quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Envelhecendo na Universidade




Para o eventual leitor que tem "me seguido" -- no neo-sentido da palavra como usada nas redes sociais -- tenho abusado da sua tolerância para organizar queixas, para apresentar ao bispo, sobre o tratamento dado no processo de progressão horizontal da USP.  Dei merecido refresco na última postagem, em que escrevi sobre uma partida de "football" norteamericano que assistira na televisão. E trago uma boa notícia: já houve avanço o suficiente para encerrar este assunto já na próxima postagem.

Retornando ao tema. Relembro que, no seu empiricismo, a avaliação dos docentes, embora trabalhosa, teve uma série de deficiências. Uma delas, foi a de ignorar a história do candidato -- só foram consideradas atividades dos últimos anos. Senti que toda uma vida de cotidiano envolvimento com as coisas da faculdade, como a participação em decisões cruciais, a ajuda mútua, os sacrifícios em momentos exigidos, era jogada na lata de lixo. É muito difícil dissociar o pesquisador do conhecimento que produz, parte de si mesmo. A reputação acadêmica, forjada na acumulação destes registros, valor real, não conta, talvez pela dificuldade de quantificar .

Sob o ponto de vista do verdadeiro problema a ser resolvido, o da classificação dos docentes, deixar de considerar a história individual implicou se ignorar um importante elemento diferenciador -- era como se todos fossem a mesma coisa. Assim, a primeira avaliação para progressão horizontal esvaiu-se de sua essência, e ficou perdida a oportunidade de ouro de serem feitos ajustes e correções que se tornaram possíveis com a introdução dos novos níveis. 

Faltou compreensão: veja por exemplo o meu caso, (que eu não queria aqui usar): eu não podia almejar a titularidade, por vários motivos entre os quais o de não ter podido formar um currículo em boa parte por ter estado no regime de tempo parcial a maior parte de minha carreira, e minhas limitações de saúde, que me obrigaram a fazer 10 cirurgias, sendo duas do coração. O nível máximo que poderia atingir era o de Professor Associado, e desenhei minha estratégia acadêmica para me aposentar naquele nível. Se existisse a nova carreira, teria desenhado minha estratégia para acabar me aposentando com o novo nível -- o de Professor Associado 3. Tenho certeza que nada teria mudado em minha ação, a menos das formalidades: eu já era isso, que estava para ser regulamentado. 

Mesmo com a Resolução 5927  no seu artigo 13 dizendo: A avaliação para a progressão de nível na carreira docente se dará por meio de análise qualitativa de memorial circunstanciado. (...) a CAS adotou um modelo analítico das "tabelinhas", bem quantitativo, que não dava brecha alguma para que as sutis contribuições do pleiteante no dia a dia na construção da faculdade e tampouco as dificuldades enfrentadas pudessem ser tomadas em consideração.

Mas, dentro deste quadro de desconsiderações, uma delas merece ao meu ver destaque porque não está só presente na avaliação feita para a progressão horizontal, mas em processos mais gerais da Universidade: o respeito ao professor mais senior, aqueles com mais histórias. Com a idade, em maior ou menor escala, as pessoas esbarram em limites físicos e intelectuais crescentes. Psicologicamente, se descobrem naquele momento tão bem descrito pelo Chico Buarque: "na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir". Ficamos ranzinzas. E ainda tendo que aceitar ser julgado pela moçada que ajudamos a formar!

A sociedade brasileira criou o Estatuto do Idoso. Viajamos de graça nos transportes coletivos urbanos, não porque nos falte numerário, mas como homenagem à vida. Depois de amanhã, um novo reitor e um novo vice-reitor tomam posse. Estão conscientes da necessidade de reforma política de nossa querida universidade.










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