quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Visto de saída do país






https://familysearch.org/search/collection/results?count=20&query=%2Bgivenname%3AEmilio~%20%2Bsurname%3AHaddad~&collection_id=2140223


A FamilySearch.org (ligado à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos dias -- mórmons) promove um trabalho coletivo de genealogia pela rede mundial. O saite disponibilizou, entre outras bases de dados, cópias escaneadas das fichas de registros de estrangeiros com residência no estado de São Paulo, que imigraram entre os anos de 1902 e 1980. Estas fichas foram produzidos pela Secretaria de Segurança Pública e se encontram hoje no Arquivo Público do estado de São Paulo. Pesquisei e encontrei a ficha de meu pai Said Haddad, de minha mãe Maria Abboud Haddad, e a minha própria ficha.

No arquivo -- houve mistura de chegadas e saídas -- e acabei achando também a ficha da figura -- que se refere a um requerimento de visto de saída do país, que submeti há 42 anos atrás. Naquele ano de 1973, eu ainda não houvera obtido minha cidadania brasileira, o que em nada prejudicara minha vida num país acolhedor.

Encontrava-me no Brasil para passar o Natal com a família, que não tinha encontrado por um ano e meio. O pedido de visto de saída do país tinha como objetivo permitir meu regresso à Berkeley para concluir meu mestrado em planejamento urbano e viajar pela Europa nas férias.

Vivíamos sob o regime militar, que restringia certas liberdades, como a de sair do país sem pedir licença. No meu caso, o visto era sempre um pouco demorado para ser concedido em virtude de possuir um homônimo que era lider do partido de oposição em Minas Gerais. Nunca cheguei a conhecer o outro Emílio Haddad, que era uma pessoa muito querida.

Com a redemocratização do país o visto de saída foi abolido; as companhias aéreas fornecem a lista de passageiros às autoridades. Cada vez sobravam mais folhas em branco nos meus passaportes.

Há muitos aspectos interessantes neste documento: o que parece mais chamar a atenção é o meu par de óculos sem aro -- à la Trotski -- que era na época quase um distintivo da esquerda intelectual. E  como eu tinha cabelo!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sayadieh






Promovemos um jantarzinho com parentes e alguns amigos por ocasião de meu aniversário natalício. A cada ano escolho um prato que eu mesmo faço questão de preparar (há aí séria controvérsia, em virtude de ajuda que me dão na cozinha “para evitar bagunça”); deve ser saboroso e surpreendente por ser pouco conhecido da grande maioria dos convivas. Por exemplo: numa vez, foi uma sopa creme (“chowder”) com pedaços de salmão e dill servida fria, que conheci no jantar de um congresso de urbanismo que participei em Helsinki; outro ano, um tipo sopa de dióspiros, com canela e vinho do Porto, que conheci num jantar familiar que nos ofereceram na cidade do Porto; ou, ainda, aproveitando um vidrão de creme de castanhas que eu trouxera do Chile, um “Mont Blanc aux marrons”.

Neste ano, cismei em perpetrar um clássico da culinária libanesa, que não tenho comido e tampouco visto por aí, chamado “sayadieh”. Coloquei como um grande desafio, pois iria contar apenas com a memória e um conjunto de receitas e vídeos disponibilizados na Internete.

O sayadieh é basicamente um prato feito com arroz e peixe, acompanhado de cebola e pinholes torrados  e especiarias, que deixam o arroz escuro. Um certo trabalho pois é preciso fazer um caldo onde entra a cabeça do(s) peixe(s) com o qual o arroz é cozido. Fica com uma apresentação bonita. Posso arriscar que seja um precursor da paella, porque o peixe é servido por cima do arroz.

O “meu” sayedieh acabou avaliado bom para muito bom, mas ainda umas 500 milhas daquele que vovó fazia.

Cometi naturalmente erros, típicos da inexperiência. Confesso um deles, para ilustrar. O tamanho do peixe. A receita que eu tinha, para 15 pessoas, falava em 2 kg de peixe. Para o número previsto, eu precisava de 3 quilos. Na peixaria, onde deveria ter chegado bem mais cedo, comprei um peixão de 3 quilos, quando o correto seria comprar dois peixes de 1 quilo e meio, que teriam uma superfície externa maior, ficando mais bem frito, mais gostoso, e dando bem menos trabalho para processar.

Servi com um molho tarator, o que nem sempre é feito, mas que valorizou bem o sabor.

A culinária é um processo de aquisição de segredos irreveláveis – bem lembrando que conhecimento é poder.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Irmão






Dormíamos no mesmo quarto, até quando ele se casou. No começo, eu achava estranho aquela cama vazia, que acabou virando um sofá. Nove anos depois quem casou e mudou fui eu. E hoje o quarto serve de sala de televisão para minha mãe. Um resto de coisas minhas (tipo velhas fotos e material de escola) que ela (agora com menos ímpeto) ameaça jogar tudo pela janela.

Cada um seguiu sua vida, posso dizer que foi paralela em trabalho e honradez; sempre me atribuíram a pecha de ter sido mais folgado. Um entendimento mútuo devido aos fatores naturais (DNA) e adquiridos pela mesma educação. 

Num desses almoços dominicais no apartamento da família, em que mamãe caprichava na culinária árabe, pedi ao meu mano Sérgio para que adivinhasse qual foi o filme que eu tinha assistido no voo de retorno da Europa que acabara de fazer. Ele imediatamente respondeu: "Singing in the rain". Como é que ele tinha adivinhado? Eram mais de 50 películas disponíveis. Ele explicou: porque também ele houvera selecionado este filme clássico para assistir no seu voo de retorno da Europa. 




quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Feliz ano novo



Old Father Time Baby New Year Playing Cards Clock 1920 Happy New Year



Mais na casa de minha avó em Jundiaí, que eu me lembre, nesta época do ano chegavam as chamadas "folhinhas", com uma página para cada mês ilustrada com um alegoria da época. Ela recebia como cortesia de um posto de gasolina, da vizinhança.

O mês de janeiro sempre tinha a figura de um menino representando o ano novo, em postura dialética com a figura de um velho de barba branca comprida, representando o ano velho. O mesmo ocorria na página do mês de dezembro:com uma diferença, no fim do ano, aquele que era o menino passava a ser o velho. Essa explicitação do ciclo da vida me assustava um pouco. 

Não tinha jeito para ser como o Peter Pan, e ficar uma criança esperta, para sempre?


sábado, 12 de dezembro de 2015

Dead week






Nas universidades norteamericanas (e canadenses, por suposição), esta semana que se interpõe entre o término das aulas e o início dos exames finais é a dead week -- uma semana morta, oficialmente (ou semi) dedicada apenas aos estudos e a entrega dos trabalhos finais. Atividades culturais e sociais ficam suspensas. 

Em Stanford, onde estudei, as bibliotecas ficavam abertas as 24 horas do dia, e as salas de estudo cheias de gente comendo e bebendo produtos daquelas vending-machines, enquanto fazia estudar. Consumia-se comprimidos de NoDoz -- pura cafeína.

Excepcionalmente não tinha o "Sunday flick", filme de domingo à noite promovido pelo grêmio ao preço de um dólar, que reunia a moçada para a culminância do fim de semana.

A Dead Week era desses semiradicalidades da sociedade tipo anglosaxã -- comparável à lei seca. Parar tudo para ficar só estudando.

A vida de aposentado acaba se desalinhando destes momentos típicos da vida acadêmica; não tenho mais que viver a morta semana, tampouco avaliar os exames finais. Só restam férias (sem interrupções para provas de recuperação). 



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Aconteceu no Jardim Europa




Cartoon: stop the Zoo Jail! (medium) by Munguia tagged stop,walfare,suffering,animal,cruel,jail,animals,zoo




Pouco antes das nove horas da manhã, sigo pelas calçadas de casa até o fitness. No caminho, um edifício de apartamentos do tipo alto luxo recém terminado, e como soe nestes casos, os proprietários novo ricos fazem obras para adaptar ao seu gosto.

O regulamento do condomínio só permite que obras sejam realizadas a partir das 9 horas, e no momento em que passo há sempre uma grande fila de operários que devem se identificar na portaria para obter acesso. São dois portões de grade, formando um tipo chiqueirinho, onde o grupo fica aguardando para entrar, um de cada vez.

Nesta manhã, eu ia seguindo meu caminho rotineiro; vi em minha frente na calçada uma destas mocinhas atraentes com trajes de verão "desfilando" diante do chiqueirinho lotado. Um alvoroço! Na hora do almoço, comem de marmita

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Bem casados







Dezesseis anos são passados desde que re-encontro Camilinha -- amiga de adolescência -- na fila do banco, vestida em trajes de ginástica, uma faixa prendendo os cabelos, e pusemos a "vida em dia". Me contou de duas novidades no seu "status": ela houvera recém se aposentado e, não menos recentemente, casado.

Passados alguns meses ela me ligou: "Emílio, o Luiz Álvaro, meu marido, e eu pensamos no seguinte: gostamos de reunir os amigos para festejar nosso aniversário e notamos que são praticamente os mesmos. Por isso ao invés de cada um de nós dar uma festa de aniversário, decidimos fazer uma festa só, maior e mais elegante. E para não privilegiar um ou outro, escolhemos a data do nosso casamento. E gentilmente me convidou para a festa, da qual tenho participado todos estes anos.

Os aniversários se fundem na comemoração anual das bodas do casal. Um sentimento de permanência advém de que o local da festa é a casa dos pais da Camilinha, que acabou herdando e mantendo o mobiliário, os quadros e peças decorativas. Alguns ritos de festas de casamento são preservados, como a decoração de flores, a música ao vivo, a valsa, o bolo cortado a quatro mãos, a taça de champanhe sorvida com os braços entrelaçados, o beijo sob aplauso. Camilinha e Luiz Alvaro carregam a imagem bíblica de que com o casamento o casal passa a ser "uma só carne".

Com a prerrogativa de noivinha, a cada aniversário, Camilinha escolhe uma cor como temática,  e solicita aos seus convidados que se trajem com a cor escolhida.

Nas recepções de casamento, é costumeiro encontrar os "bem casados", que ficam em geral empilhados na entrada dos salões -- para a gente pegar na saída e levar nos bolsos para casa. Nas festas na casa da Camilinha e do Luiz Álvaro estes não poderiam deixar de comparecer. Afinal são bem casados!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Passado e presente


minha sala de aula no 4. ano primário (1957). Eu sou o penúltimo na fileira da direita.


em 2015, tinha sido divida em duas e são ocupadas pelo diretor do colégio: 





segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Semiparafraseando Drummond





(inspirado na situação da foto)

na escrivaninha tinha 
um par de óculos
tinha um par de óculos 
na escrivaninha tinha
um par 
no meio dos cabos tinha um par.

onde esqueci meu par de óculos?
rotina de minhas retinas 
tão fatigadas







sexta-feira, 27 de novembro de 2015

California Dreamin




Quando, em dezembro de 1970, conclui meu curso superior, me formando concomitantemente Engenheiro Civil e Bacharel em Física, ambos pela USP, tinha sido estudante (do tipo militante) por toda minha pequena vida. Por inércia, prosseguir os estudos se colocava como um passo lógico. Tinha necessidade de ampliar meus horizontes complementando a lambida de ciências humanas, arte e política que me foi permitido naqueles anos, nos quais havia a censura.

Pouco a pouco se encorpava um sonho: ir para os Estados Unidos, entenda-se Califórnia, onde a contracultura pipocava. Uma vontade de trocar um lugar onde nada se podia, por outro em que -- ao que parecia -- tudo se podia.

Precisava na época de ambos: ser aceito numa universidade na região de San Francisco -- a Meca do Flower Power -- e obter uma bolsa que viabilizasse minha estada lá

A aceitação na Universidade não foi tranquila. Para o centro do poder, São Paulo e Bombaim eram a mesma coisa. Mas tive a felicidade de poder contar com a  ajuda generosa do pai de uma amiga querida de nome Vera: o Prof. Tolle que mantinha uma amizade fraternal com o Prof. Aldo Vieira da Rosa (um dos responsáveis pela criação do CNPq), o qual dava aulas em Stanford, onde acabou se tornando professor emérito. Numa de suas vindas a São Paulo, fui até o sítio que o Prof. Tolle tinha em São José dos Campos, onde o mesmo promoveu minha apresentação ao Prof Aldo, que estava pendurado num galho de árvore de cabeça para baixo, esperei que ele descesse e expus o meu interesse.

Ele pegou o material que eu tinha de Stanford,e notou o nome do Chefe do Departamento de Engenharia Civil, Prof. James Gere, que coincidentemente era seu companheiro de jogging, todas as manhãs. Montou a estratégia: anotou meu nome como candidato num papel, e numa manhã iria deixar o James chegar na frente da corrida. Naquele momento de felicidade ele iria tirar do bolso o papel com o meu nome. Não demorou muitos dias, chegou a carta de admissão.

A bolsa de estudos também foi fruto de alguma casualidade. Escolhi como meu primeiro emprego o Instituto de Pequisas Tecnológicas do estado de São Paulo - IPT, que tinha uma política de enviar seus jovens técnicos para fazer pós-graduação no exterior. Quem cuidava desse programa era o Prof. Paulus Aulus Pompéia, que tinha trabalhado no projeto do ITA com o Paulo Tolle e o Aldo Vieira da Rosa. (Dediquei uma postagem ao Prof. Pompéia -- vide  http://semidesocupado.blogspot.com.br/2015/06/paulus-aulus-pompeia.html). O Prof. Pompéia, cientista muito respeitado, intermediava os pedidos de bolsa no exterior dos ipeteanos junto à FAPESP.

Neste ponto, as forças cósmicas que regem o destino fizeram chegar uma carta de Stanford dizendo que meu conhecimento de inglês (medido pelo TOEFL) era insuficiente e que eu precisaria me aperfeiçoar no idioma, e mandaram um formulário de inscrição para um curso oferecido pelo seu departamento de Linguística. Na parte inferior do formulário tinha um quadradinho que chequei pedindo um bolsa de estudo para o curso. E eu ganhei! (um estudante do Brasil, país em desenvolvimento, merecia mais ajuda do que um japonês ou alemão, mesmo).

A assessoria da FAPESP estava dividida com relação a aprovação do meu pedido de bolsa, em boa parte porque o campo que escolhi -- planejamento urbano -- era pouco conhecido no Brasil, E também não me acompanhavam boas notas no boletim, incompatíveis com tardes de passeata, noites de assembléia e madrugadas de pichações.

Desta vez foi o Prof. Pompéia que montou a estratégia. Me perguntou se eu tinha dinheiro para a passagem (fiz um empréstimo de um pai rico de um aluno particular). E disse que iria obter meu afastamento remunerado do IPT para eu fazer o curso de inglês. No pior cenário, eu retornaria com um inglês aprimorado.

Um dia muito bonito de verão californiano recebo uma carta do Prof. Pompéia -- acho que ele escreveu semi-rindo, dizendo que se encontrou com o Presidente da FAPESP para discutir alguns pedidos de bolsa, e recebeu a notícia que meu pedido tendia ser denegado. Ele então lhe informou: "O Emílio já foi".




quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Minha primeira neve




Stanford University, com a vista do branquinho da neve no topo da serra


Meio desnecessário dizer que minha primeira visão da neve não aconteceu no Brasil. 

Era dezembro de 1972, próximo do início do inverno no hemisfério norte, depois de uma noite muito fria, quando ia para a faculdade em Stanford, vi o branquinho no topo da serra que passava atrás da faculdade. Peguei o carro e guiei morro acima, bem agasalhado e não menos animado, para chegar até neve e ver do que se tratava.

Fui sozinho porque achei que seria um tanto caipira, convidar alguém para me acompanhar até a neve -- e acabou sendo melhor assim, pelo que vou confessar em seguida. Quando cheguei no topo, havia sim uma camada não muito espessa de gelo cobrindo partes do chão de pedra, e fui andar em cima. Levei um escorregão e caí sentado, molhando a calça jeans. Meu traseiro pode constatar como o gelo é gelado.

PS - :Passados alguns dias voltei até a neve desta vez na região do Lake Tahoe onde tive aulas de esqui "downhill". Parafraseando o Paulo Vanzolini, "homem de moral", levantei, sacudi a poeira e dei "voltas por cima"

domingo, 22 de novembro de 2015

Aconteceu em Lisboa



No mundo todo, é crescente o interesse pelo futebol. Nos últimos anos temos visto florescer em países que não tinham tradição.  Além dos campeonatos nacionais, são promovidos campeonatos pelos continentes, como é o caso da Liga dos Campeões da Europa. Há campeonatos entre nações, como a Copa América, e naturalmente a mais importante de todos que é a Copa do Mundo, que atrai bilhões de telespectadores.

Tal popularização foi consolidando  muitos interesses comerciais envolvidos, principalmente de produtos de consumo de massa, se destacando a Coca-cola. Surgiram os Sport Bars, uma aliança do esporte com as cervejarias; num quadro negro na porta de tais bares, o horário dos jogos a serem televisionados na semana, disponíveis mediante o consumo.  Para os jogos de maior interesse, colocam-se telões.

Passes de jogadores atingem valores da ordem de 50 milhões de euros. A FIFA – Federação Internacional de Futebol Association, órgão responsável pela regulamentação e promoção do futebol no mundo vira uma caixa de ressonância desses interesses, tendo se tornado um poço de corrupção.

Em viagens, costumo aproveitar para aprender um pouco sobre a situação local, que inclui a política e o futebol. Aos poucos, meu "espaço" futebolístico que se resumia ao campeonato paulista quando comecei a acompanhar esse esporte, foi se globalizando: passei a me familiarizar com novos clubes e jogadores que se destacam vindo de outros países.

Nos bares que ficam em saguões dos hotéis é costumeiro passar jogos ao vivo. Uma noite me encontrava em Lisboa quando retornei ao hotel onde estava hospedado, tendo adentrado o hall quando o futebol havia recém terminado. Embora  apenas semissoubesse  quais times jogaram, curioso, perguntei  a um dos espectadores que deixavam o salão: “Quem ganhou o jogo?”. Resposta com sotaque local “Eles” .


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Memória de um país dilacerado


Mausoleu de Saladino - Damasco 




Mosteiro grego-ortodoxo de Nossa Senhora de Saidnaya


No momento em que escrevo esta postagem, a Síria serve de palco de uma sangrenta batalha, que envolve uma complexidade de facções, de base étnica, religiosa e da "grande política". É muito triste o cenário de destruição que aparece na imprensa e comovente o drama dos milhões de refugiados. São chocantes as cenas de barbárie veiculadas na imprensa. Estima-se, até o momento, mais de 250 mil mortos e um sem número de feridos, com condições precárias de atendimento médico. 

No ano de 1974, fui "passar o dia" na Síria. Fui para lá de carro conduzido por meu tio que mora no Líbano, ele gostava muito de ir a Damasco, cidade onde fez seu curso de medicina. Damasco ficava à beira de um rio e a presença da água trazia uma conotação de oásis. 

O contraste com o Líbano era muito grande: foi pela primeira vez que me senti no Oriente, ouvindo os sons dos minaretes, e uma certa discrição do povo trabalhador, não sei até que ponto reflexo de um regime mais autocrático do presidente Assad, o pai. Percebi o quanto o Líbano era uma gostosa bagunça. 

Guardo bem na memória esse dia encantador, meio mágico, conduzido por meu tio, de nome Rachid Haddad que conhecia as ruas e becos dessa cidade antiga, com muita história: tinha comerciantes amigos e encheu o carro de frutas para levar para casa. Chegamos no suk, na hora do almoço e o silêncio das lojas fechadas indicava que o pessoal estava na vizinha grande mesquita  (dos Omíadas). 

Fomos visitá-la, deixando o sapato na porta; eram tantos que duvidava que alguém seria capaz de achar o próprio quando saísse. Meus pais sempre contavam que a mesquita houvera sido uma igreja bizantina, e que dentro estava o túmulo de São João Batista, e vi que era verdade -- nem tudo o que o pai diz é invenção. Quando saímos, a reza havia terminado, e era totalmente outro o ambiente que se via, muita gente, uma gritaria de vendedores. 

Fomos almoçar num restaurante muito elegante, e uma comida mais elegante ainda. No caminho passamos por uma construção pequena mas muito bonita e bem mantida: o mausoléu do sultão Saladino, e me lembro dos guardas que devem ter sido selecionados pelo portento do bigode. 

Meu tio era de religião grega ortodoxa e fez questão de esticar até Saydnaya, vilarejo muito bonito numa região mais árida, para que eu conhecesse o mosteiro, local de peregrinação, onde ele tinha batizado seus filhos. 

Inesquecíveis os artesanatos, doces e os sorvetes da Síria!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

XV





Muitas datas nacionais tem sido apropriadas para servirem como nome de ruas ou avenidas, ou para nome de associações ou clubes de futebol: sete de setembro, treze de maio, quinze de novembro. No caso desta última, que corresponde à data da proclamação da república no Brasil, muito provavelmente por sua fonalidade, o povo prefere dizer apenas "quinze", que é uma palavra dotada de uma "força e luz" própria, deixando implícito o mês, 

(Para nossa republicanização, por sua relativa pacificidade  -- não tivemos enforcamentos e tampouco tomada de alguma bastilha -- é muito ter dia e mês).

É por exemplo o caso paradigmático do time de futebol, da cidade de Piracicaba, "Quinze de novembro", referido sempre como XV de Piracicaba. No impagável hino do time -- que é acima apresentado na sua versão heavy metal -- se aclama o "quinze", como grita a torcida, ao invés do "quinze de novembro".

O mesmo se dá com a famosa Praça XV, no centro da cidade do Rio de Janeiro...

Para os numerólogos e afins: quinze é o produto de dois primos entre si. 





quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Derrapada patriótica




Fazia meu curso de Master of City Planning em Berkeley, quando aproveitando as pequenas férias escolares de Natal e Ano Novo (que era o de 1974), fiz uma memorável viagem de carro até a cidade do México, indo pela Baixa California, e voltando por Nogales, na fronteira com o estado do Arizona. Fiz a viagem acompanhado de um colega francês, Christian Chemla, estudante de engenharia de transportes. 

Recomendaram que, antes da viagem, preparasse meu Mustang para conseguir tragar a gasolina que serviam no interior do México. As velas (eram 8) foram trocadas. 

Quando estávamos chegando a Guadalajara, o carro começou a falhar. Levei a uma oficina, dessas grandes, e quando fui retirá-lo soube que o que fizeram no carro foi justamente trocar as velas! Falei que aquilo não precisava ser feito pois as  mesmas tinham sido recém trocadas. (Velas em castelhano se diz bujia, que até então era para mim uma macaca).

Destrocaram a vela, e resolveram cobrar a mão de obra!! Seguiu-se um bate-boca, e não me recordo em que termos falei algo a respeito de não levar comigo uma boa imagem do México. Não sei o que um senhor, que por ali estava, entendeu e começou a gritar comigo que se não tivesse satisfeito que voltasse para minha terra. E elevando cada vez mais a voz prosseguiu, dizendo que não admitia que o México fosse insultado. Aquela parte ao lado do globo ocular ficando cada vez mais vermelho, vociferando que deveria mandar me prender. 

Achei melhor ficar quieto e pagar a conta, quando o caixa me informou que -- se entendi bem -- o tal senhor era o chefe da polícia de Guadalajara. Fui me explicar com ele, dizendo sermos amigos, até porque foi naquela cidade, no estádio Jalisco, que o Brasil tinha pavimentada a conquista da copa do mundo de futebol em 1970. Acho que funcionou, pois se despediu de mim dizendo: "Que te vaya bien!"


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Marinheiro de primeira viagem






Enquanto bebê, foram percursos mais curtos e ele ficava dormindo. A primeira viagem (de maior duração) que fizemos de carro com o Francisco foi em 1989; morávamos em Berkeley, California, e fomos para Portland, no vizinho estado do Oregon, onde fui participar do encontro da ACSP - American Colegiate Schools of Planning que lá se realizava. Uma rota de mil quilômetros em cada direção, atravessando verdes parques nacionais onde se explora a produção de madeira. Na volta retornamos pela sierra, o que nos permitiu uma esticada para ver a deslumbrante água azul profundo do Crater Lake. 

Imaginem o que era a cabecinha de um menino de 3 anos querendo entender as horas sentadinho, preso por cinto de segurança, no banco traseiro de um carro em movimento! E sem noção do tempo que faltava... Uma condição comparável ao período sob anestesia geral quando somos submetidos a cirurgias. Para lhe dar um refresco, parávamos de vez em quando numa das muitas lanchonetes de fast-food tipo MacDonalds, ou Burger King, onde a comida vinha acompanhada por algum brinde.

Foi uma viagem de dois dias. Na ida, pousamos num motel numa pequena cidade do Oregon. Após nos acomodarmos, perguntamos à senhora dona do motel onde é que poderíamos jantar com uma criança. Ela deu o nome de um restaurante familiar, do outro lado da estrada, e disse que lá serviam o que toda crianças gosta, que reduziu a: pizza, hambúrguer e batata frita.

O raio é que adultos também gostam muito de pizza, hambúrguer e batata frita; a diferença é que tendem a gostar também de algumas outras coisas que nem sempre as crianças apreciam, como a cerveja, o jiló, o grapefruit, queijo Roquefort ou o pickles de pepino. 






quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Forjando amizades



Ex-alunas: Mônica, Camila e Fabiane 

Em uma postagem anterior (http://semidesocupado.blogspot.com.br/2013/11/resta.html) fiz uma breve reflexão sobre essa coisa de ser professor. Comparei com a atividade de outros profissionais, como engenheiros que podiam exibir as obras em que trabalharam, arquitetos,idem com as obras que projetaram, médicos obstetras, que podem contabilizar quantos bebês ajudaram a vir ao mundo, e assim vai. 

A "produção" do professor é quase sempre imaterial, ou de difícil demonstração: por exemplo, como apontar o que foi a formação e o conhecimento que "passou" para seus alunos? 

Fiquei feliz em ver postado no Facebook o retrato sorridente do re-encontro de três alunas minhas que se conheceram como colegas no curso de MBA em Desenvolvimento Imobiliário, que coordenei, até antes de me aposentar. Pelo sorriso, o leitor pode estimar o quanto foram boas alunas. Aproximar é importante componente do processo educacional. Como bem definiu nosso poetinha:"A vida é a arte do encontro"

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O elevador das nove






Tenho ido ao fitness  para me exercitar no horário das 9 às 10 da manhã. A "academia" fica no quinto andar de um complexo esportivo, que inclui duas piscinas olímpicas aquecidas, uma quadra com arquibancada, alguns salões para aulas em grupo como é o caso do balé infantil, ioga, alongamento etc., um grande salão dividido em quadras poliesportivas, salas de fisioterapia, vestiários, uma lanchonete que vende produtos naturais e energéticos.

O edifício dispõe de dois elevadores compartilhado por diferentes tribos e biotipos que usam aquelas facilidades. Cada elevador pode levar até 32 pessoas. Aquele que eu costumo pegar concentra as pessoas que começam suas atividades esportivas no prédio às nove, e que inclui uma moçada muito alta, que quase bate a cabeça no teto, que são do time de volei; no outro extremo de altura as pequenas com uniforme de balé, que é rosa, e uma touca prendendo o birote; muitas avós.

A maioria dos homens é constituída por "personal treiners", outros vestidos de terno e gravata, já estão seguindo para o trabalho. Usando uniforme de ginástica são geralmente aposentados ou semi (como é meu caso), que podem ir um pouco mais tarde. Fica no ar um cheiro misto de desodorantes.

Nesta semana, enquanto ia indo, cruzei com Marília e Guto, um casal vizinho esportista que já estava de retorno do seu treino matinal e ia para o trabalho. "Você está com a vida feita, hein", brincaram comigo, dado o adiantado da hora.

sábado, 31 de outubro de 2015

Bife de baleia







(Obs - a imagem original -- que foi bem notada pelo Marcelo Giacaglia como sendo a de um tubarão baleia, foi substituída por esta, de uma baleia-baleia)



Eu era criança quando havia uma atividade de pesca e a comercialização da carne da baleia na costa atlântica. Era praticada por empresas japonesas -- uma conhecida era a Tayo. O animal era dividido ao ser descarregado do barco baleeiro em pedaços enormes que chegavam a ocupar um caminhão inteiro. Este fazia o transporte direto até uma praça em São Paulo, onde era retalhado para ser vendido a um público majoritariamente de donas de casa que chegavam a fazer fila.

Sobre um caminhão ensanguentado, os pescadores/vendedores vestiam uma roupa especial branca e iam retalhando os pedações de baleia em filés, com a ajuda de diferentes tipos de facões -- um deles de cabo muito comprido e lâmina curva parecido com aqueles usados para cortar cana. Era bem impressionante. 

Acompanhei um par de vezes minha mãe para ir comprar a carne de baleia, cuja pesca foi há muitos anos proibida por aqui; a baleia é um mamífero, e sua carne se assemelha à carne de vaca, mas com a leveza de um pescado. Muito boa. 

De quebra, os caminhões também dispunham para vender enormes atuns, com os quais mamãe fazia deliciosa conserva -- é bem fácil e já aprendi a fazer. 


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Noite "quente" em Praga

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(Observação: Esta deve ser lida em continuidade à postagem anterior, servindo de contraponto)

Que as coisas deveriam ser um tanto barra-pesada na República Checa, deu para intuir quando fomos alugar um carro em Berlim. Ângela, Francisco e eu deveríamos retornar à Frankfurt para pegar o voo de volta para o Brasil, dali a uma semana. Praga foi incluída em nosso roteiro. 

Alugamos um carro Mercedes Benz -- que a locadora não permitia que entrasse no território checo --porque o seguro não cobria o risco. Para ir e voltar até a bonita cidade de Praga, tivemos que fazer uma troca na bonita cidade de Dresden por um Ford Focus, retomando o Mercedes quando ali retornamos para prosseguir a viagem. 

Era o início de agosto de 2007, e tinha chegada a hora e a vez de Praga como importante destinação turística; estava inundada de visitantes, alvo de uma neo-rapinagem fácil. Muita coisa transpirava a exploração grosseira, com a moralidade vale-tudo de um capitalismo ainda primitivo. (Fico devendo detalhes) Guardei uma imagem muito ruim totalmente incompatível com a beleza do lugar e a tradição culta de seu povo. 

Mas vamos ao causu. Diferente do que normalmente ocorre em outras cidades, o metrô de Praga não tinha bilheteria, nem catracas, que facilitariam a vida. A gente precisava encontrar uma tabacaria onde se vendiam os bilhetes.

Usei o metrô para ir conhecer o centro velho, e na volta, acabei sorteado em meio a uma multidão que voltava para casa, por um fiscal grandão que ficava de tocaia no corredor de entrada, uma "zona de caça", que pediu para ver meu bilhete -- que por azar tinha a validade ultrapassada 20 minutos. E fui multado, um valor barato pois afinal o atraso resultou de ter visto o espetáculo do Orloj anunciando a mudança de hora

Turista brasileiro, acompanhado de mulher e filho, usando o metrô pela primeira vez, a menos de 24 horas num país em que desconhece o idioma, com informações contraditórias, não interessa ... Argumentei que fora vítima de um evidente engano, mas o meganha não dispunha mecanismo pessoal algum  para usar alguma tolerância que subrogou pela prepotência. Nos acompanhou até um caixa eletrônica para que sacasse o dinheiro para pagar a multa -- que ele mesmo embolsava. Me fez retirar mais dinheiro porque eram 3 as infrações, tentei relutar e ele açodando começou a telefonar para a polícia. 

Muitas vezes nos refletimos na alteridade: me identifico muito mais com o sistema do guarda florestal de San Gregório (vide postagem anterior) do que o daquele praga de Praga. 



domingo, 25 de outubro de 2015

Sábado frio em San Gregório

Sinal proibido caminhada do cão
















Era o ano de 1973, eu era aluno de mestrado na Universidade de Stanford, e morava em Palo Alto com uma família de origem inglesa:os Lush. Num sábado à tarde Mr. Lush, cujo primeiro nome era Kenneth, me viu em casa meio de bobeira e acabou me convidando para acompanhar seus dois cachorrinhos até a praia. San Gregorio Beach ficava a uns 50 quilômetros dali, e se atingia por uma estrada estreita e sinuosa atravessando uma serra que tem como paisagem uma linda mata de pinheiros. 

A praia é um local bem frio que era trazido pelos ventos oriundos do Pacífico. (A propósito, fica ao lado de uma praia de nudistas e parece que passar frio deveria ser parte da atitude contestadora). 

O local faz parte de um parque estadual (San Gregorio State Beach) que não é "dog-friendly", acho que devido ao fato de que serve como santuário sazonal de uns animais marinhos meio feios. Mesmo assim Mr. Lush entrou no parque com os dois cachorrinhos e, naturalmente, foi citado por um guarda florestal. Na sua lógica de direitos dos animais, argumentou com o guarda que os cachorrinhos amavam ("loved") estar lá. 

O guarda tirou um talonário, destes que se preenche à mão, com cópia carbono, e fez um registro daquela transgressão. O interessante que, ao invés de multa, o que Mr. Lush recebeu foi uma advertência (warning) por escrito, e assinou um compromisso de não repetir o feito. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O sineiro




"Seu" Marino
(postado pela colega Serena Stampi)

Com a aproximação da festa de comemoração de 50 anos de formatura do curso científico do Dante Alighieri, há um compartilhamento de fotos muito antigas do colégio e de nossa turma. Na década de 50, em que o processamento de imagem vivia na pré-história, uma vez por ano ia um fotógrafo profissional tirar fotos da sala de aula, ou de nós enfileirados com a professora ao lado. E em alguns casos, montava um albunzinho. Acabou se tornando uma grande iniciativa -- perpetuando imagens branco e preto daqueles anos coloridos. 

No meio destas fotos, uma foi recebida com grande carinho: a do "seu" Marino, uma pessoa especial no trato de crianças. Entre outras coisas, era responsável por tocar o sino -- acho que de bronze -- que ecoava pelas paredes sérias da escola. Sineiros, como muezins, e outros arautos, têm o dom de enviar sons universalizantes.

Era muito esperada aquela badalada que anunciava a hora do recreio, e também o menos esperado fim do recreio. Ele tinha desenvolvido uma sequencia de badaladas -- que lembrava muito o tema inicial da 5a. de Beethoven -- que está impregnado na melhor parte de nossa memória afetiva.

Quando o colégio ia completar 100 anos, foi promovida uma reunião de ex-alunos, e de repente, reunidos no pátio, ouvimos o sino tocar aquele mesmo som... Era o Marino que tinha conseguido permissão para descer do céu.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Macete da maçaneta





Enquanto estudante na Universidade de Stanford, morei na casa de uma família -- eles eram ingleses -- em Palo Alto. Um banheiro servia o meu e mais dois outros quartos igualmente alugados a outros dois estudantes de pós-graduação de Stanford. Não estou bem seguro se por motivo de segurança, mas o código de obras local não permitia que banheiros pudessem ser trancados. 

Se a porta do banheiro estivesse fechada, o que era raro, eu aplicava tecnologia "tem gente?" de bater na porta para saber se estava ocupado. E sempre estava... 

Depois de quase um semestre descobri que havia um "código": cada usuário deveria deixar a porta aberta quando desocupasse o banheiro sinalizando desta forma a desocupação. No Brasil, o costumeiro era justamente o contrário -- deixar fechada a porta após o uso. 

Meu pensamento agora se volta para meus dois vizinhos de corredor -- o Larry e a Cathy -- quanto tempo não teriam perdido postados diante da porta do banheiro -- que eu tinha deixado fechada -- esperando alguém sair! Me sinto semiculpado.





sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Paraíso de Dante





(Gustave Doré, ilustração da Divina Comédia) 

Nesta semana, um grupo de ex-alunos do Colégio Dante Alighieri, que completa 50 anos de formatura, marcou uma pizzada, Embora não tenha completado o colegial com o grupo, pertenci a esta turma durante 6 anos (jardim e primário), mais do que suficiente para "fazer parte". 

O local do encontro era no piso de baixo da bonita pizzaria Dona Veridiana, e logo que me identifiquei na entrada a recepcionista me fez descer dois lances de escada. Dei de frente com um pessoal grisalho, e a gente ia se reconhecendo um e outro e dando abraços confirmatórios. Foram muito boas as lembranças de nosso convívio de meninos e meninas que fomos há 60 anos atrás -- época de muita inocência, que por algum motivo resolveu comparecer. 

Uma sensação de permanência daquele espírito era prenúncio de como vai ser congestionado o nosso reencontro no paraíso, como na Divina Comédia, obra prima do patrono de nosso colégio. Pude reconhecer minha Beatriz com jeito de matrona... 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Jejum





Rio Miranda (MS), data provável 1994

Mauro Negrão e sua mulher Sueli são amigos de infância da Ângela e nossos padrinhos de casamento. O hobby do Mauro é pescar, e vivia me convidando para ir junto com ele. Nunca dava certo, até que um dia ele fez uma manobra e quando me dei conta já estava num grupo de oito. Ainda por cima emprestava varas de pesca, linhas e anzóis preparados.

Eu, um ente urbano, nada sabia sobre pescarias, e aquela era do tipo completa.

Fomos de carro desde São Paulo, num Fiat Tempra preto até a confluência dos rios Miranda e Aquidauana, no Pantanal onde nos aguardava uma chalana, nossa casa-barco por uma semana. No caminho de ida paramos em Campo Grande para obter a licença de pesca; em Aquidauana compramos iscas vivas, uns peixinhos -- me lembro de um tipo bem escuro que era o jejum, que fazia a alegria das piranhas.

O Pantanal tem muitos pássaros bonitos, tuiuius, garças, araras, cuja concentração denunciava a presença de peixes (dica de pescador). Na beira do rio, poucas pacas e jacaré "pacas".

Dois ajudantes do local ajudavam na navegação e na limpeza do peixe que era base da alimentação diária .

O pai e o sogro do Mauro, mais idosos, pescavam na barranca. Tranquilos em nossos botes, fomos abordados pela fiscalização que queria ver a licença

Alguns acidentes: um mandi ferroou a mão do Francisco. De minha parte, escorreguei e bati a canela num degrau; repeti a façanha no mesmo lugar no dia seguinte. Um dia faltei para ver o jogo do Brasil na copa do mundo, num bar.

Pegar um peixe grandão e saboroso é muito difícil -- e acabei por descobrir a essência da pesca: posar com um peixão.

Na volta ao lar, com as caixas de isopor cheias de peixe e gelo, tivemos que parar no posto fiscal para recolher o ICMS. O cheiro de peixe permaneceu por um bom tempo no Fiat Tempra.

Como prêmio (de bom comportamento, eu acho) me tocou o peixe mais cobiçado, um dourado, que tinha alcançado a medida, e que foi servido no jantar de meu aniversário.

Foi bom o aprendizado que me proporcionou aquela pescaria, e toda tecnologia envolvida, com destaque para a engenhosidade do molinete. Posso me considerar que nesta matéria sou agora um peixe semi-fora d'água.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Ordálio






Estivemos na noite de ontem no Theatro Municipal de São Paulo para assistir à opera Lohengrin, de Richard Wagner. O enredo se nutre de elementos imaginosos, onde trafega a dicotomia bem ou mal. Ambientado no século 10, os personagens trazem nomes estranhos como Lohengrin, Parsifal, Frederico de Telramund, Ortrud, que colaboram para a formação de um ambiente ficcional.

Na construção da fantasia, o personagem Lohengrin, que acaba se revelando cavaleiro do Santo Graal, irrompe na cena puxado por um cisne, para defender Elsa, acusada de matar seu irmão Godofredo. Para realçar o simbólico, na versão de ontem, o cisne é representado por um cubo branco!

Parte importante do cerne da estória, está o confronto entre Frederico de Telramund, do lado do mal e Lohengrin, do lado do bem. Este confronto aparece no libreto -- vertido para o português -- com o nome de ordálio. Os contendentes ficam cada qual em cima de um cubo um à direita e outro à esquerda do palco; cada um dispõe de três lutadores, armados de facas, que dançam, até que Frederico cai no chão, revelando-se o perdedor. Lohengrin lhe concede uma graça, preservando-lhe a vida, o que de certa forma permite que a novela continue.

Com algumas palavras/conceitos como é o caso de ordálio -- e outras onde pode ter participado a Justiça divina -- é melhor a gente ficar no semientendimento: achei que o Houaiss mereceu permanecer descansando na estante... 









quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Cupons





Quando fazia meu pós-doutorado em Berkeley, certo dia o telefone de casa tocou; atendi e ouvi uma voz que deveria ser de uma "old lady". Perguntava se eu não queria fazer uma assinatura do Oakland Tribune. Simpatizei com a ideia, por se tratar de um jornal que representava alternativa local um pouco menos conservadora ao Chronicle, pertencente ao magnata Hearst. Perguntei a ela o que é que o jornal tinha a oferecer. "Muitos cupons na edição de domingo", frustrando minha expectativa de ouvir algum conteúdo mais progressista. 

As edições de domingo dos grandes jornais norteamericanos eram volumosos. Traziam muitos cadernos específicos: um só de anúncios de carros, outro só de imóveis, um só de tiras de história em quadrinhos coloridas, um caderno rosa sobre a programação cultural da semana, os inevitáveis cadernos impressos em colorido brilhante dos cuponzinhos de desconto. (É famoso o caderno de resenha e crítica de lançamentos de livros que acompanha o New York Times)

Cada cupom trazia impresso um código de barras para ser devidamente bipado, por exemplo, nas caixas de supermercado ou das "drugstores", consumando o desconto. Recortar cuponzinhos de desconto e juntar um macinho é uma forma lúdica das velhinhas norte americanas ocuparem seus fins de semana obtendo pequenas economias. E -- por que não? -- de nós bolsistas, que podíamos comer uma coxa do Kentucky fried chicken a mais, ou levar para o consumo da família um litrão de Coca-cola de graça.












terça-feira, 29 de setembro de 2015

A rua onde eu moro

Map of R. Dr. Mario Ferraz, São Paulo - SP

Rua Doutor Mario Ferraz 

O primeiro livro (livro mesmo) que li em inglês se chamava Cannery Row, do Steinbeck. Facilitavam as coisas o fato de ser pouco maior que um opúsculo, ambientado na região em que eu estava morando no norte da Califórnia e como escrevia o autor! -- prêmio Nobel de Literatura. Pode-se dizer que se trata de uma novela onde o personagem principal era a rua -- a Cannery Row localizada em Monterrey. Neste cenário conviviam personagens especiais, cuja humanidade o autor sabia traduzir em palavras, como poucos. 

Tenho alguma inveja de quem conseguiu produzir uma tal obra. 

Ontem de manhã, levei meu carro para consertar um vidro que não fechava, e voltei a pé para casa, e no caminho fiquei identificando personagens que habitam a rua onde eu moro: tem um mendigo que dorme na calçada, acompanhado de seu carrinho de mão cheio de porcarias; tem um "bicheiro", um caminhão quitanda; vendedora de flores ocasional; é o endereço de um empalhador de cadeiras; tem manobristas de restaurantes, farmácias e cabeleireiros; seguranças atrás de guaritas dos edifícios residenciais ; a rua é monitorada. 

Tem um local onde a periferia encontra o centro de consumo; o pessoal que chega de trem vem até a esquina da minha rua para pegar o ônibus até o centro. No ponto de baldeação, numa "ilha" tomam um cafezinho com bolo, e os desocupados ficam por lá jogando dado ou baralho. E sujando o chão. De um lado um edifício de escritórios onde se acertam grandes negócios, do outro lado o Empório Santa Maria, com seus produtos importados. 

Passam muitas pessoas pela minha rua particularmente na hora do rush; no meio do dia os moradores mais idosos e cachorros saem para passear, e à noite tem baladas e o Azucar -- cigar lounge -- onde se dança música cubana. Na hora do almoço, os restaurantes ficam lotados de funcionários que trabalham nos escritórios na região da Faria Lima; homens de gravata e mulheres de terninho. 

São muitas estórias e personagens.






quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Autocentrismo







Sabia que a porta ficava naquela parede do aeroporto de Congonhas; mas entrei numa outra ao lado. Dentro só mulheres me olhando indignadas. A pergunta que me veio logo à mente foi: "O que é que esta mulherada está fazendo aqui dentro?"

Quando a "ficha caiu", fiquei com medo de voltar para o saguão porque iria passar uma vergonha maior diante daquele amontoado de gente que -- ou já viram eu entrando pela porta errada, ou que iria ver eu saindo daquela porta errada.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Dia da árvore



Cópia da troca de mensagens com meu amigo Toyo Kato no Facebok