segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Livro caixa


Livro caixa
(inspirado na virada do ano, tempo de balanço do que ainda devemos e do que ainda temos a receber)


É o que não é
Não é livro que tem capa onde estampa
título, autor e editora
Tampouco é caixa, que tem tampa.

A capa é preta como a dos espadachins
As folhas, numeradas, todas iguais,
têm linhas horizontais
Como nos cadernos

O contador do histórico é
o contador
protagonista é cliente ou fornecedor
muitas vidas
de dívidas e cabimento

Uma coluna do deve outra do haver
Deve haver

Não tem lombada,
galardão para que as prateleiras das bibliotecas frequente
Mas é livro de histórias
Sendo escrito no presente

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Natal em La Piedad




Em uma postagem anterior ("Se meu Mustangue falasse") me referi à viagem de ida e volta que fiz, em companhia de um colega, Christian Chemla, em dezembro de 1974, desde Berkeley até a cidade do México, aproveitando o recesso escolar de Natal e Ano Novo. Uma viagem longa, descendo a Baixa California, e atravessando o interiorzão do país. Voltamos pelo Arizona. Tínhamos planejado chegar na cidade do México na véspera do Natal, para presenciar as celebrações. Saímos no dia 24 de manhã de Guadalajara, e no caminho o carro começou a falhar. Tivemos que parar numa oficina mecânica, na cidade de La Piedad. Uma destas mecânicas de beira de estrada, num terreno de chão batido, e cheio de pneus velhos espalhados. Chegamos no dia e hora dos abraços de "feliz navidad", e me lembro do mecânico em vez de nos atender recebia os amigos com regalos como uma garrafa de mescal, ou galletas. Vi  tempo passando, e nada acontecendo, e já me via passando a noite de Natal naquela cidadezinha. Perguntei a um dos mecânicos, como eram as celebrações. Ele me respondeu: Uma festa muito boa, temos "gaios" (galos, que ouvi eufônicamente).

Quando ouvi "gaio", minha primeira reação foi achar que se tratava da missa do galo. Mas era briga de galo mesmo. Uma relação estranha, essa da briga de galos com a mensagem de paz associada ao Natal. Mas pensando bem,  é de certa forma comum aproveitar a deixa dada por efemérides para se promover diversões populares.

O problema com o carro tinha sido o filtro de gasolina que entupiu. Semi-normal para a qualidade da gasolina local. Um dos mecânicos teve uma boa ideia de simplesmente retirar o filtro e fazer uma ligação direta. O carro passou a correr como um bólido, e chegamos rapidinho à cidade do México.

PS - Para os interessados em Antropologia Comparada: em viagem de lua de mel, passando por Bali, tivemos a oportunidade de assistir a muitos espetáculos de dança e rituais de cunho religioso. Num deles, "corria" em paralelo, e comparável interesse, uma concorrida briga de galos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Natal em Varanasi (Benares)


Combinei com o homem do riquixá, triciclo com um banquinho coberto para o passageiro, que atendia ao hotel, para que me levasse e trouxesse da missa do Galo, à meia noite. O caminho até a catedral passava por uma urbanização europeizada. Na ida já se formava uma neblina, fruto da condensação do vento frio que vinha do Himalaia. A catedral de Varanasi não tinha bancos, as pessoas se enfileiravam sentadas sobre um carpetão. No interior, inscrições em sânscrito e em cima do portal uma imagem de Jesus em posição de lótus. A religião tinha sinais da aculturação: o "abraço da paz", por exemplo, era apenas aquele gesto com a palma das mãos unidas junto ao peito, com a inclinação da cabeça na direção das pessoas vizinhas. Na tradição hindu, "o deus dentro de mim, saúda o deus dentro de você". No catolicismo, não há deuses dentro da gente. Deus se encarna no menino Jesus. Finda a missa, o bispo entra em procissão com uma imagem do menino Jesus, e coloca na manjedoura do presépio, até então vazio, para a adoração. Na volta para o hotel, fazia mais frio ainda, mais neblina, tudo na contramão, ambientando uma noite mágica. O riquixá é o tipo de veículo que transmite ao passageiro o esforço de cada pedalada. Meu "motorista" em baixo de um cobertor, sob o qual iria passar a noite porque onde morava havia um toque de recolher durante a madrugada, devido a violência religiosa. 

O motivo de minha viagem para a Índia tinha sido apresentar um trabalho no encontro do CUPUM -  Computers in Urban Planning and Urban Management, realizado em Mumbai (Bombaim), em dezembro de 1995. Aproveitei para dar uma emendada, e visitar o norte do país até o dia 31 de dezembro quando, na volta, parei em Johanesburgo para encontrar o Francisco e a Ângela e viajarmos juntos pela África do Sul. 

Um vez, contando da viagem, um primo perguntou para a Ângela por que é que ela não tinha ido comigo para a Índia. A resposta veio na forma de outra pergunta: "Você já viajou com o Emílio?"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Morte e Vida Severina (auto de Natal pernambucano)



João Cabral de Melo Neto


FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE  VIERAM COM PRESENTES, ETC

——  De sua formosura  já venho dizer:
é um menino magro,  de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,  de obra de ventre de mulher.

——  De sua formosura  deixai-me que diga:
é uma criança pálida,  é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,  marca de humana oficina.

——  Sua formosura  deixai-me que cante:
é um menino guenzo  como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem  já bate nele, incessante.

——  Sua formosura  eis aqui descrita:
é uma criança pequena,  enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas  nas suas já se adivinha.
 
 ——  De sua formosura  deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro  que vence a areia marinha.

——  De sua formosura  deixai-me que diga:
belo como o avelós  contra o Agreste de cinza.

——  De sua formosura  deixai-me que diga:
belo como a palmatória  na caatinga sem saliva.

——  De sua formosura  deixai-me que diga:
é tão belo como um sim  numa sala negativa.
 
 ——  é tão belo como a soca  que o canavial multiplica.

——  Belo porque é uma porta  abrindo-se em mais saídas.

——  Belo como a última onda  que o fim do mar sempre adia.

——  é tão belo como as ondas  em sua adição infinita.
 
——  Belo porque tem do novo  a surpresa e a alegria.

——  Belo como a coisa nova  na prateleira até então vazia.

——  Como qualquer coisa nova  inaugurando o seu dia.

——  Ou como o caderno novo  quando a gente o principia.

——  E belo porque o novo  todo o velho contagia.

——  Belo porque corrompe  com sangue novo a anemia.

——  Infecciona a miséria  com vida nova e sadia.

——  Com oásis, o deserto,  com ventos, a calmaria.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Escatologia na antevéspera do Natal

William Blake 


Fui guglar uma imagem do número 66, para decorar minha postagem de hoje, dia do meu sexagésimosexto aniversário. Acabei vacilando no teclado e apareceram horrendas figuras. Pois acabei pesquisando o 666, que é o número da besta, conforme o último livro da Bíblia, o apocalipse. (Aos onze anos li por minha conta, de noite na cama, e me fez sentir muito medo).

A menção da besta me fez recordar Pe. Gilles, que usava as sua aulas de francês, no colegial, como pretexto para colocar em discussão idéias de pensadores franceses. Uma das frases selecionadas era de Pascal : "L’homme n’est ni ange ni bête, et le malheur veut que qui veut faire l’ange fait la bête."

A frase tem uma lógica dialética, que resolve a superação de movimento opostos. Cada extremo per se tem sua própria contradição: uma besta pode ser normal ou uma besta quadrada. Mesmo um anjo, pode ser um normal, ou um anjinho da guarda.

No meu amadorismo filosófico, tenho gosto vez por outra de arriscar um mergulho pela dialética. Tenho até uma frase: "a antítese da dialética é a noitelética", trocadilho infame, que a escrita científica não comporta. Muito bom produzir um blogue, que dá a liberdade de se registrar qualquer coisa, da besta ao besteirol.


domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Curva



The Royal Crescent, na cidade de Bath, na Inglaterra. Isso mesmo, banho: os romanos houveram estado por lá quando construíram balneários para desfrute de águas termais.

A edificação é como um ajuste geometrizado da curva que forma a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, por onde os romanos, em princípio, não devem ter passado. A suspeita de biomimetismo, no entanto, é reforçada pelo uso daquela "areia verde" por garotas em trajes de praia, para pegar um Sun-bath (banhozinho de sol).

PS - Em julho de 1973, o curso "Environmental and Social Planning In Britain", que segui na Universidade de Manchester, incluía algumas visitas técnicas a pontos de interesse, e um deles muito revelador do campo e da história inglesa foi a que fizemos ao vale do Wye, no sul do País de Gales, e que incluiu uma visita a Bath. Andava errante pela cidade quando me surpreendi neste extasiante "crescente" abraçando o gramado verde. Travei. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Da Route 66 para a Highway One










Em minha postagem anterior contei de uma viagem que fiz de Palo Alto até Albuquerque que pegou um trecho da Route 66. Foi a ida. Quero contar nesta postagem sobre a volta -- que foi uma semi-aventura. Daria um opúsculo, mas vou precisar eliminar detalhes para ficar com uma dimensão de postagem. Voltei de carona. A primeira delas, arrumei no "bulletin board"  na parede da Student Union da Universidade do Novo Mexico. Estava cheio de pequenos cartões pendurados oferecendo tudo. Me interessei por uma oferta de carona em troca do pagamento da gasolina, desde Albuquerque até Santa Barbara. Era um estudante voltando de férias. Tinha um outro caronista, que estava voltando do Vietnã, onde serviu as tropas norteamericanas naquela infame guerra. No caminho, me lembro de duas coisas que ouvi no rádio: "A banda" do Chico Buarque, e de quem meus companheiros de viagem não tinham noção; e a notícia sempre repetida do ataque terrorista contra os atletas israelenses em Munique. E toca comer no Mc Donalds, a 9 cents um hamburguer básico! Paramos em Needles, tida como a cidade mais quente da California, que era o destino do outro caroneiro. Os pais nos receberam muito ótimo, entramos na piscina para refrescar a noite, e me tocou dormir no quarto da filha ausente. Foi minha primeira vez num quarto de menina, com lençóis e fronha cheia de margaridinhas. Paramos em Los Angeles, onde dormimos na casa de uma americana que tinha me dado o endereço, no bairro de Venice. Dia seguinte, seguimos para Santa Barbara, destino combinado.

De lá, meu caminho era highway 1, que vai beirando o mar. Para quem não conhece a Highway 1 é um cenário deslumbrante e inspirador, que acompanha os recortes do litoral. Fiquei em pose de caroneiro num posto de gasolina, até que passou um carrão com um novo rico losangeano, que ia até a praia de Cayucos, onde tinha uma casa do tipo fim de semana. Me deixou na Highway 1, na entrada da cidadezinha, onde fiquei com o polegar para cima. Acabou me pegando -- depois de muito tempo -- uma kombi sem banco traseiro de um casal hippie, que deveria ter no veículo também sua moradia. Vivia lá um cachorro, que repartiu o tapete traseiro comigo. Estavam interessadíssimos em saber se no Brasil havia coca. Passei por grandes emoções quando o hippie motorista resolvia beijar o cachorro atrás, em plena curva. Me largaram em Big Sur, e fiquei extasiado com a beleza daquele lugar, onde o Pacífico encontra uma vegetação de árvores com clima temperado. Lá me enturmei com uns mochileiros de Chicago, e encostei meu (na verdade, era emprestado) sleeping bag  na barraca deles. Um vento frígido vinha do pacífico. Na manhã seguinte me pegou um casal de chicanos em lua de mel. Dirigiam em ritmo de felicidade, e paravam para degustar tudo o que se oferecia no caminho: vinho, frutas (e eu ia junto). Até que me deixaram na esquina da 101 com a rua Embarcadeiro, em Palo Alto uns dez quarteirões da casa dos Lush. Ficaram pasmos quando contei sobre o meu périplo. "Your English has improved a lot", tive que ouvir. Não me lembro -- desde que me formei engenheiro -- de ter passado um período como este onde tinha parcas idéias sobre o dia seguinte: o que me reservaria para conhecer, e onde iria cair para dormir.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Route 66 -- (1972)






Terminado meu curso de inglês e orientação acadêmica na Universidade de Stanford, que segui no verão de 1972, dispunha de 3 semanas "de férias" antes do início do semestre. Comecei viajando com duas das professoras do curso até Albuquerque, no carro de uma delas que iria se juntar ao marido, professor na Universidade do Novo Mexico. Fazia parte um detour para o Grand Canyon. De repente, me descobri na rota 66 e não dava mesmo para segurar a vontade de fazer um registro -- eu já sabia que 41 anos depois iria ser utilizado para ilustrar meu blogue :))) Pedi para que encostassem o carro no acostamento, que em inglês tem o mesmo nome que as espáduas (shoulders). Tentei aquela pose parecida com a das gatinhas dos desenhos animados quando iam pedir carona. Informações complementares: a) a US 93 da placa nos leva à Las Vegas; b) a foto foi tirada com uma daquelas máquinas descartáveis, produzidas pela Kodak; c) a sandália com sola de pneu usado foi comprada na Bahia.Vai em seguida o fundo musical -- sugiro aumentar o volume.




Route 66




Nat King Cole 


É muito comum o uso de estradas como metáforas da vida. Ambas têm começo, rota e fim. Em uma semana, vou completar 66 anos de idade, número que por coincidência foi dado à "mãe de todas as estradas": a Route 66. Vamos nessa, trafegar por incríveis horizontes e McDonalds?  

sábado, 14 de dezembro de 2013

Esse é o meu guri...






Na "nossa época", eram escassas as oportunidades para meus colegas fazerem apresentações de seus talentos musicais. Se compararmos com a atual geração, quando podemos ver filhos de amigos e amigos de filhos tocando por aí, compondo e gravando CD´s, fazendo trilhas musicais, "vivendo mais da música". Sempre que posso, vou prestigiar essa moçada, que vimos nascer e crescer. Ontem foi o último dia de apresentação de uma peça teatral do circuito "off-off", de nome "Epitáfio", na qual um dos colegas do Francisco, meu filho, Gustavo Vellutini, é um dos músicos. Já o tinha visto num espetáculo anterior, de nome "cabeça de papel", muito boa, em que a moçada retoma criação experimental do tipo colagem que começou na "nossa época".

Foi difícil obter ingresso para esse epitáfio, mas conseguimos muito na última hora; era Sexta Feira 13 e não chegamos a tempo. Imaginem que meu diabinho das sextas feiras treze me fez confundir Conselheiro Ramalho com Conselheiro Carrão, e acabei mal "aconselheirado", chegando a uma outra casa comum! Mas como verão, ele pagou para ver.

Não era permitida a entrada depois de iniciada a peça porque o "off-off" ficava na adaptação de um sobrado velho no bairro do Bixiga, e para se chegar na platéia era preciso atravessar o palco. Foi aí que nosso Francisco entra em cena: conseguiu, de início, reaver o dinheiro das quatro entradas (fomos eu a Ângela, ele e Mariana, sua namorada), papeando com a mocinha do caixa. Em seguida, fez tirarem uma foto nossa com seu iphone, no saguão do teatro, em frente a um guarda roupa colorido, e enviou por correio eletrônico para o Guti, naquele momento em plena função. Fomos em seguida jantar, durante o qual o iphone do Francisco sonorizou a chegada de uma mensagem: era o Guti agradecendo o nosso comparecimento...  Os azares da sexta feira "aziaga e agourenta" foram desta forma amainados.

PS - (obtido na Wikipedia) :   O medo específico da sexta-feira 13 é chamado de parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Jabaquara








Na fila das reuniões de confraternização que ocorrem final de ano, teve ontem a de um grupo de técnicos -- entre os quais me incluo -- que trabalhou na Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, divisão essa que não existe mais. A maioria dos presentes já não está mais no IPT, alguns aposentados, ou semi. O espírito grupal ipetesista baixou e as distâncias espaçotemporais se se esvaneceram por alguns momentos. Ajudou para isso o local que trazia boas lembranças coletivas, um restaurante chinês no bairro de Pinheiros, que é filho do "China Massas Caseiras" aonde íamos almoçar com uma certa frequência nos anos 70 e 80.

O "China Massas Caseiras" ocupava um sobradinho geminado na rua Mourato Coelho, onde a cozinha era na cozinha e o salão nos quartos do andar de cima. Muito especial, tanto é que fechava às 4as. Servia o fino da culinária -- aquelas massas feitas ali mesma e servidas "comme il faut". Os pastéis vinham com um recheio úmido no ponto das esfihas de minha mãe. Eram cozidos no vapor, ou fritos. Um de nosso grupo, o Abraham Yu, PhD pela Universidade de Stanford, fazia as vezes de anfitrião e explicava o jeito chinês de comer tais pastéis -- com gengibre ralado no vinagre e uma pitada de pimenta. Depois aquele macarrão com molho chinês, e pepino ralado,que o Abrão misturava na tigela, sem contar a salada de acelga com frango ou o frango à passarinho frito com pele num óleo bem quente, prato cujo nome em chinês se pronunciava "jabaquara". O Abrão -- que mexeu pauzinhos ontem -- era nosso interlocutor com o antigo dono, já falecido, que só se pronunciava num sorridente chinês; ficava no caixa e tinha um misterioso método próprio de totalizar a conta direto, sem somar as colunas. (Deveria ser um tipo soroban mental). O restaurante onde fomos ontem é do filho daquele senhor, de quem herdou o cardápio e seus segredos. Inclusive o Jabaquara.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Bota água no feijão






Revendo na postagem anterior ("Retrospectiva 2013"), no meio das fotos, uma que registra um dos "melhores momentos", dos mais bonitos que tivemos a oportunidade de vivenciar durante este ano: a passagem da Vila Isabel no desfile das escolas de samba durante o carnaval carioca. Tinha como enredo: "a Vila canta o Brasil, celeiro do mundo" e uma beleza de samba enredo, com o seguinte refrão (está no vídeo anexo):  

Ô muié , o cumpadi chegou
Puxa o banco, vem prosear
Bota água no feijão já tem lenha no fogão
Faz um bolo de fubá

A brasilidade essencial, em ritmo do samba, se faz quintessencial. Achei que deveria compartilhar, em parte porque não toca no rádio nem nas MTVs. 




segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013




No meu primeiro ano de pós-graduação nos Estados Unidos, acabei morando em Palo Alto, na casa de uma família americana; na verdade eram ingleses, a família Lush. Uma família muito católica, a Ms. Lush colaborava na igreja, datilografando o sermão do Pe. Dureya, sempre bastante culto -- como devia ser uma paróquia de uma universidade como Stanford -- e era mimeografado e distribuído aos presentes. Era uma casa muito grande com um gramado na frente. Foi também minha primeira vez vivendo fora da minha casa em São Paulo, e aquilo tudo americano em minha volta exacerbava o senso de observação. Um primeiro contraste era o costume dos filhos de saírem de casa tão logo entrassem no college. (Imaginem que voltei 3 anos depois, no padrão brasileiro classe média, para o apartamento de mamãe, com quem morei mais vovó, até que casei...) Acabei ocupando o quarto de um dos 3 filhos que já houveram saído. Uma das muitas coisas interessantes que vi eram as cartas de Natal, que os Lush recebiam e penduravam num quadro de cortiça na cozinha. Invariavelmente, os missivistas faziam um retrospectiva do ano. Contavam das viagens, do progresso escolar das filhos, conquistas profissionais, etc. Algumas muito bem editadas, com fotos. Recordo o de uma delas, que me chamou atenção pelo labor, que reproduzia um jornal, e os fatos mais relevantes do ano apareciam como manchetes na primeira página. A partir de então passei a escrever estas cartinhas anuais, que enviava inicialmente pelo correio "tartaruga" e depois pelo correio eletrônico. Agora descubro que o Facebook acaba produzindo uma tal retrospectiva para a gente. Seleciona 20 fatos usando critérios de repercussão da postagem, que não necessariamente coincidem com minha seleção. Vai aí como curiosidade. O link para a retrospectiva de 2013 -- ano ainda inconcluso --  é:


https://www.facebook.com/yearinreview/emilio.haddad.1

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Lojona




O livreiro 



Enquanto redigia minha postagem anterior ("Lojinhas") me lembrei de um "causu" que mereceria um registro só seu. Eu houvera tirado férias no mês de janeiro de 1981, que fui passar na cidade de Nova Iorque. Sempre aquecida culturalmente, num inverno frigidíssimo. Iria ser recebido por um casal de amigos, Georges meu colega de mestrado na Engenharia Civil em Stanford, e Mari, recém estabelecidos na Big Apple, onde acabariam bem sucedidos profissionalmente: ele sócio de um grande escritório de arquitetura e planejamento urbano e ela na ONU. Para não chegar de mãos vazias, no dia do voo passei pela Livraria Cultura no Conjunto Nacional em busca de algum álbum bonito para levar comigo. Me decidi por um sobre Portinari. Na hora de pagar, descobri que estava sem talão de cheque (costumeira forma de pagamento na época) e tendo que ir logo para o aeroporto. Vendo a situação, o Pedro Herz usou seus privilégios de dono do negócio, e disse que eu poderia levar fiado, e que viesse acertar após o meu retorno. E nem um fio de bigode de garantia!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Lojinhas





Com a crescente oligopolização do comércio impulsionada pela dupla shopping/franquia, cada vez menos temos a figura do dono da loja. Na minha infância, na década de cinquenta, tínhamos no nosso quarteirão na rua Pamplona, a par do açougue daquele tipo que a Sanitária fecharia, do vendedor de galinhas (vivas), do japonês cuja tinturaria era também a casa de sua numerosa família, a farmácia do seu Marcondes, com prateleiras altas e uma escada de correr, e uma porta que a gente atravessava para ir pincelar a garganta, a mercearia da Dona Margarida, portuguesa, que jogava dentro do pacote de compras um brinde, alguma coisa encalhada como por exemplo pedrinhas de anil ou balinhas para as crianças, e seu concorrente o "mercadinho sírio" do seu Subhie, senhor de acentuados sotaque e surdez, com quem protagonizei um "causu". Minha mãe pediu que eu lá fosse para comprar queijo parmesão (naquele tempo não se vendia ralado). Quando trouxe para casa, ao olhar aquilo que eu havia trazido ficou indignada com a baixa qualidade; segundo ela era feito na Argentina e era "puro sal". Me pediu que fosse devolver. Assumi a indignação materna, e entrei no mercadinho, com o peito estufado: "Seu Subhie, este queijo é bom?" Ele respondeu: "Asbicial".

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Tomates







Em julho de 1973, passei um chuvoso mês na Inglaterra, fazendo um curso de verão: "Environmental and Social Planning in Britain" na University of Manchester. Foi a minha primeira estada na Europa, embora os bretões ilhéus de certa forma nem sempre se achem parte do continente. Até então, pela educação eurocêntrica que recebi, tinha ficado na minha cabecinha a perspectiva de que só iria encontrar pela frente atividades e discussões iluministas. Mas bem logo descobri que não era bem assim: enquanto esperava o trem que me levou de Londres a Manchester, vi passar um deles repleto de hooligans, que urravam frases irracionais. A vida era provinciana, e me lembro de um parquinho perto do dormitório onde ficamos onde me via nas crianças na gangorra, ou jogando futebol no gramado com bola de borracha. Um vez peguei um ônibus, e me sentei ao lado de uma dessas velhinhas inglesas. Ela contou que estava indo para um mercadinho no centro para comprar "lovely tomatoes", e fazer uma salada. Me lembro dela quase todas as vezes que saio de casa para ir comprar tomates no mercadinho vizinho.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O primeiro dezembro de um professor aposentado







Um dia desses tive um sobressalto: será que me esqueci de passar pela secretaria da Faculdade para agendar minhas férias do ano que vem? O que tinha me esquecido é de outra coisa, é a de que agora, aposentado, não tenho mais férias (e tampouco aquele bem chegado um terço a mais no salário ).

Agora só tenho férias, é no que se tornou minha vida profissional. Novas perspectivas se descortinam para um velho militante.

Dezembro, mês quente, não é mais aquele em que -- na assombração das férias escolares que tem como arautos as renas do Papai Noel -- nos despedimos do "ano velho" e programamos o "ano novo", ações que se semi superpõem... O aposentado vivencia assim um espécie de vazio de marcos ligados à condução da história pessoal, que se consolidam na passagem do ano.

Esse "novo dezembro", agora mais indiferenciado dos demais meses do ano, se propõe para uma comunidade de pesquisadores, como um interessante tema para especulação. E quem sabe de alguma preocupação por parte de uma Universidade no seio da qual encontramos debates sobre minorias. Como se os seus docentes idosos e aposentados não se constituísse numa das que deve receber merecida atenção! Para ser bem sincero, acho que seria acolhida com mais consideração do que a carta do Reitor ou homenagens da Congregação que recebi, com mensagem -- se bem decodificadas -- que se resume a uma palavra: "Adeus". O celebrizado nos versos do poetinha Vinícius de Moraes:

Ai, a lua que no céu surgiu
Não é a mesma que te viu
Nascer nos braços meus
Cai, a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra : Adeus

sábado, 30 de novembro de 2013

101





A postagem anterior foi a de número 100 deste blogue e tratou do número 100. Seguindo o modelo, esta postagem, de número 101 vai tratar do 101, um número também especial, com atributos diferentes do seu antecessor: 101 é um número primo, que simula uma representação binária, bonito por sua simetria. De fato, o número 101 é o que se denomina capicua, provavelmente a mais singela delas, ou seja um palíndromo de números. Se 100 é clássico, 101 é romântico. Especialmente porque era o número da Highway que eu pegava para ir a San Francisco -- cidade que muito curtia -- quando morava em Palo Alto. Na outra direção, a "uanouan" era o "way to San Jose". Do you know?



 A próxima postagem será a de número 102, e acho que posso aqui prometer que não vai se referir ao número 102.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

100









Chegamos à postagem número 100 deste blogue – aí estando incluídas aquelas 4 ou 5 que serviram de teste. Não tem como evitar que eu passe aqui a perorar sobre o 100 (cem), um número redondo, quadrado perfeito, que tem representado referência numérica de um monte de coisas importantes para minha geração. A começar pelas notas na escola primária que variavam de zero a 100. Só, depois, no ginásio, passaram a ser medidas de zero a dez, e na pós-graduação, de A a E, com valor decrescente.  É 100 também o valor máximo em reais do dinheiro que atualmente circula na forma de notas, no Brasil. Outra difundida presença do 100 está sua participação na medida relativa da porcentagem (%), e do cem-por-cento, que é tudo. E na marcação das distâncias de caminhadas e corridas, sempre de múltiplos de 100 metros, sendo a mais importante competição na Olimpíadas modernas sejam os 100 metros rasos, onde pespontam ídolos como o Bolt. Chegar à postagem número 100 é um recorde pessoal de tagarelice, prática semiesportiva que um dia pode chegar a ser modalidade olímpica. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Meu querido "noitário"...












Esta situação seria de baixa probabilidade quando saí de casa depois do jantar. Fui convidado pelo Fred Rangel para ouvir música ao vivo: um programa duplo que sua banda Zarabanda iria abrir num bar perto de casa. Imaginem a cena: atrás do palco, os telões transmitiam um jogo de futebol entre a Ponte Preta de Campinas e o São Paulo. No início os jogadores dos dois times, um de cada lado do campo, ficaram ajoelhados formando uma fila solidarizada pelos braços que se apoiavam no ombro do companheiro ao lado, em silêncio. Prestavam assim homenagem a Nilton Santos, jogador tão bom que era tratado por "A Enciclopédia", e que morreu hoje. Os telões não tinham som. O fundo musical, mais justo seria dizer a frente musical, ficava por conta da segunda banda, com o nome de DWG, com a crooner soltando a voz num rock clássico: Brown Sugar, dos Rolling Stones. Incoerência musical total entre vídeo e palco, que eu via e ouvia tomando a mais incoerente das bebidas: uma caipirinha sem álcool! Feita com lima da Pérsia, esmagada com açúcar, gelo e água tônica para substituir a pinga. Daria para encontrar denominador comum entre o Nilton Santos e os Rolling Stones? Algo por exemplo relacionado ao fato do ludopédio ser o esporte bretão? Somando ao outro fato de que ambos recebiam estádios de aplauso? A irretocabilidade de suas apresentações...

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Entre a boca e as ponta dos pés






Ontem olhava boquiaberto para a minha dentista, de máscara branca, com o motorzinho na mão fazendo uma raspagem para tirar as placas bacterianas dos meus dentes. Hoje, foi a vez de olhar para a podóloga, de máscara branca, e motorzinho raspando as unhas de meus artelhos para tirar células mortas. Ambas me querem de novo daqui a seis meses para repetir o procedimento. As simetrias e similitudes não param por aí. O mesmo tipo de cadeira reclinável, que levanta as pernas. A sessão de quarenta minutos.

Igual aos automóveis usados, estes dois penduricalhos inertes, verdadeiras armas implantadas no corpo humano precisam de manutenção. Para melhor nos defendermos, como se diz, com unhas e dentes.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Interlagos






Ontem se realizou o Grande Prêmio de Fórmula 1, na pista de Interlagos. Assisti pela televisão da largada à bandeirada. Como deve ser mesmo. Prerrogativa de um semidesocupado. Nos últimos anos tem sido um tal de ver o futebol com o notebook no colo, ou o viola minha viola lendo o jornal de domingo...

Com o impressionante desenvolvimento do tratamento de imagens, e aquelas microcâmeras de alta resolução a gente vira o piloto da corrida, fazendo ultrapassagens difíceis e curvas no limite.

Interlagos tem um apego e um apelo especial de minha geração que cresceu em São Paulo. Conhecemos o traçado de cor e salteado e o nome das curvas e do retão. Com o carro a 300 km por hora, na subida dos boxes alguém atravessando a pista pode ser inimaginável. Me lembrei de Interlagos nos meus bons tempos de moleque quando íamos de ônibus por uma estradinha ver a corrida e entrávamos por debaixo da cerca de arame farpado, e naquela mesma subida dos boxes, com um asfalto casca de ovo – durante a corrida a gente atravessava a pista para ficar vendo tudo do miolo do autódromo, onde se podia acampar. E, especial nas 24 horas de Interlagos quando à noite se podia divisar o facho dos faróis correndo em dupla pela pista.

À transmissão da corrida de Interlagos posso creditar a única imagem ao vivo desde São Paulo que vi na televisão durante o tempo que morei nos Estados Unidos. Trazia saudades genuínas.


sábado, 23 de novembro de 2013

Reunião de 43 anos de formados no curso de Engenharia Civil da Poli


Novembro de 2012, jantar de 42 anos de formados, no restaurante Rubaiyat. Note-se o Artur, primeiro do lado esquerdo, que foi lá se despedir para se juntar a outros que foram antes convocados.



O re-encontro anual com meus colegas do curso de engenharia civil da Poli, ontem à noite, é o primeiro deles que frequento na condição de aposentado semi-desocupado. Parece ser esta também a situação de metade dos cerca dos 25 presentes. Novidade neste ano é que minha condição me faz agora dispor de tempo e vontade, para poder cronicar.

Rever os colegas é sempre uma oportunidade de se por em dia com cada um deles, e fiquei refletindo sobre a diversidade das trajetórias. Uma vez, um colega chamou a atenção para a amplitude de possíveis futuros que se descortinava para os formandos da Poli no ano de 1970. Estávamos muito perdidos num matagal com trilhas que se bifurcavam à direita e à esquerda, podendo conduzir as luzes sedutoras do mercado financeiro, num momento em que a Bolsa de Valores explodia, à clandestinidade da luta armada na forma da guerrilha, ao convívio com a resistência ao regime autocrático.

Na ideologia dominante, o curso de engenharia iria mesmo servir para o sucesso identificado com construir um patrimônio pessoal. Observando cabelos brancos, fiquei mentalmente juntando diferentes histórias de nossa turma, e constatar em que medida alguns foram bem sucedidos. E acabei me dando conta o quanto a turma dos civis foi capaz nestes 43 anos. No campo profissional da engenharia e também fora dela!

Para ilustrar (e não vou dar aqui os nomes), tivemos ministro, um secretário de estado, presidente e diretores de empresas públicas e privadas, responsáveis por projetos e grandes obras de engenharia, um autor de livro de enologia, outro de dois livros sobre fotografia, pelo menos sete que seguiram como professores universitários, joia rara, entre os quais temos uma pérola, o Henrique Lindenberg Neto, que foi escolhido o Professor do Ano neste ano. Não é formidável?

Sinto que no todo podemos dizer que fomos uma turma de sorte.

Prometo que voltarei a aprofundar os significados humanos deste momento repleto de gentilezas e cordialidade na blogada que postarei a respeito do próximo encontro, comemorando os 44 anos de formados. Se Deus assim quiser!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Resta









O conhecimento, cuja obtenção, organização e transmissão fazem nossa vida na academia, é imaterial. Por isso morro de inveja dos meus amigos e colegas que trabalham em construção e podem passar pela frente e apontar coisas de cuja feitura participaram. Na semana retrasada estive assistindo a um concerto de um conjunto holandês, o Combattimento Consort Amsterdam, na sala São Paulo quando encontrei um colega de colégio, Abel Vargas, que constrói instrumentos musicais. No intervalo, me falou que o cravo usado naquele palco foi ele quem construíra. Meus colegas de engenharia indicam por exemplo edifícios de cuja obra participaram, seja no cálculo estrutural, na execução de fundações ou no projeto de iluminação. Sim, sim, tenho participado da educação e formação, e muitos ex-alunos brilham por aí. Mas isto está longe do que se convenciona entender por um legado. Estou escrevendo estas linhas porque vi um anúncio de um Seminário que se realizará amanhã em Brasília, com o título: "Seminário Internacional Instrumentos Notáveis de Intervenção Urbana". Me lembrei que, vinte anos atrás, em 1993, fui organizador de um "Seminário Internacional Instrumentos de Intervenção Urbana" (nota -- sem os notáveis), realizado na FAU-USP, e que foi pioneiro, implicando delicado trabalho. Ao meu eventual leitor pretendo aqui apontar com o dedo indicador essa uma obra minha, que vai sendo por aí conduzida de forma mutante. Na poesia de Dylon Thomas:

(...)
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Passeio ao Cânion do Xingó







O lago formado pela barragem da usina hidrelétrica de Xingó, no rio São Francisco, inundou uma ampla área cobrindo o cânion de Xingó mais ou menos na metade de sua altura, que assim se tornou navegável. Fizemos um passeio de catamarã, desde a barragem até os cânions. O mítico Velho Chico que nunca consegui navegar -- nunca deu certo, desde a época das gaiolas -- estava muito azul bonito. E aquela "integração nacional" deu o tom entre baião, xótis e xaxados que o locutor botava para animar o passeio. Na hora do arranque, no lindo dia ensolarado, o samba-rock empolgou os turistas: "Moro num país tropical, abençoado por Deus, e bonito por natureza". Que beleza!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sanfonadas em Aracaju

Hoje, fomos explorar Atalaia by night, caminhando pela orla. Num trecho conhecido por Passarela do Caranguejo paramos para comer no terraço de um dos restaurantes, onde nos agradava o vento que vinha do mar. De repente, ela. O som nordestino da sanfona, tocada por um moço, que vinha da parte de dentro do restaurante, meio abafado pela parede. Para fazer a gente mexer. É um instrumento privilegiado, permite a melodia, o acompanhamento, e um andamento conforme a letra. Tudo para seduzir o ouvinte como o diabo gosta. O que valia era a pegada, independentemente da música que o sanfoneiro elegia entre os mais apreciados temas da música universal, o que incluía entre outros "O´Sole Mio", "It is a wonderful world", "Take five", "Carinhoso"... Sempre com aquelas baixarias na mudança de acorde. Fica aqui um fundo musical do southwest dos Estados Unidos, que é o irmão musical siamês do nosso nordeste: homenagem à sanfona... um forró na Luisiana, reinação de Queen Ida





quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Quase perdemos o voo




Em algumas poucas horas estaremos indo para o aeroporto de Guarulhos para pegar um avião para Aracaju. A Ângela, típica "risk averter" gosta de sair de casa algumas horas antes do horário do voo, bem mais do que eu acho necessário. Embora nunca nos tenhamos atrasado a ponto de perder o avião, teve uma vez que foi quase. Fizemos uma escala em Nova Iorque voltando do Canadá. O voo para o Brasil só iria sair no início da noite e dispúnhamos de um tempinho. Liguei para meu amigão Georges, que marcou conosco no Village. A bagagem ia seguir direto, e pusemos a de mão num daqueles lockers operados com moedinhas, e fomos para a Big Apple. O Georges nos encontrou no Balducci's que para mim naquela época de restrições à importação, era mais entretenedor que a Disney. Terminada as compras, a Ângela começou a sinalizar que era chegada a hora de retornar ao Kennedy, mas eu decidi tomar um cafezinho e continuar o papo gostoso com meu amigo novaiorquino, o que foi fatal. Mesmo sendo NYC, taxis vazios são mais raros na hora do rush, e o transito houvera piorado muito, e o motorista disse que tinha havido um acidente na Expressway em Jamaica, e ficamos em situação bem difícil. O motorista deu seu melhor empenho para chegar o quanto antes, acelerando por caminhos alternativos, e quando chegamos o voo já havia sido chamado e tínhamos ainda que ir pegar a bagagem de mão, que pareceu que ficou muito mais loooonge do que onde deixamos. Chegamos no balcão para alegria do pessoal da Varig que nos carregou pelas filas do controle de passaporte  e nos jogou dentro do Boeing, cuja porta se fechou nas nossas costas. O avião lotado nos encarava.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mexico City

Escrevi esta blogada em outubro de 2007, 



Diário da colônia
Ontem saí caminhando de meu hotel na “Zona Rosa” da cidade do México na direção de seu centro histórico. 
Me lembrei de uma palestra dada em Berkeley pelo Lawrence Ferlinghetti, grande poeta e dono da livraria e editora City Lights, da (velha e maluca) cidade de San Francisco, quem promoveu e publicou grande parte da produção da Geração Beat. A palestra fora promovida por um grupo de solidariedade ao povo da Nicarágua, que sofria na época as conseqüências do apoio dado pelos norteamericanos aos contras (lembram-se do famoso caso Irã-Contras, pelo qual o dinheiro obtido pela venda “por fora” do petróleo iraniano a Israel era transferido através da CIA aos contrarevolucionários na Nicarágua?).
Já com a voz enfraquecida, o Ferlinghetti começou a contar que recém chegou da Nicarágua, e o que mais lhe chamara a atenção é que havia vida nas ruas...coisa que ele não conseguia ver nos Estados Unidos.
Pois é, há vida nas ruas da cidade do México, pelo menos nesta parte próxima ao centro. Não chegam a ser as ruas de Bombaim, onde um dos extremos que pude presenciar foi um “tirador de cera do ouvido”, que trabalhava na calçada. Mas aqui há aqueles que levam um tabuleiro de xadrez uma mesinha e duas cadeiras, e se oferece para jogar; há a versão mexicana da baiana do acarajé, que fazem tacos, tortilhas e os deliciosos tamales; dogueiros oferecendo todo tipo de comida, milho cozido, rodelas de abacaxi, caldo de galinha,até dog, tudo naturalmente com muita pimenta; estudantes fazendo algazarra.
Interessante é observar a transformação de usos dos edifícios na parte central da cidade do México, muitos dos quais bastante imponentes da época colonial: aquele sutil impacto da globalização, na forma de “tacos árabes”, cursos de feng shui, ao lado de uma laboratório de exames que oferece ressonância magnética de campo aberto; entrei por uma rua seguindo a indicação: Teatro Diego Rivera, onde vi que estava passando a peça com o nome de “Orgasmos”, e garantem que é comédia. Do outro lado da rua, um edifício clássico, iluminado, parecia um outro teatro mas era o velório de uma funerária. Em toda parte os celulares...
No jornal de sexta-feira, hoje há um caderno VIP, melhor dizendo dos VIPs, e é todavia outras pessoas que as das ruas. São as “chefs” que preparam doces para comemorar Colombo, que descobriu a América. O mesmo jornal mostra lado a lado o contraste latinoamericano; o Evo Morales e a Rigoberta num cerimonial celebrando a criação do Estatuto do povos indígenas e na outra foto, Lula e dona Marisa, sentados vendo o rebolado de uma mulatona de biquíni.
Temos um olhar para eles e eles têm um olhar para a gente. Diferentes olhares fazem superar o etnocentrismo.

domingo, 10 de novembro de 2013

Batingen Makbusse








Neste sábado, achei berinjelinhas no supermercado e levei para a casa de minha mãe que eu queria ver para a aprender fazer aquela deliciosa conserva de berinjela com nozes -- chamada em árabe de "batingen makbusse" (como peguei eufonicamente). Sabia muito bem que obter de minha mãe a receita de forma íntegra era missão impossível, optei por dar uma de ajudante aprendiz, o que se revelou mais eficaz. Anos de prática levaram à criação de soluções. Vou citar uma delas: após lavar, cortar os cabinhos, cozinhar -- um tempo X -- as berinjelinhas, fazer nelas uma incisão para colocar alho -- que me permitiu previamente socar no pilãozinho com sal -- era preciso prensar para extrair a água retida. Para isso, as berinjelinhas foram acomodadas bem juntinhas dentro de um escorredor de macarrão de plástico, em cima das quais fazia um bom peso uma panela cheia de água, tampada com um prato sobre o qual estava uma leiteira cheia de água. São os tais segredos de mãe para filho.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Nohad Toulan -- agora na versão em português




Coloquei ontem neste blog um texto que houvera acabado de postar num e-group formado por acadêmicos (pricipalmente norteamericanos) da área de planejamento urbano -- Planner's Network e da qual tenho feito parte. Era meu registro entre lembranças de Nohad Toulan, Professor Emérito de "Urban Studies and Planning" da Portland State University, após a notícia de sua morte em consequência de um acidente automobilístico ocorrido no Uruguai. O texto foi postado em sua versão original em inglês, e achei que seria certo fazê-lo no idioma que Bilac chamou de "Última flor do Lácio, inculta e bela".

No ano de 1989, quando eu era Professor Visitante no Departamento de Planejamento Urbano e Regional da Universidade da California em Berkeley, ocorreu na cidade de Portland o Encontro Anual da Collegiate Schools of Planning -ACSP, a associação das escolas de planejamento dos Estados Unidos. Viajamos para lá de carro, e me lembro ter sido a primeira do Francisco, então com três anos e que procurava entender porque ficar num carro tanto tempo. Fomos pela costa e voltamos por trás da serra, o que nos permitiu visitar o Crater Lake, recomendação explícita do Prof. David Dowall -- responsável pela disciplina cujas aulas compartilhava comigo.

O anfitrião do encontro em Portland era justamente o então Professor Nohad Toulan, de origem egípcia, que tinha passado por Berkeley onde obteve, como eu o Master of City Planning. Percebo em quem viveu Berkeley naqueles anos 60 um espírito especial marcado por muitas ambivalências talvez a maior delas a que se coloca entre o sério e o irônico, ambos filhos aplicados da inteligência. 

No hotel do Encontro da ACSP, se realizava simultaneamente uma reunião de veteranos da 2a Grande Guerra que houveram feito parte de um determinado pelotão de bombardeamento aéreo. Membros das duas tribos tão díspares se misturavam no saguão. Ao abrir a conferência da ACSP, Nohad Toulan, nosso elegante anfitrião começou sua fala, com uma absolutamente desnecessária advertência aos presentes: "Aviso que o encontro do pelotão de bombardeadores é no salão ao lado..." Risos.