terça-feira, 30 de setembro de 2014

Reforma



Vou tirar uns dias de licença, que me autoconcedo, deste blogue, porque ele está perdendo um de seus fundamentos, que é a desocupação. Estamos procedendo a reforma no nosso apartamento, e o convívio com os fornecedores de material e a mão de obra requer tempo integral, neste país de oligopólios. É preciso muuuuita atenção e pesquisa para buscar economias. 

Reformar não é só transformar o ambiente, que por sua vez induz também a uma transformação pessoal. É bonito e refrescante ver ao seu redor a coisa se repondo mais nova. E alinhada o mais possível com as vibrações cósmicas, como entendem os chineses

O blogue volta quando abandonarmos as obras. Até lá haja paciência. Muita paciência. 

domingo, 28 de setembro de 2014

Marmita



_R6H1954


Esta postagem teve como inspiração um bonito filme indiano que tive oportunidade de assistir nesta semana cujo título em inglês é "The lunchbox", o nome que é dado à nossa velha conhecida, a marmita. Em Bombaim tem um engenhoso sistema de entrega da marmita feita em casa chegando no local de trabalho praticamente na hora do almoço. Uma distribuição assemelhada à usada pelo correio.

O enredo do filme parte de um engano improvável na entrega, o que resulta no estabelecimento de relações entre um trabalhador em vias de se aposentar e a mulher que é infeliz no casamento: comunicam-se através de bilhetes colocados na marmita. O final é claro não devo contar.

Uma herança semiantropológica que as mulheres carregam é a de assumir responsabilidades sobre a alimentação da família, muitas vezes formando o paladar de cada um de seus membros. As mães iranianas preparam o cardápio com alimentos considerados "quentes" ou "frios" da acordo com sua percepção do estado "quente" (agitado) ou "frio" (modorrento) de cada filho.

Foi muito o meu caso, durante o curso primário. Ia para a escola à tarde e fazia a lição de casa de manhã ouvindo a fumaça sair da panela de pressão, o rádio passando programa de "variedades", Ia brincar na rua, tomava banho e esperava papai chegar para almoçarmos aquela comida caseira e quentinha, de base libanesa.   

Com o progresso, veio nova divisão do tempo, que firmou o distanciamento entre a casa e o local de trabalho, e cada vez menos as pessoas vão para casa almoçar. O sistema de entrega em Bombaim busca encurtar esta dificuldade de um trabalhador poder se alimentar de "sua" comida do dia. Alternativa ao soul food, vimos o fast food se estabelecendo. 








terça-feira, 23 de setembro de 2014

Kahena





Kahena (a da frente) e Martine (a de trás)

A amizade com os Kunze, Audrey e Cláudio, germinou a partir daquela entre os nossos filhos, da mesma idade, e que brincavam juntos. Morávamos no mesmo condomínio. Erik e Francisco frequentaram a mesma escola maternal, que ficava do outro lado da rua. Fomos morar nos Estados Unidos, quando o Francisco tinha quase 3 anos, e voltamos 3 anos depois, para o mesmo apartamento. Logo que voltamos, soubemos pelo Erik, meio mal explicado, que estava para ganhar uma irmãzinha. Acompanhamos como vizinhos próximos a vinda da Kahena, e a vimos crescendo vítima de repetidas molecagens da dupla Erik-Francisco -- que chegou a ser conhecida por Xitãozinho e Xororó. 

Os Kunze formavam uma tradicional linhagem na vela. Seu Edgar, o opa, pai do Cláudio, era o comodoro do Iate Clube de Santo Amaro, clube do Robert Scheidt. Cláudio, ele mesmo campeão da classe pinguim, trabalha no projeto e acompanhamento da construção de lindos barcos e veleiros. Não era portanto sem um DNA que a Kahena prosperava como velejadora e um encanto de menina. Pelo que me explicaram, a escolha de seu nome único (pelo menos nunca conheci outra) se deve a uma forte personagem que foi rainha de muitas tribos bárbaras, e amante da natureza. Mas no caso a pessoa faz o nome.

Pois não é que ela, em dupla com a Martine Grael, se tornou campeã mundial de vela na classe 49er FX, em competição realizada na semana passada em Santander, na Espanha?


Por uma desta coincidências, encontramos os Kunze no Rio de Janeiro, onde moram hoje, e, contaminado, acabei por compreender um pouco mais esta "coisinha maluca" chamada se sentir orgulhoso. Já estou tomando assento nesse barco navegando em direção ao ouro olímpico.  

domingo, 21 de setembro de 2014

Dia da árvore -- 21 de setembro


Centenário cedro do Líbano


Velhas Árvores
(Olavo Bilac)

Olha estas velhas árvores, mais belas 
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:
Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

No Grand Canyon




Nos fins de tarde
Se põe
O sol
Por testemunha

Árido chão
O rio erodiu
E fez colorada
A ribanceira

Séculos de
Intemperismo
Soam
Intemporais

Semi-sonolência
Lógica
Dos processos
Geológicos

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Contadores de histórias


Eduardo Lima (Barreiras, Bahia), "O contador de história", óleo sobre tela (80 x 100)


A prática da blogagem baseada em contar "causus" guarda muito da essência do contatador de histórias. Fico olhando essa pintura, e imaginando o quanto um blog carece de interatividade pela ausência física de uma platéia... 

Eu também gostava muito de contos infantis, cheios de fantasias, que pude ler criança. Me recordo, em especial, de uma coleção encadernada de livros de contos do Malba Tahan, que ganhei dos meus pais. 

Mas não substituía a história contada, seguindo a tradição oral. Foi o que recebi de uma pessoa simples, cujo nome nem me lembro, empregada doméstica na casa dos meus tios Júlia e Jamil, que ficava três casas ao lado da minha, Ia correndo sentar no chão da edícula, no fundo do quintal, para ouvir seu repertório de estórias de reis, príncipes, mágicos, soldados, ladrões e os temíveis piratas, que ela me contava enquanto passava roupa. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Interrompi o trânsito da San Francisco Bay Bridge




O "causu" é o seguinte:

Me ofereci (perdão pela próclise começando a frase) quando estudava em Berkeley para levar minha colega e amiga Josefa, uma outra estudante brasileira que fazia pós em Estatística, até o aeroporto de Oakland, de onde partia seu voo para o Brasil.

No caminho a gente passa por um emaranhado de pistas quando hesitei. Ao invés de acreditar na sinalização, optei por outro desvio -- o que saia para os lados do aeroporto. O fato é que um passava em cima do outro e acabei entrando no caminho que levava à San Francisco, através da Bay Bridge.

Atravessar a ponte -- e depois retornar -- iria me custar tempo precioso com risco da Josefa perder o vôo internacional.

Antes da entrada da ponte tinha um pedágio. Expliquei para o moço da cabine que eu estava indo na direção que não queria. Ele apertou um botão que ficava embaixo da mesa, o que deixou vermelho todos os sinais. Parou todo o trânsito para que eu pudesse dar meia volta e retornar de forma a retomar o caminho do aeroporto. Nem o pedágio do ir nem o do voltar foram cobrados!

Moral da história: Pode ser melhor seguir instruções que intuições.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Duzentos



Não é limite de velocidade, é o número de postagens que este blogue atinge. 

Prova de que as escolhas prevalecem sobre a proporção, duzentos, que é o dobro de cem, ao contrário de ter o dobro de sua importância, pouco tem representado em nossas vidas. Das poucas referências mais "semimetafísicas", a repetida admoestação: "Já te disse duzentas vezes".

sábado, 6 de setembro de 2014

Um e noventa e nove



Pois é! Com a presente completam-se 199 postagens, neste blogue. Um número que me fez lembrar as lojinhas que anunciam a venda produtos a R$ 1,99. (Quase sempre acompanhado de um minúsculo "a partir de"). São reencarnações das "dime stores" que proliferavam nos Estados Unidos até meados do século passado. Vendem de tudo: quinquilharia em geral, produtos de limpeza e de papelaria, pirulitos, guarda-chuvas que duram uma chuva, lenços para amarrar no pescoço, bijuterias, caixinhas de plástico, bolinhas de gude, ioiôs, agulha e linha, velas e outros artigos de festa etc. Na época de Natal, bolinhas coloridas e miniaturas para decorar a árvore.

Fico me perguntando até que ponto, pelo que oferece, este blogue não acabou sendo uma realização subconsciente de uma lojinha de um e noventa e nove que, como um libanês legítimo, eu teria gostado muito de ter.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O Dante que ajudei a erigir



Estive hoje assistindo a um Seminário sobre "Reurbanização dos negócios na cidade do Século XXI" no auditório da Biblioteca Municipal e aproveitei para passar na praça dom José Gaspar que ocupa o resto da quadra. Fui lá para fazer uma visita ao Dante Alighieri, esculpido pelo Bruno Giorgi, contando com minha colaboração financeira.

Explico: no ano de 1954, algumas iniciativas foram tomadas para marcar o quarto centenário da fundação da cidade de São Paulo. Comunidades estrangeiras registravam sua presença na sociedade paulista através de esculturas de seus mais importantes literatos no entorno da biblioteca. Eu era então aluno do curso primário do colégio Dante Alighieri, onde foi "passado o chapéu" para arrecadar recursos para uma escultura de seu patrono, e me lembro de ter feito uma contribuição -- com o dinheiro de meus pais.

Dante está partilhando a sombra das árvores da praça com Cervantes, sentado, e a cabeça de Goethe.




terça-feira, 2 de setembro de 2014

It was the third of September The day I'll always remember...

Clicar no triângulo, aumentar o som 







Papa was a Rolling Stone

It was the third of September
The day I'll always remember, yes I will
'Cause that was the day that my daddy died
I never got a chance to see him
Never heard nothing but bad things about him
Mama, I'm depending on you, to tell me the truth

And mama just hung her head and said,
Son, papa was a rollin stone...my son 'now
Wherever he laid his hat was his home
And when he died, all he left me was alone
eh! eh! eh! eh..
Papa was a rollin' stone, my son
Wherever he laid his hat was his home
And when he died, all he left me was alone

Well, well

sábado, 30 de agosto de 2014

Calhamaços





A crescente capacidade de armazenamento e de recuperação seletiva de informações é incrível. Centros de documentação com prateleiras compridas onde se ombreavam publicações seriadas com dados socioeconômicos, ou as hemerotecas, vão gradualmente desaparecendo, à medida que a gente descobre que está tudo na Web. Desempoeirado, pronto para ser usado.

Dentre todos os alfarrábios que foram desaparecendo um dos que mais sinto falta são as listas telefônicas, em especial suas páginas amarelas. Percebi que as listas pararam de ser distribuídas com o gradual crescimento da telefonia móvel -- nômades, que não têm endereço. Não me lembro de ter visto alguma vez a lista com os telefones celulares das pessoas.

Quando recebia a cada ano, a primeira felicidade era verificar que o nosso nome estava listado corretamente com o endereço e tudo. Prova de vida, registro escrito de que permanecemos no tablado mais um round nesta luta contra a efemeridade.

As listas telefônicas brancas e amarelas foram precursoras no formato impresso do Google. Nos hotéis, ficavam em geral em prateleira na mesinha de cabeceira, que guardavam inevitável Bíblia nas gavetas. Me entretinha tentando encontrar um xará na cidade.

Traziam mapas de ruas, fatos históricos principais atrações turísticas da cidade, telefones de 3 algarismos, da polícia e dos bombeiros, outros telefones úteis como o do táxi ou do centro de zoonose para informar sobre animais perdidos, DDDs e DDIs do mundo todo telefonável, uma ampla lista de produtos e serviços oferecidos por empresas do local, horários de cultos religiosos. Como agir em caso de um terremoto.

Eram muito espessas, e rasgar uma lista grossa era prova de demonstração de força em concurso de calouros pela televisão.







terça-feira, 26 de agosto de 2014

Anjinho da guarda



Em minha última postagem contei que identifiquei no tungstênio o meu anjinho mau.  

É tinhoso mesmo, conforme a Wikipedia: 

"O tungstênio é o único metal da terceira série de transição que se sabe ocorrer em biomoléculas, usadas por algumas espécies de bactérias. É o elemento mais pesado que se sabe ser usado por seres vivos. Porém, o tungstênio interfere com os metabolismos do molibdênio e do cobre, e é algo tóxico para a vida animal".

Colocada na criação a dialética essencial da virtude e do pecado, passamos a vida monitorados por dois elementos, o anjo da guarda, da legião do Bem, e o outro do Mal, que no meu caso é esse desgraçado do tungstênio.

Consultei a tabela periódica, obra-prima de Mendeleiev, na busca de um elemento que tivesse cara e focinho de meu guardião e elegi o Darmstádio.

O nome provisório desse elemento, após sua descoberta foi Ununílio, que não só rima com Emílio mas parece recompor uma unidade. Outro aspecto interessante é ter sido batizado em homenagem à Darmstadt, por ter sido obtido no seu Gesellschaft für Schwerionenforschung.

Darmstadt é uma gracinha de cidade universitária alemã que de certa forma está ligada ao meu renascimento, pois foi minha primeira estada no exterior após ter trocado a válvula aorta. Convidado pelo Prof. Kosta, fui professor vistante do Programa Erasmus Mundus Urbano, da Universidade Técnica.

Além de tudo isso Darmstádio se trata de um elemento instável, que frequenta o mundo travestido de isótopos, o que combina com um tipo de anjo da guarda camarada.

Darmstádio vs. Tungstênio, "meu bem, meu mal"






segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tungstênio



Fui dormir com o estômago semi-cheio. E sonhei com um elemento terrível que estaria querendo me azucrinar o resto da vida: tem o nome de Tungstênio, nome que cabe muito bem para cria fabulosa de algum deste cientistas do mal, tipo doutor Silvana. Deve ser aparentado do Frank-stênio. 

Tão dissimulado é que -- ao contrário do usual -- adota como símbolo químico o W, letra diferente da inicial do seu nome. Por se tratar o "dabliu" de uma letra extinta do abecedário do idioma português, tenho motivo para achar que se trata de um estrangeiro. 

Xô!






sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O Parque do Ibirapuera completa 60 anos








Na data de ontem, o Parque do Ibirapuera, projetado pela dupla Niemeyer / Burle Marx, completou 60 anos desde que foi inaugurado, como marca das comemorações do IV Centenário da fundação da cidade de São Paulo.

Eu tinha 6 anos e já frequentava o local que eu chamava de Vira-poeira, não por mero acaso, porque coincidia com a visão que eu fazia do lugar, meio no que era para nós o fim da cidade, com ruas de terra, e tinha poeira para virar. Já havia o laguinho, com um deck, com um bar, e onde podia se alugar um barquinho.

Me lembro que fomos assistir à festa de inauguração. Conversando com mamãe ela disse que se lembrava também porque não se conseguia um táxi, e tivemos que voltar a pé para casa, com ela carregando minha irmã Cristina, de um ano e pouco no colo.

Guardei na memória uma lembrança que tenho daquele dia de inauguração. Me lembro que havia um desfile alegórico em que incluía um bloco de índios vestidos com uma tanga de penas. Pude ver se estava lá sob a tanga o que eu esperava e, grande desilusão, o tal índio tinha uma cueca por baixo.

Foi importante parte do processo de minha descoberta de que há diferença entre realidade e sua representação. Magistralmente registrado no "c'est pas un pipe", do Magritte. Vira-poeira virou poeira.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

As contas de Ocléris




A argila cozida
Se faz de conta

A artesã pinta
... e borda
Passa da conta

Incontáveis
   contas
mas dá conta

Cosendo
conta a conta
colando
   cores

colares

                                                                       Curitiba, 08/06/2011

Ocléris é uma reconhecida artista plástica e ceramista que vive em Curitiba e é prima da Ângela. Em 2011, aproveitando uma ida àquela cidade onde participei de um Seminário, organizado pela American Planning Association, fomos vistar a família e ao ateliê que fica no quintal de sua casa. Naquele ambiente da artesania, recebi a inspiração que deu nessa poesia.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sgroppino



O conceito de fazer um coquetel gelado misturando o suco de limão a uma bebida alcoólica de sabor neutro, ou quase, se apresenta em várias culturas. É o caso, por exemplo, da nossa caipirinha, sua corruptela, a caipiroska, da marguerita no México e -- provavelmente sua forma mais aristocrática -- o sgroppino, que me apresentaram em Veneza. A receita do sgroppino leva três componentes: vodka, prosecco e sorvete de limão. 

Há nuances de sabor: se na caipirinha "clássica", o limão é do tipo galego, no sgroppino se usa o limão siciliano. Aproveita-se a casca para decorar o drinque bem acompanhado de uma folhinha de hortelã, uma presença do Oriente que tanto influenciou a forma e a cultura veneziana. 

"Salute a tutti" 

domingo, 17 de agosto de 2014

Carona



Após participar de uma reunião em Bogotá sobre Avalúos, dei uma esticadinha na viagem para conhecer Cartagena das Índias, e naturalmente comer uma de suas magníficas lagostas. Hospedei-me dentro parte murada de Cartagena das Índias, numa pousada que me recomendaram. Era uma adaptação de uma casa estilo espanhol com um páteo em torno do qual estavam os quartos e a quitinete da dona. Uma colombiana gordona muito extrovertida e que me deu muita atenção e, de presente, um monte de frutas exóticas quando de lá saí. Uma vez lhe perguntei sobre qual praia deveria ir, e ela me respondeu perguntando se eu estava mais interessado em "las tangas" ou em "las olas". 

Cartagena mantem suas ruas e calçadas estreitas, e um povo moreno. Uma Bahia do Jorge Amado, em castelhano.

Ao voltar, peguei um táxi para o aeroporto, e o motorista tinha que passar bem perto da calçada. Teve que se acercar de uma daquelas mocinhas rebolantes. Diminuiu a marcha, e pela janela, perguntou-lhe se ela gostaria de um passeio até o aeroporto. Ela não se molestou com um tal convite, abriu um sorriso, e disse que não poderia naquele momento. 

Uma questão -- daquelas que se costuma dizer "que não quer calar" -- se caso ela aceitasse, deveria eu negociar com o taxista pagar a metade?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Assunção de Maria

A Assunção de Maria



Ticiano, A Assunção de Maria (1516-1518): Santa Maria Gloriosa dei Frari, Veneza


15 de agosto, festa da Assunção de Maria. Um momento bíblico inspirador. Ticiano usa suas cores para criar a elevação. Assunção, ser assumida, lá em cima, tem uma ascensão. Movimento, momento, fé. Sete metros de êxtase.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Datilografia


Se chamavam máquina de escrever, eram bem pesadas, totalmente mecânicas a ponto de que podíamos ter uma letra mais "forte" que a outra, dependendo da intensidade da teclada. Uma destas, de cor preta, marca Remington se tornara para mim grande atração da fábrica de camisas que tinham meu pai e meu tio.

Com o progresso, elas foram ficando mais leves e portáteis. Quando apareceram as elétricas, traziam novos recursos, as letras saiam mais uniformes, permitiam apagar e reescrever pequenos trechos. Aumentou a velocidade.

Existia uma profissão, a datilógrafa, em geral mocinhas, sob comando da secretária, as primeiras espécies já extintas, e a última em fase de crescente extinção principalmente com a utilização de recursos da eletrônica. O normal era alimentar as datilógrafas com manuscritos semicodificados. 

Proliferavam nas áreas comerciais escolas de datilografia, onde se era treinado a escrever sem precisar olhar no teclado. Aprendi -- mais ou menos -- a datilografar usando um livro de prática que me foi emprestado pelo Cristiano Kok, companheiro de jornalismo estudantil. Eram usados todos os dedos das mãos, cabendo ao polegar uma tecla comprida para espaço vazio. Hoje vemos o contrário, a moçada “texta” usando só os polegares. Exemplo de superação que nos dá o dedão?

Hoje, teclados virtuais, quando necessários, aparecem na telinha de computadores ou dos chamados telefones “smart”. São usados editores de texto, muitos dos quais, como piloto automático, assumem o comando da redação, autocorrigindo e, até, antecipando por contra própria o final de uma palavra. 

Vamos ao causu. Estávamos no Alasca, para participar do I Encontro da International Real Estate Society, realizado em 2001. Alugamos um carro para conhecer a região que era muito bonita e cheia de floresta de pinheiros. Na época descobri que as bibliotecas públicas ofereciam acesso gratuito à Internet, e paramos numa delas, semiescondida na floresta. Enquanto usava o computador, a bibliotecária saiu de trás do balcão me admoestando porque o ruído de minhas tecladas estava incomodando todo o mundo. 


sábado, 9 de agosto de 2014

Um pouco sobre meu pai


Uma foto rara de meu pai, feita em estúdio muito provavelmente em Damasco , pouco antes de ele migrar para o Brasil (cerca de 1930) e que meu primo Pedro Nosralla Júnior acabou "descobrindo".


Amanhã, segundo domingo de agosto, é dia dos pais. Dele pouco escrevi neste blogue e talvez a efeméride dê azo a que eu venha "preencher esta lacuna". Papai se chamava Said, que no idioma árabe, significa feliz. Dele herdei, a calvice, o sobrenome Haddad, e o sentimentalismo que se cristaliza na alma do imigrante que deixou atrás de si a família, para tentar a vida em país distante. Teve vida relativamente curta, morreu aos 54 anos, mas seus últimos anos de vida -- dos quais me recordo melhor -- foram de uma saúde debilitada em consequência de um infarto que tivera 5 anos antes, quando eu tinha 11 anos.

Mas o que chama atenção neste caso é o grande avanço da medicina que tem beneficiado as novas gerações de quantidade e qualidade de vida. Hoje já cheguei aos 66 anos, graças ao acompanhamento médico competente que incluíram duas cirurgias no coração, e que não eram disponíveis na época. Também fiz micro-cirurgias uma em cada ouvido que me restabeleceram uma capacidade auditiva, que tampouco lhe era disponível na época, e eu percebia como era difícil para ele conviver com a própria surdez.

Arrolar todas as operações que fiz, daria uma lista de supermercado. Mais importante de tudo, nenhuma dor ou sofrimento acompanharam tais intervenções cirúrgicas.

Papai está sepultado no cemitério do Araçá, em São Paulo, onde está me aguardando.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

No automático


Viagem para conhecer as Rochosas canadenses. Que ao vê-las pela primeira vez, da janela do carro alugado, o Francisco, ainda menino, nos perguntou: "Vamos subir este morrão?"

Voo noturno de São Paulo a Toronto, onde baldeamos para outro de Toronto até Calgary. Estava escurecendo, um breve lanche e despenquei na cama no quarto do hotel. Acordei semissonambulando para ir ao banheiro, passei pela porta e, de repente, a banheira subiu do seu lugar e me vi deitado dentro dela, começando a ficar molhado. Quando a ficha caiu, descobri que não estava em casa... onde a bacia sanitária ficava do outro lado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Casado com Angela há 33 anos






Quando abri minha página do Facebook no dia 1 de agosto, a primeira coisa que aparecia era uma mensagem do próprio FB, referente ao nosso aniversário de casamento com um conjunto de fotos nossas que estavam armazenadas. Tinha um quadradinho para compartilhar. A Ângela propôs ao invés daquelas fotos que puséssemos uma do nosso casamento, a exemplo do que outros tinham feito. Tirei uma foto de uma das fotos do nosso álbum, e postei. Ficamos muito empolgados com o volume de comentários amigos e de “curtidas”, só estas chegando a uma grosa.  O fotógrafo que contratamos, de nome Fausto, era meio artista, meio jornalista. Falou mais ou menos assim: vocês tratem de casar que eu trato de fotografar: praticamente saía tudo da cabeça dele. Foram raras as poses e muitas as lamentações de que pessoas muito queridas não foram registradas. Passados uns meses uns amigos nos contaram que viram algumas de nossas fotos numa exposição de imagens de casamento que o fotógrafo houvera feito. Ele tinha como premissa que casamentos com noiva de véu branco logo logo não iriam existir mais, e que portanto ele estava empenhado em documentar como eram as coisas no século XX. 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Fone de ouvido





O que houve?

Vê a gente
mas
não nos ouve


O que ouve
Deve haver

Mas a gente
não há de ver

terça-feira, 29 de julho de 2014

Palavrão



No ambiente no qual fui crescido, palavrão era coisa muito feia. Se aceitava apenas em alguns lugares em circunstâncias especiais: estádios de futebol, peças de teatro para maiores, literatura do tipo realista. Utilizado como forma extrema de xingamento uma pessoa, atribuindo-lhe e à sua mãe desvios sexuais. Falar palavrão era falta de educação, uma transgressão social.

No curso ginasial, tínhamos aulas de inglês com o Padre Geraldo, um canadense. Ele adotava um livro didático que ao lado da gramática continha trechos de obras de autores importantes. Numa certa aula, iríamos ler um trecho das "Vinhas da Ira", do Steinbeck. Padre Geraldo, no seu exórdio, nos preveniu de que o autor descrevia cenas de gente rude, e que muitas vezes, falavam palavrões, e é claro a classe ficou mais esperta.

A cada aluno cumpria ler um trecho, que era então traduzido. Num dado trecho, Padre Geraldo disse: Essa expressão é o pior palavrão do idioma em inglês.Toda a classe ficou silente, fazendo sua aposta mental, puxando da memória sua lista particular de obscenidades. O recatado Padre Geraldo teria coragem de traduzir aquilo em bom português?

"Goddamn", ele nos ensinou, quer dizer "que Deus seja maldito"



domingo, 27 de julho de 2014

Bodas de crizo




Na semana que ora se inicia, mas exatamente no dia primeiro de agosto, Angela e eu completaremos 33 anos de casados. Na tabelinha que achei -- e duplo chequei -- através do google, vamos comemorar bodas de crizo, palavra que acabei de aprender. Fui pesquisar de que se trata este crizo, e não achei, nem no Houaiss, que ganhei uma vez como presente de Natal. Como era de se esperar, outros irmãos blogueiros já passaram por este momento e tiveram a mesma dúvida. Leiam por exemplo a postagem de Arnaldo Onça ou Zeca Barroso. Depois de levantarem diferentes hipóteses algumas apelando para o grego antigo, que não se sustentaram, parece haver consenso que esse tal de crizo não existe mesmo. O problema a ser resolvido é de um presente de aniversário de casamento alternativo a uma caixa de crizos, ou seja, vazia.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Indianas na construção civil


Uma coisa que chamava atenção na construção de edifícios em Bombaim (ora Mumbai) era o colorido dos saris, em movimento no meio daquele buchicho que é uma obra civil . O professor que nos guiava informou que as mulheres tinham presença definida nas obras por serem muito mais capazes do que os homens de transportar os tijolos em pilha equilibrando na cabeça, até o ponto de assentamento, como por exemplo na construção da alvenaria.  Disse também que contratavam a família (marido e mulher, e filhos) para trabalharem juntos. 

No Brasil, salvo nos mutirões, as tarefas da construção civil são geralmente coisa prá homem. A afinidade imediata com as pedreiras indianas é com as nossas lavadeiras que carregam na cabeça uma bacia de roupa ida e volta até o "córgo". Ou da lata dágua na cabeça, como lá vai Maria. 

Não se restringia às mulheres transportar coisas na cabeça, porém. Na minha infância, adorava acompanhar mamãe na feira da rua. Aquela profusão de frutas e legumes, os divertidos anúncios gritados pelos donos de barraquinhas: "Laranja da chácara do Pelé", "Olha o coração apaixonado" "Pente cinco barbatana dois", perpetrando assim a algaravia. Na esquina ficavam uns moços muito fortes, que poderiam ser contratados para acompanhar as senhoras carregando as compras numa enorme cesta, que equilibravam na cabeça. Cada vez que alguma coisa era comprada, eles levavam ao chão a cesta  para colocar a nova compra de forma equilibrada. E depois acompanhavam a compradora até a casa. O carregador preferido de minha mãe era o Ziza, um negro muito forte que poderia ter sido modelo de alguma gravura do Debret.

Com o progresso, veio a universalização do abastecimento doméstico de água, e o automóvel; pouco a pouco esse equilibrismo na cabeça vai desaparecendo. 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Bala Bosta

Balaboosta

Balaboosta: n. A Yiddish term meaning the perfect housewife, homemaker, wonderful mother, cook & gracious hostess. She does it all and she does it well!


Tem algumas coisas que ficam na memória, e que a gente guarda mas nunca teve ocasião ou instrumentos para entender. Uma coisa me chamou atenção, na primeira vez que fui a Berkeley de carro. Foi em 1972. Para se chegar ao campus, a gente saía da free-way e entrava numa avenida de nome óbvio: University Avenue; se via logo à esquerda um restaurante de nome Bala Bosta, nome que imediatamente associei à inventividade de algum brasileiro gaiato. Nunca frequentei aquele lugar, até porque não achava o nome muito, digamos, convidativo. 

Hoje me lembrei daquele nome e resolvi pesquisar na Internete. Acabei descobrindo que se trata de nome comum a outros restaurantes, e o elegante letreiro art nouveau na figura acima é o da casa em Nova Iorque. Note-se um segundo O, que torna o nome um pouco mais palatável. 

Traduzindo, balaboosta é um termo iídiche que significa a esposa perfeita, dona de casa, mãe maravilhosa, "graciosa" cozinheira e anfitriã. Ela faz tudo isso e faz bem!

Fico pensando o que devo ter perdido por não ter ido comer lá.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Apolo 11-- ou a vida passada diante da televisão


Completam-se hoje 45 anos da primeira descida de um homem na lua. Uma fabulosa conquista que no meu caso coincidiu com aquele despertar pessoal pelas conquistas da ciência. Acompanhávamos pelo noticiário o andamento e a consecução vitoriosa deste projeto.

Mas vamos ao causu. Há cinco lustros atrás, em 1989, nesta data eu me encontrava sozinho na casa que alugamos do ilustre Prof. Manuel Castells que estava passando um ano na Espanha, dando uma forcinha ao governo socialista do Felipe Gonzales. Eu tinha ido na frente para arrumar as coisas, e aguardava a chegada da Ângela com o Francisco, que tinha então 2 anos. 

Ficava explorando as novidades daquele lugar onde eu vivera 3 anos na década de 70, e uma das que mais me fascinavam eram aqueles canais de televisão tipo Shoptour. Um dos produtos à venda naquela tarde era uma medalha comemorativa dos 20 anos da descida na lua. O locutor tentava transferir para aquele badulaque o valor do feito, enquanto ficava abaixando o preço inicial pedido. Falava ao vivo pelo telefone com todo o país. Foi então que numa destas ligações perguntou à teleouvinte, que vivia numa cidade do meio-oeste: "E você, se lembra onde você estava naquele momento em que o homem descia no solo lunar?" Ela respondeu: "aqui neste mesmo lugar em frente à TV".

  




sexta-feira, 18 de julho de 2014

Quase sempre chego atrasado




Enquanto destino um pouco do tempo de semidesocupado na produção deste blogue, leio uma matéria que saiu no jornal inglês "The Guardian" com o título: "Devemos chorar a morte dos blogs pessoais?" Já eram... Sou um ser em permanente semi-anacronismo. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Resiliência

Arbusto de Buxinho

Existem termos e expressões que ficam na moda. Em todos os ramos do conhecimento. Um que está na moda atualmente em matérias ligadas ao urbanismo é resiliência. Para a física é a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido tensão. Para a psicologia, a capacidade de uma pessoa voltar ao normal depois de ter sofrido um trauma. 

Fui convidado para participar de uma mesa redonda que trata de cidades resilientes, e estou no momento preparando minha apresentação sobre o tema. Me lembrei das plantas que se recompõem após terem sido podadas. Como as unhas e o cabelo. 

Me fez lembrar um causu. Quando aluno em Berkeley, todo o sábado à tarde ia jogar futebol com o pessoal da International House. Acabado o jogo, íamos tomar cerveja. Um dia, no retorno para o dormitório, estávamos quicando a bola pela rua, quando ela atravessou o jardim de uma casa e entrou dentro de um buxinho. Enquanto enfiava a mão para recuperar a pelota, fui eu mesmo agarrado pelas pernas por dois parceiros -- um deles um inglês semibêbado -- que vieram por trás e me "enterraram" dentro da planta. Claro que ela ficou com uma marca. 

Meu caminho de todos os dias, passava por aquele buxinho e via a marca que deixei. Mesmo involuntário, me sentia um pouco protagonista da história do mundo. 

Quis o destino que quinze anos depois eu voltasse para lá, desta vez em vez de aluno como professor convidado. No primeiro dia fui checar a marca que eu houvera deixado e ela não existia mais. O buxinho era resiliente.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Atracando em Mar del Plata


Costa Allegra

Quando o navio atraca em um porto pela primeira vez, é tradição ser recebido com pompa. Um cruzeiro maritmo que fizemos para a Argentina, com o navio Costa Allegra, incluiu em seu roteiro uma parada em Mar del Plata, onde ia pela primeira vez. Eu tinha o hábito de me levantar cedo, horário em que o navio chegava nos pontos de parada, pois as travessias se faziam à noite. Muito bonita a vista das cidades desde o mar, uma perspectiva inusitada. Mar del Plata fica numa bem conformada baia. 

No caso de Mar del Plata a manobra para "estacionar" foi muito complicada. No convés, eu via o comandante do barco agitado e telefonando. Conversando com ele, depois, reclamou em italiano sempre gesticulando que o "prático" argentino deveria estar dormindo na hora da chegada, e que o navio estava sendo muito mal conduzido, e que teve medo que a quilha trombasse com a marina de pedra na entrada do porto. "Sou responsável por um artefato de 500 milhões de dólares!" 

Mas conseguimos aportar, no momento em que a banda perfilada no cais atacou bem alto, para emoção dos argentinos, "La cumparsita". Por um tapete vermelho,  o prefeito da cidade se aproximou das escadas e subiu no navio trazendo de presente quadro com uma pintura da cidade para ser colocada na parede da cabine de comando. Retrata o cenário de um drama que o comandante vai carregar em sua lembrança.

domingo, 13 de julho de 2014

Baile dos bombeiros de Paris



Em 2009, tivemos a oportunidade de passar o 14 de julho em Paris. Nossos amigos parisienses aproveitaram o feriado para viajar. O Alain, que foi meu colega de dormitório em Berkeley, nos deixou a chave de apê deles na subida para Monmartre, de cuja janela dava para ver bem pequenino ao cair da noite os fogos no Campo de Marte, que culminavam um show de paraquedistas que despencavam lá de muito alto seguidos do som do Johnny Hallyday. (audível na televisão). 

A missa na Notre Dame, onde o organista "mandou muito", tinha os bancos dianteiros reservado para os bombeiros.  Por algum motivo esse grupo semifardado tem no catorze juillet um dia especial de glória. Naquela noite os "pompiers" promovem bailes dentro das casernas, ocasião em que as moças francesas são convidadas a adentrar naquele androceu para bailar com estes queridos heróis anônimos que combatem o fogo, e que todo menino um dia quis ser.

Fico pensando -- encanto por homem de farda à parte -- se esta abertura de portas às demoiselles se trata de alegoria feminista que restou da libertária tomada da Bastilha.  

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Glassa


Combina com doces e com salgados, na tavola fredda e na tavola calda, na salada de frutas, e na salada salada mesmo, misturada ao azeite e limão, substitui o chocolate, até na maçã, ou moranguinho de amor, veste (dress) terra, ar e mar, ou seja carne ave e crustáceos, combina com queijo especialmente a ricota. Pela sua competência em harmonizar sabores contrários e contraditórios, meu candidato ao Prêmio Nobel da Paz.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Engoliu



Eu tinha ido participar de uma conferência da American Collegiate Schools of Planning que teve lugar em Pasadena, na região de Los Angeles. Fui fazer uma ligação nestes telefones públicos operados com moedinhas. Teve um problema na ligação e a máquina já tinha engolido as moedas. Diante disto apertei o botão "O", que chama a telefonista ("operator") e expliquei o caso. Ela disse que não tinha como fazer aquelas moedas cairem de volta mas que eu informasse o número de meu telefone que ela faria o crédito em minha conta. Disse a ela que não morava nos Estados Unidos, e ela pediu meu endereço no Brasil. Logo após meu retorno ao Brasil chegou em casa uma carta com um cheque nominal no valor de U$ 1,50 (um dólar e 50 centavos)! A taxa cobrada pelos bancos para fechar o câmbio para depósito em minha conta corrente oscilava em torno de 60 dólares. 

Passei várias vezes por situações assemelhadas no Brasil, em que o cartão telefônico consumia créditos a troco de nada, ou simplesmente era engolido. Por mais que procurasse nas instruções pregadas no telefone, nunca consegui achar a quem reclamar. 


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Ask Anna





A imagem que atribuo às pessoas muito ricas, é que elas dispõem do trabalho de outros para cuidarem de seus afazeres ou negócios pessoais. Há uma variedade destes: mordomos, valet de chambre, chefe de gabinete, capangas, secretários, motoristas. Possuem o seu dentista, podólogo, agente de viagem, despachantes, etc. 

Minha amiga Lizzy me acompanhou nas compras lá na California. Fui ver uma teleobjetiva para minha máquina fotográfica, e fiquei em dúvida se o preço estava bom. Ela pegou o celular e ligou para sua filha Anna, que trabalha diante de um computador, e pediu-lhe que descobrisse o valor pedido pela concorrência. Três minutos depois veio a resposta, que ela obteve googlando. 

Assim, vislumbramos um tipo novo de colaborador, o google-searcher, (vale um neologismo: o guglador). Precisa de alguma informação rapidinho? Peça ajuda à Anna. 

PS - A tele estava mais barata no Freeshop de Guarulhos...



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Aniversário do amigo



Estávamos num bar, na cidade de Piura, norte do Peru, quando um fulano que eu nunca houvera visto mais gordo, mandou distribuir uma caneca de cerveja para cada um presente. Em seguida, anunciou. "Hoje é o aniversário do meu amigo", indicando o amigo. "Vamos todos fazer um brinde à sua saúde". Ficamos de pé e levantamos a caneca, num coro de parabéns. E continuou: "Agora vamos fazer uma fila, para cada um cumprimentar o meu amigo". 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Radiestesia


Quando ocupei o cargo de Diretor Técnico da Prefeitura da Cidade Universitária de São Paulo, lá trabalhava em programação visual uma arquiteta, que se interessava por pensamentos alternativos, por vezes místicos. Ela fazia um curso de radiestesia, que até então para mim era aquela prática de encontrar água no subsolo usando uma forquilha. Mas a coisa era muito mais ampla, dizia mais respeito a buscar um alinhamento pessoal com o movimento do cosmos. O melhor exemplo que me passou era o fato de não ter problemas em achar vagas em estacionamentos de shopping lotados: sempre passava por uma vaga que estava desocupando...

Nestes dias encontrei um contraparente numa festa de aniversário que fez um comentário interessante, atribuindo ao cosmo uma inteligência própria que se divertia atormentando as pessoas idosas. Segundo ele, não são os idosos que tropeçam nos degraus, mas é a escada que voluntariamente se mexe, não é o idoso que deixa a comida cair no guardanapo, mas a própria comida que decide sair da boca do idoso. Conspiração desse mundo...

sábado, 28 de junho de 2014

Quentão




Me encontrava na Jamaica, e o colega que me recebeu perguntou se eu gostaria de provar o ginger beer (literalmente cerveja de gengibre), um tipo refresco, vendido em caixinhas tipo tetrapark. Tem mais jeito de suco que o ginger ale, uma soda carbonatada vendida em latinha que a gente quase nunca encontra no Brasil. Mas é normalmente servido nos vôos para o exterior. Contei para ele que com o gengibre se fazia o quentão, bebida típica das festas juninas. Se cozinhava o gengibre com açúcar e especiarias, notadamente cravo e canela em pau, numa panela de cachaça, para ser servido quentão. Depois de lhe explicar o que era a cachaça, um destilado da cana de açúcar, meu anfitrião disse: "Deve ser letal". 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Alto Paraiso


Chapada dos Veadeiros -- vale da lua 

O mundo ia acabar na virada do milênio, muitas seitas e pessoas se instalaram na região, semi mística, um pouco a norte de Brasília. Se falava que lá o subsolo continha muita energia, como em nenhuma outra parte do globo. Infelizmente o mundo não acabou, o local se transformou numa semitapera. Quando visitei, em 2005, os comerciantes do local lamentavam que o mundo não tivesse acabado, porque caso contrário os negócios teriam continuado muito ativos. 


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Pizza


Estive hospitalizado na Tailândia, e ficava assistindo televisão no quarto. Tinha um canal que transmitia desde um dos emirados, onde todos os dias passava um programa destes de culinária. A "chefa" deveria ser uma emira, pela supermoderna cozinha que tinha à sua disposição no programa. Sempre tinha convidados cuja função era a de assistir de boca calada a chefa produzindo suas receitas. Que era dada em árabe. O prato que ela perpetrou num dos programas era...pizza, imaginem!  Do outro lado do mundo, onde me encontrava, deveria ser uma coisa exótica.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Estatísticas



Uma coisa que chama atenção nas reportagens e transmissão do futebol é o crescente número de estatísticas que são levantadas, graças à tecnologia digital. Na televisão é preciso, por enquanto, duas telas em que se comparam os números de um e de outro time. Nesta copa do mundo, na página de internet da FIFA, pode-se obter um monte de valores, tais como, numa determinada peleja -- e no total--  quantos chutes a gol um determinado time fez de dentro da área e que foram fora, quantos foram de fora da área na direção do gol, ou quantos passes curtos, médios e de longa distância foram dados; qual a porcentagem de desarmes, defesas e bolas afastadas, qual o jogador mais jovem, mais antigo, e quem participou de mais jogos da copa; qual o tempo de bola em jogo, qual figura mais nas redes sociais, e o quanto o jogador percorreu. E daí para frente. Fico um pouco embaralhado; uma que me foi mais estranha é a chamada número de assistências, que na minha época significava ambulância. Faltou a sirene. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Quem sabe faz a hora



Meu filho estava sendo esperado para dali uns dois meses. Eu voltava da Europa e, no Free Shop, resolvi comprar uma champanhe para abrir e celebrar seu nascimento. Fiquei esperando o momento adequado. Que acabou nunca se materializando. Não ia ser na sala de parto. Tampouco no berçário. No quarto da maternidade, não tinha a hora: eu tinha que que sair para providências, como ir registrar o Francisco no cartório, tratar com o seguro saúde, fazer pagamentos, em plena vigência do Plano Cruzado, quando mais ninguém -- só meu empregador, a USP -- respeitava determinado congelamento de preços, contratar uma babá, etc. Quando chegamos em casa, era preciso acomodar o novo morador, e não aparecia um momento de estourar a champanhe. Acho que a garrafa ainda deve estar por aí, se é que não se perdeu na mudança. Só então entendi como e porque era muito mais lógico distribuir charutos. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

50 tons de cinza



Precisei trocar minha carteira de identidade por uma nova. No posto da Polícia Federal, a atendente me fazia perguntas. Cor da pele? Branca. Cor dos cabelos: brancos. Epa!!!! Até então me julgava grisalho. Ela confirmou: cabelos brancos, e quem sou eu para discutir com uma pessoa que passa o dia fazendo identificação. Teoricamente, pelo trabalho que faz, é a autoridade na determinação da cor dos cabelos.  O grisalho é um compromisso de transição que o preto fez com o branco. Do tipo: vai com calma!  Pelo jeito, meus cabelos ultrapassaram aquele limiar semidifuso, onde o branco passa a dar o tom.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Gopher



Gophers são pequenos roedores que vivem no subsolo, em cavernas e túneis que eles mesmo cavam. Se alimentam de plantas e suas raízes. São malqueridos pelos fazendeiros, pelo estrago que fazem. Soube da existência deste bicho em março passado, quando fui visitar a Lizzy em San Diego, na California. Tive que pegar a Gopher Canyon Road. Do melhor do meu conhecimento do chamado mundo natural, nunca antes tinha ouvido falar dele. Achei tanta feiura que merecia ser sujeito de uma postagem.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Planejamento hebdomadário


Segunda feira logo de manhã cedinho. Coloco todos os remédios na respectiva caixinha para serem tomados durante a semana.São cinco comprimidos e meio de manhã, e outros sete com o outro meio à noite. Assim organizados, posso conferir se remédios da hora foram tomados. A tendência com o envelhecimento, é do número de comprimidos ir crescendo. Por enquanto tem espaço.

sábado, 7 de junho de 2014

O gato


Uma vez passando por Los Angeles, fiquei hospedado na casa de meus amigos Sérgio e Clorinda. À noite, eles tinham um jantar de gala para ir, da comunidade italiana, e eu fiquei em casa com seus três filhos... e o gato. Me coube dormir no sofá da sala. O gato, um gatão, não parava de vir passar o rabo no meu corpo. Não sabendo o que fazer no caso, fui até o quarto do Marcello, o filho mais velho, pedir alguma orientação. Me respondeu com cara de obviedade: "Give love". Que eu desse carinho. Voltei para a sala, peguei o bicho pelo cangote, joguei-o no lavabo e bati a porta. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

junhos


Junho, Leandro Bassano (Bassano del Grappa, 26 de Junho de 1557 — Veneza, 1622)


Chegou o mês de junho, como acontece todo ano. Junho perturba pela sua ambivalência. Os dias vão diminuindo até o solstício de inverno, quando recomeçam a crescer. Mesmo recuperando a duração do tempo de luz solar, é o inverno. No hemisfério sul. Ao contrário do que ocorre no norte, junho marca o fim do semestre letivo, mas não é o fim do ano, que recomeça em agosto. Antes que o povo se disperse nas férias do mês de julho, acumula festas -- festas juninas, tipo caipira. Para o friozinho, quentão. Matador. Santo Antônio, casamenteiro, dia dos namorados, e a cada 4 anos a copa do mundo de futebol, com rojões e mais rojões, cada gol do Brasil. Usando o arredondamento para cima, já posso dizer que fiquei um ano mais velho. Semi bom e semi ruim.

Gilberto Gil sintetiza: 

Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também
Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo



terça-feira, 3 de junho de 2014

El rey abdicou


No ano de 1993, passei um mês em Madrid, num programa de intercâmbio com a Universidade Complutense. Posso assim dizer que fui um semisúdito de Juan Carlos I e da reina Sofia, que é griega. Todas as manhãs, no noticero, tinha obrigatoriamente notícias do casal real. Por onde passavam, a gente ficava aguardando agitando bandeirolas. Iam prá lá e pra cá, fazendo inaugurações, discursando na abertura de eventos, passando o pelotão em revista, no palanque ou no camarote presidencial, acenando. Uma cozinheira, que teve a sorte de servir ao rei no bandejão escolar que ele estava inaugurando, não conteve lágrimas de emoção ao ser entrevistada para o noticero. Enquanto isso o primeiro ministro tratava de governar. Quando voltei ao Brasil, tinha o Itamar Franco, que quase chegou lá, mas senti falta de um rei e de uma rainha de verdade zanzando no pedaço.