ele sempre rodeado.

O John virou-se para mim e deu o resultado de suas reflexões: "Sabe? Só há uma pergunta que merece ser feita", me atiçando a curiosidade: "Será que ela tem uma irmã?"

Poucos anos depois recebi dele um cartão natalino, que informava sobre seu casamento, assinalando: "ela tem (ou são em) 8 irmãs!"

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Reis


Hoje é dia de Reis. Vou aproveitar este espaço para trocar com meus eventuais leitores umas idéias. Rei sempre tinha sido para mim um arquétipo apropriado para contos infantis, cartas de tarô, ou personagem picaresco. Rei, capitão, soldado, ladrão... Mas temos reis no mundo... real. Reis de reinos, como o da Dinamarca ou do Cambodia, reis de especialidades, como o Pelé, o Elvis, ou o Roberto Carlos, e "soi-disant" reis do comércio local, como o rei das batidas, a rainha do frango assado, ou a rainha da cocada preta. 

Fiquei mais tolerante com o conceito de um ser cingido que é adorado e traz a harmonia e a unidade ao pessoal do clube ou de seu povo, nos debates quando, na esteira da Constituição de 1988, tivemos um plebiscito no Brasil para escolher a forma de governo, e ouvi argumentos a favor de um regime monárquico. Parlamentarista, naturalmente. Lula, por exemplo, foi menos presidente do que rei, um rei sem coroa. 

No ano de 1993 passei três semanas em Madrid num programa de intercâmbio com a Universidade Complutense, e gostava de ver no "noticero" noturno, a parte dedicada ao dia do rei e da rainha da Espanha. Iam sempre, vestidos em trajes reais ou semireais, participar de eventos do tipo inaugurações. O cortejo era recebido por milhares de bandeirinhas acenadas pelo povo. Me lembro ter visto a entrevista de uma ajudante de cozinha -- às lágrimas -- por ter servido o prato do rei na inauguração de um bandejão. 

Neste ano passado tivemos o nascimento do futuro herdeiro do trono britânico, que foi acompanhado com alegria pelos súditos, que viam assim por enquanto a continuidade no poder desta família. E estive em Viena onde a presença dos Habsburgos, serviu para consolidar uma fronteira oriental européia. 

Gradualmente, fui aceitando pela sua funcionalidade a ideia de um papel para reis, rainhas, príncipes e princesas neste mundo de humanos. Até vou hoje para o sacrifício e comer aquela porção da "gallete des rois" que me toca.  

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Canseira








Dia dois de janeiro. Primeiro dia útil de 2014. Descubro que minha condição de aposentado tem mesmo dupla face. Nunca será aquele idílico verão na piscina do clube, lendo o jornal do dia até a última gota, tomando sorvete entre dois suquinhos e falando mal do governo... Passei esse dia mais ocupado que semiocupado. Tive que provar à previdência que existo, indo ao cartório para reconhecer firma presencialmente numa declaração, e pagar R$ 11,00 (estacionei na rua, ficando livre do custo de estacionamento). Juntei xerox de minha conta de gás, e outro documento do INSS que baixei na Internet, fora de casa porque minha impressora deu tilt. Pus tudo num envelope e fui até o correio para enviar à Secretaria da Fazenda, registrada e com aviso de recebimento (popular AR). Um custo de R$ 7,50. Usei a agência do Shopping Eldorado, onde aproveitei para sacar dinheiro. Com R$ 40,00 de compras no Carrefour, ficamos livres do pagamento do estacionamento de R$ 10,00. Comprei não perecíveis e pelas minhas contas o azeite de oliva saiu quase na faixa. No outro extremo, tive que comparecer até o Hospital Universitário para marcar consulta com a dermato. Tem que ser pessoalmente, com a carteirinha na mão, e mesmo assim ficou para o dia 2 de junho. E aquela inevitável ida ao banco para assinar documentos que a gerente deixou para depois das festas. O banco é SELECT e logo que chego tomo um cafezinho expresso e bebo uma latinha de Coca Zero -- e um beijinho de boas entradas nas meninas. Me deslocando numa São Paulo sem trânsito a 37 graus Celsius. Mereci uma siesta no geladinho. Com a empregada de férias me virei com o excedente do Reveillon, e lavei os pratos. Nem mal caiu a noite, e fomos a outro shopping para as "trocas". No meu caso de uma camisa xadrez para outra lisa, que combina melhor com o resto do guarda roupa. E um livro que veio rasgado. Internetei e telefonei para arranjos prosaicos como agendar a revisão do carro, e responder à mensagens de pessoas queridas. Ufa! Sobrou ainda uma pilha de coisas. Estou fazendo esse registro para sossegar um grande número de amigos que souberam que meu barco houvera sido torpedeado e afundado numa emboscada preparada por piratas do Caribe. Desnaufraguei trazendo dois peixes, um em cada mão. Sinto falta do meu barquinho, mas de tédio é que não devo morrer.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Livro caixa -- revelado

Em minha postagem anterior, coincidentemente a última do ano de 2013, acabei por apresentar uns versos que tinha escrito no dia, sob título "Livro Caixa". Resultaram de um processo de composição que teve como inspiração aquele momento de virada do calendário, quando se contabiliza o ano e se projeta o ano seguinte. Para o seu desenvolvimento, me utilizei do enredo de um conto infantil que uma sucessão de acasos acabei lendo. Meu viés acadêmico intrometeu-se para lembrar que é preciso nomear os textos usados, reconhecendo devidamente seus autores...

Esta estória se deu em Portugal, para onde fui em outubro de 2010 apresentar um trabalho durante o 4o PLURIS - acrônimo de Congresso Luso-brasileiro Para o Planejamento Urbano, Regional, Integrado e Sustentável, que se realizou na cidade do Faro, no Algarve. Como é costumeiro, tivemos o jantar da conferência. Nestes casos prefiro sempre que possível me sentar em mesas ocupadas por desconhecidos ou semi-conhecidos. Engatilhando novas amizades. Assim foi, e eu e Ângela nos enturmamos com um grupo de "patrícios". Entre eles, o prof. Antonio Couto da Universidade do Porto.

Nossos roteiro de viagem, após a conferência, incluía uma estada em Sevilha, na Espanha, atravessar a Extremadura -- onde visitamos Mérida -- e reentrada em Portugal em direção à Bragança, prosseguindo vale do Douro até sua foz na cidade do Porto, que tínhamos interesse em conhecer melhor.

O professor Antônio nos disse que o procurássemos quando estivéssemos na cidade do Porto. Coincidiu nossa passagem num dia de domingo, quando a família dele se reunia na casa da irmã, portuguesa com certeza, vale dizer aquela hospitalidade, para almoçar com o pai deles, evento familiar para o qual acabamos sendo convidados. Estavam entre outros os tres filhos do Prof. Antonio, sua mulher e cunhado.

Não foram poucas as vezes na vida em que acabei acolhido convidado em casa de pessoas que nunca me viram antes mas que sem estranhamento me recebiam como se fosse um irmão. São momentos especiais que permitem um acesso à vida em diferentes lugares e que fazem aprofundar o convencimento de que, neste mundo, viemos todos de um mesmo Pai e uma mesma Mãe

Soube na ocasião que o pai do Prof. António, já senhorzinho, houvera escrito um livro infantil sobre um livro muito feio, que tinha sido o livro caixa de uma drogaria. (Nome dado no Porto para loja de materiais de construção). O livro documentava como a facilitação do pagamento tinha permitido a muitas pessoas construir seus lares. Mas a capa preta (em formatos tenebrosos) do livro causava repugnância por parte dos outros livros coloridos. Foi o que extraí para concluir minha poesia.

A supimpa sobremesa -- sopa fria de dióspiros com canela e vinho do Porto -- impressionou tanto o paladar que acabei servindo na minha festinha de aniversário. Para quem como eu não reconhecia pelo nome aquela fruta, que em italiano se chama "cachi", fica aqui uma imagem:



Dióspiro