quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Nocaute









1.       Alerta inicial: esta postagem, para ser mais bem entendida, depende um pouco da leitura das anteriores. Acabou ficando muito longa contrastando com o normal de minhas postagens que levam o tempo de um suspiro para serem feitas. É que exigiu pesquisas, revisões e outros desvios de minha desocupação.

2.       Montei uma analogia com uma luta de ringue, tendo de um lado minha progressão horizontal na carreira docente, e de outro lado seu oponente – e um nome adequado para esta criatura representada pelas comissões de avaliação seria: minha regressão.

3.       O primeiro round constou da submissão de um memorial à Comissão Setorial de Avaliação, e sua análise por três assessores. Fui mal avaliado por dois deles. O problema é que muitas notas baixas foram injustas, e decorrera, em grande parte, do texto inadequado que redigi para o memorial.

4.       Muito a contragosto, porque teria inevitavelmente que roçar em aspectos que deveriam ficar restritos ao foro pessoal (como por exemplo problemas de saúde). Mas uma série de explicações ficou devida e fui em frente, com um pedido reconsideração.

5.       No segundo round, o da reconsideração, a Comissão escolheu um novo assessor de sua confiança, que por sua vez deveria partir do material disponível, ou seja, dos primeiros pareceres e revê-los à luz dos novos argumentos trazidos em consideração no pedido de revisão. O parecer da reconsideração assim se manifestou:  

6.       Assessor (Reconsideração)       

Recomendado 3             
Considero significativo o percurso científico e intelectual do candidado. Tem uma obra importante na sua especialidade, reconhecida nacional e internacionalmente, com uma alta produção de trabalhos escritos, participação em eventos, orientações de mestrados e doutorados.
Ele merece a progressão solicitada.

E o Parecer Conclusivo (Reconsideração) foi o seguinte:            

Não recomendado
              
A CAS, após análise do parecerista que analisou o recurso do candidato e, após análise do memorial do candidato decidiu por unanimidade manter o resultado de não recomendar a progressão do candidato. O Professor Emilio Haddad realizou concurso para Livre-Docência em 2010 e, nestes últimos dois anos, a CAS considerou não haver produção que justifique sua progressão.



7.       O terceiro round da porfia, descrito numa postagem anterior, se encerrou com a emissão do seguinte parecer:


O Prof. Emilio Haddad tem uma brilhante carreira profissional, reconhecida pela CCAD, por todos os assessores ad hoc, pelo assessor da reconsideração e pela CAS na avaliação do seu memorial. No entanto, sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de sua última titulação (Livre Docência em 2010). No conjunto, o candidato não atendeu os critérios da CAS.
São Paulo, 21 de maio de 2013.

8.       Vamos reler o parágrafo juntos, meu caro eventual leitor? O que a primeira sentença do parágrafo propõe de forma clara é que o Prof. Emílio tem sua carreira profissional brilhante reconhecida por todas as instâncias. O que significa que deve ser enquadrado na classe superior entre seus pares.  Certo? (Não para o lado da regressão, como verão adiante).

9.       E que, no entanto, justifica o segundo parágrafo, não vai ser assim porque sua produção acadêmica se concentra em período anterior à obtenção de sua titulação. Certo? (semicerto ...)

10.   Dessa leitura, é legítimo depreender que no final do 3. Round já se tinha tornado inquestionável o reconhecimento do mérito do Prof. Emílio Haddad para que fosse recomendada sua progressão?

11.   No entanto, aparece um “no entanto” que serve de empecilho para que minha progressão fosse recomendada: sua produção se concentrar em período anterior a sua última titulação.

12.   Vocês não podem imaginar o tamanho da surpresa que tive ao ler o parecer! Fiquei de queixo caído. Por mais “desligado” (absent minded) que me concede a condição de professor/pesquisador, não me lembrava de ter lido alguma coisa na Resolução que limitasse a análise dos pedidos ao período posterior à última titulação. Até porque nada no mundo seria mais contraintuivo, num processo em que mudança de regras impõe ajustes.

13.   Fui então reler o resolução e achei o seguinte, como condição para se candidatar à progressão horizontal: Para a progressão são requisitos: “anexar ao requerimento memorial circunstanciado, em uma via impressa e em formato eletrônico, que demonstre a existência de atividades acadêmicas, destacando aquelas posteriores à última progressão de nível ou enquadramento em categoria docente superior, observado o interstício preferencial de cinco anos”.

14.    Li e entendi o que está escrito (não poderia ser de outra forma): que o memorial deveria destacar as atividades acadêmicas, dentro do interstício preferencial de cinco anos, posteriores à última progressão. Infelizmente, para nossa tristeza, os comitês preferiram entender diferentemente do que está escrito: e o significado de destacando passou a ser se limitando!!

15.   Veio então o quarto round, este por minha iniciativa, no qual me dirijo à CCAD, para um esclarecimento devido sobre a leitura correta do texto da Resolução no que se refere à redução do interstício preferencial de cinco anos, para apenas dois. Observei a incoerência disso no caso da nossa Faculdade, exemplificando com o caso de professoras que progrediram na carreira, fazendo concurso para Titular dois anos após terem feito a Livre Docência.

16.   O assunto foi colocado na pauta da CCAD em meados de setembro passado. Iniciado o ano novo, fui verificar minha lista de assuntos pendentes, e verifiquei não ter obtido resposta, cobrei e vejam abaixo o e-mail que recebi.

17.   Ao lê-lo me lembrei de uma blague que meus amigos franceses faziam em Berkeley, quando não entendiam o que diziam em suas palestras os filósofos conterrâneos que oportunamente lá desembarcavam nos anos 70. “Il faut bouleverser la dialectique”.


Re: Progressão horizontal do Prof. Emilio Haddad
De: carreiradocente@usp.br
Enviada: sexta-feira, 10 de janeiro de 2014 14:30:50
Para: Emilio Haddad (emhaddad1@hotmail.com)
Prezado Prof. Emilio Haddad,
O senhor solicitou a promoção para Associado 3 na primeira etapa do processo. A CAS
de Arquitetura, Urbanismo e Design solicitou, conforme estabelecido pelas regras,
pareceres de três especialistas em sua área de atuação. Dois dos pareceristas indicados
entendem que o senhor não teve atuação merecedora para a promoção requerida,
argumentando suas opiniões. Olhando-se os cinco quesitos analisados por eles, observase
a seguinte distribuição de conceitos:
• Excelente: nenhum
• Muito bom: nenhum
• Bom: dois
• Regular: cinco
• Insuficiente: três
O terceiro parecerista, em uma avaliação bem mais sucinta, atribuiu três conceitos
Excelente e dois conceitos Muito Bom.
A CAS emitiu, então, um parecer circunstanciado levando em consideração o memorial
apresentado e as opiniões dos especialistas e decidiu pela não aprovação da promoção.
A CCAD homologou, em vista do argumentado pela CAS, esse resultado.
O senhor recorreu da decisão tecendo uma série de considerações. Um novo especialista
foi acionado o qual, ao emitir o seu parecer, não contestou os pontos do parecer da CAS
que a levaram àquela decisão. Após uma nova análise em todo o material, a CAS decidiu
pela manutenção da não recomendação de promoção, o que foi posteriormente
homologado pela CCAD.
O sonhor contestou novamente a decisão tomada pela CAS e pela CCAD. Argumenta
inicialmente que a CAS não acata o último parecer emitido. É importante salientar que o
processo de avaliação não depende, e não pode depender, de apenas um parecer, pois
são levadas em consideração uma série de aspectos e opiniões e a análise deve ser feita
de forma academicamente embasada.
Qualquer avaliação é feita levando-se principalmente em conta o trabalho recente do
docente, o que ademais é recomendado pelo inciso V do parágrafo 7 da resolução
5927/2011. O senhor se apega muito à expressão “não havia produção nos últimos dois
anos que a justificasse” como se esse tivesse sido o único aspecto julgado. Fica claro nos
primeiros pareceres que a avaliação foi muito mais global do que isso e todos os
aspectos mencionados no edital e nos critérios de avaliação da CAS foram considerados.
A CCAD está convicta de que o processo foi realizado com todo o cuidado e atenção que
merece, tendo sido feita uma análise qualitativa cuidadosa do trabalho realizado pelo
senhor embasando as manifestações da CAS e da CCAD.


Minha pretensão foi assim nocauteada com duros golpes (nem todos semilimpos). Fiquei absurdado e “tomado” a tal ponto que trouxe o causo para dentro do espaço deste blogue. Causo e causa amalgamados, numa postagem hermafrodita.

Para não me alongar ainda mais, vou ter que comentar a resposta na próxima postagem. Que terá o título: progressão não é promoção.






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