
1.
Alerta inicial: esta postagem, para ser mais bem
entendida, depende um pouco da leitura das anteriores. Acabou ficando muito
longa contrastando com o normal de minhas postagens que levam o tempo de um
suspiro para serem feitas. É que exigiu pesquisas, revisões e outros desvios de
minha desocupação.
2.
Montei uma analogia com uma luta de ringue,
tendo de um lado minha progressão horizontal na carreira docente, e de outro
lado seu oponente – e um nome adequado para esta criatura representada pelas
comissões de avaliação seria: minha regressão.
3.
O primeiro round constou da submissão de um
memorial à Comissão Setorial de Avaliação, e sua análise por três assessores.
Fui mal avaliado por dois deles. O problema é que muitas notas baixas foram
injustas, e decorrera, em grande parte, do texto inadequado que redigi para o
memorial.
4.
Muito a contragosto, porque teria
inevitavelmente que roçar em aspectos que deveriam ficar restritos ao foro
pessoal (como por exemplo problemas de saúde). Mas uma série de explicações
ficou devida e fui em frente, com um pedido reconsideração.
5.
No segundo round, o da reconsideração, a
Comissão escolheu um novo assessor de sua confiança, que por sua vez deveria
partir do material disponível, ou seja, dos primeiros pareceres e revê-los à
luz dos novos argumentos trazidos em consideração no pedido de revisão. O
parecer da reconsideração assim se manifestou:
6.
Assessor (Reconsideração)
Recomendado
3
Considero
significativo o percurso científico e intelectual do candidado. Tem uma obra
importante na sua especialidade, reconhecida nacional e internacionalmente, com
uma alta produção de trabalhos escritos, participação em eventos, orientações
de mestrados e doutorados.
Ele
merece a progressão solicitada.
E o Parecer Conclusivo (Reconsideração) foi
o seguinte:
Não
recomendado
A CAS,
após análise do parecerista que analisou o recurso do candidato e, após análise
do memorial do candidato decidiu por unanimidade manter o resultado de não
recomendar a progressão do candidato. O Professor Emilio Haddad realizou
concurso para Livre-Docência em 2010 e, nestes últimos dois anos, a CAS
considerou não haver produção que justifique sua progressão.
7.
O terceiro round da porfia, descrito numa
postagem anterior, se encerrou com a emissão do seguinte parecer:
O Prof. Emilio Haddad tem uma brilhante
carreira profissional, reconhecida pela CCAD, por todos os assessores ad hoc,
pelo assessor da reconsideração e pela CAS na avaliação do seu memorial. No
entanto, sua produção acadêmica concentra-se em período anterior à obtenção de
sua última titulação (Livre Docência em 2010). No conjunto, o candidato não
atendeu os critérios da CAS.
São Paulo, 21 de maio de 2013.
8.
Vamos reler o parágrafo juntos, meu caro
eventual leitor? O que a primeira sentença do parágrafo propõe de forma clara é
que o Prof. Emílio tem sua carreira profissional brilhante reconhecida por
todas as instâncias. O que significa que deve ser enquadrado na classe superior
entre seus pares. Certo? (Não para o
lado da regressão, como verão adiante).
9.
E que, no entanto, justifica o segundo
parágrafo, não vai ser assim porque sua produção acadêmica se concentra em
período anterior à obtenção de sua titulação. Certo? (semicerto ...)
10.
Dessa leitura, é legítimo depreender que no
final do 3. Round já se tinha tornado inquestionável o reconhecimento do mérito
do Prof. Emílio Haddad para que fosse recomendada sua progressão?
11.
No entanto, aparece um “no entanto” que serve de
empecilho para que minha progressão fosse recomendada: sua produção se
concentrar em período anterior a sua última titulação.
12.
Vocês não podem imaginar o tamanho da surpresa
que tive ao ler o parecer! Fiquei de queixo caído. Por mais “desligado” (absent
minded) que me concede a condição de professor/pesquisador, não me lembrava de
ter lido alguma coisa na Resolução que limitasse a análise dos pedidos ao
período posterior à última titulação. Até porque nada no mundo seria mais
contraintuivo, num processo em que mudança de regras impõe ajustes.
13. Fui
então reler o resolução e achei o seguinte, como condição para se candidatar à
progressão horizontal: Para a progressão são requisitos: “anexar ao requerimento memorial circunstanciado, em uma via impressa e
em formato eletrônico, que demonstre a existência de atividades acadêmicas,
destacando aquelas posteriores à última progressão de nível ou enquadramento em
categoria docente superior, observado o interstício preferencial de cinco
anos”.
14.
Li e
entendi o que está escrito (não poderia ser de outra forma): que o memorial deveria
destacar as atividades
acadêmicas, dentro do interstício preferencial de cinco anos, posteriores à
última progressão. Infelizmente, para nossa tristeza, os comitês preferiram
entender diferentemente do que está escrito: e o significado de destacando passou a ser se limitando!!
15.
Veio então o quarto round, este por minha
iniciativa, no qual me dirijo à CCAD, para um esclarecimento devido sobre a
leitura correta do texto da Resolução no que se refere à redução do interstício
preferencial de cinco anos, para apenas dois. Observei a incoerência disso no
caso da nossa Faculdade, exemplificando com o caso de professoras que progrediram
na carreira, fazendo concurso para Titular dois anos após terem feito a Livre
Docência.
16.
O assunto foi colocado na pauta da CCAD em
meados de setembro passado. Iniciado o ano novo, fui verificar minha lista de
assuntos pendentes, e verifiquei não ter obtido resposta, cobrei e vejam abaixo
o e-mail que recebi.
17.
Ao lê-lo me lembrei de uma blague que meus
amigos franceses faziam em Berkeley, quando não entendiam o que diziam em suas
palestras os filósofos conterrâneos que oportunamente lá desembarcavam nos anos
70. “Il faut bouleverser la dialectique”.
Re: Progressão horizontal do Prof. Emilio
Haddad
De: carreiradocente@usp.br
Enviada: sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
14:30:50
Para: Emilio Haddad (emhaddad1@hotmail.com)
Prezado Prof. Emilio Haddad,
O senhor solicitou a promoção para
Associado 3 na primeira etapa do processo. A CAS
de Arquitetura, Urbanismo e Design
solicitou, conforme estabelecido pelas regras,
pareceres de três especialistas em sua área
de atuação. Dois dos pareceristas indicados
entendem que o senhor não teve atuação
merecedora para a promoção requerida,
argumentando suas opiniões. Olhando-se os
cinco quesitos analisados por eles, observase
a seguinte distribuição de conceitos:
• Excelente: nenhum
• Muito bom: nenhum
• Bom: dois
• Regular: cinco
• Insuficiente: três
O terceiro parecerista, em uma avaliação
bem mais sucinta, atribuiu três conceitos
Excelente e dois conceitos Muito Bom.
A CAS emitiu, então, um parecer
circunstanciado levando em consideração o memorial
apresentado e as opiniões dos especialistas
e decidiu pela não aprovação da promoção.
A CCAD homologou, em vista do argumentado
pela CAS, esse resultado.
O senhor recorreu da decisão tecendo uma
série de considerações. Um novo especialista
foi acionado o qual, ao emitir o seu
parecer, não contestou os pontos do parecer da CAS
que a levaram àquela decisão. Após uma nova
análise em todo o material, a CAS decidiu
pela manutenção da não recomendação de
promoção, o que foi posteriormente
homologado pela CCAD.
O sonhor contestou novamente a decisão
tomada pela CAS e pela CCAD. Argumenta
inicialmente que a CAS não acata o último
parecer emitido. É importante salientar que o
processo de avaliação não depende, e não
pode depender, de apenas um parecer, pois
são levadas em consideração uma série de
aspectos e opiniões e a análise deve ser feita
de forma academicamente embasada.
Qualquer avaliação é feita levando-se
principalmente em conta o trabalho recente do
docente, o que ademais é recomendado pelo
inciso V do parágrafo 7 da resolução
5927/2011. O senhor se apega muito à
expressão “não havia produção nos últimos dois
anos que a justificasse” como se esse
tivesse sido o único aspecto julgado. Fica claro nos
primeiros pareceres que a avaliação foi
muito mais global do que isso e todos os
aspectos mencionados no edital e nos
critérios de avaliação da CAS foram considerados.
A CCAD está convicta de que o processo foi
realizado com todo o cuidado e atenção que
merece, tendo sido feita uma análise
qualitativa cuidadosa do trabalho realizado pelo
senhor embasando as manifestações da CAS e
da CCAD.
Minha
pretensão foi assim nocauteada com duros golpes (nem todos semilimpos). Fiquei
absurdado e “tomado” a tal ponto que trouxe o causo para dentro do espaço deste
blogue. Causo e causa amalgamados, numa postagem hermafrodita.
Para não me alongar
ainda mais, vou ter que comentar a resposta na próxima postagem. Que terá
o título: progressão não é promoção.
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