Para o eventual leitor que tem "me seguido" -- no neo-sentido da palavra como usada nas redes sociais -- tenho abusado da sua tolerância para organizar queixas, para apresentar ao bispo, sobre o tratamento dado no processo de progressão horizontal da USP. Dei merecido refresco na última postagem, em que escrevi sobre uma partida de "football" norteamericano que assistira na televisão. E trago uma boa notícia: já houve avanço o suficiente para encerrar este assunto já na próxima postagem.
Retornando ao tema. Relembro que, no seu empiricismo, a avaliação dos docentes, embora trabalhosa, teve uma série de deficiências. Uma delas, foi a de ignorar a história do candidato -- só foram consideradas atividades dos últimos anos. Senti que toda uma vida de cotidiano envolvimento com as coisas da faculdade, como a participação em decisões cruciais, a ajuda mútua, os sacrifícios em momentos exigidos, era jogada na lata de lixo. É muito difícil dissociar o pesquisador do conhecimento que produz, parte de si mesmo. A reputação acadêmica, forjada na acumulação destes registros, valor real, não conta, talvez pela dificuldade de quantificar .
Sob o ponto de vista do verdadeiro problema a ser resolvido, o da classificação dos docentes, deixar de considerar a história individual implicou se ignorar um importante elemento diferenciador -- era como se todos fossem a mesma coisa. Assim, a primeira avaliação para progressão horizontal esvaiu-se de sua essência, e ficou perdida a oportunidade de ouro de serem feitos ajustes e correções que se tornaram possíveis com a introdução dos novos níveis.
Faltou compreensão: veja por exemplo o meu caso, (que eu não queria aqui usar): eu não podia almejar a titularidade, por vários motivos entre os quais o de não ter podido formar um currículo em boa parte por ter estado no regime de tempo parcial a maior parte de minha carreira, e minhas limitações de saúde, que me obrigaram a fazer 10 cirurgias, sendo duas do coração. O nível máximo que poderia atingir era o de Professor Associado, e desenhei minha estratégia acadêmica para me aposentar naquele nível. Se existisse a nova carreira, teria desenhado minha estratégia para acabar me aposentando com o novo nível -- o de Professor Associado 3. Tenho certeza que nada teria mudado em minha ação, a menos das formalidades: eu já era isso, que estava para ser regulamentado.
Mas, dentro deste quadro de desconsiderações, uma delas merece ao meu ver destaque porque não está só presente na avaliação feita para a progressão horizontal, mas em processos mais gerais da Universidade: o respeito ao professor mais senior, aqueles com mais histórias. Com a idade, em maior ou menor escala, as pessoas esbarram em limites físicos e intelectuais crescentes. Psicologicamente, se descobrem naquele momento tão bem descrito pelo Chico Buarque: "na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir". Ficamos ranzinzas. E ainda tendo que aceitar ser julgado pela moçada que ajudamos a formar!
A sociedade brasileira criou o Estatuto do Idoso. Viajamos de graça nos transportes coletivos urbanos, não porque nos falte numerário, mas como homenagem à vida. Depois de amanhã, um novo reitor e um novo vice-reitor tomam posse. Estão conscientes da necessidade de reforma política de nossa querida universidade.
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